
Casa de Dinamite (A House of Dynamite, 2025), que estreou na sexta-feira (24) na Netflix e rapidamente se tornou um dos títulos mais vistos na plataforma, é o novo longa-metragem da cineasta estadunidense Kathryn Bigelow, ganhadora do Oscar de melhor filme — como uma das produtoras — e de melhor direção por Guerra ao Terror (2008).
Nesse título, ela acompanhou um esquadrão antibombas do exército dos EUA durante missão no Iraque. Depois, em A Hora Mais Escura (2012), voltou a usar o Oriente Médio como cenário para reconstituir a caçada ao terrorista Osama bin Laden, comandante dos atentados ao World Trade Center, em Nova York, e ao Pentágono, em Washington, no 11 de Setembro.
Em Casa de Dinamite, os Estados Unidos estão novamente na mira de um ataque, agora muito mais letal, mas os inimigos não são árabes. Suspeita-se que tenha sido disparado pela Rússia, pela China ou pela Coreia do Norte o míssil nuclear que pode devastar a região metropolitana de Chicago, matando 10 milhões de pessoas e fazendo eclodir a Terceira Guerra Mundial — provavelmente, a Última Guerra Mundial.
Filmes sobre a ameaça nuclear existem aos montes: Dr. Fantástico (1964), O Dia Seguinte (1983), Jogos de Guerra (1983), A Caçada ao Outubro Vermelho (1990), Maré Vermelha (1995), O Pacificador (1997), A Soma de Todos os Medos (2002), Alerta Lobo (2019)... O que Casa de Dinamite oferece de diferente é, principalmente, o seu formato narrativo — que se mostra uma faca de dois gumes.
O roteiro foi escrito por Noah Oppenheim, premiado no Festival de Veneza pelo script da cinebiografia Jackie (2016) e cocriador da minissérie Dia Zero (2025), que retrata as consequências caóticas e perigosas de um atentado cibernético aos EUA. Em Casa de Dinamite, Oppenheim dividiu a trama em três atos, mas todos se passam no mesmo período de tempo: um dia comum de trabalho para os personagens se transforma em um pesadelo asfixiante quando se descobre que o míssil deve atingir seu alvo daqui a 19 minutos.
Dezenove minutos: esse é o tempo que o governo dos EUA e seus militares têm para investigar a origem do disparo, pensar em qual será a reação do país, medir suas consequências e executar ou não o revide.

No primeiro ato, a história é contada pelos olhos de personagens como a capitã Olivia Walker (papel de Rebecca Ferguson), uma das autoridades na chamada Sala de Crise, e o major Daniel Gonzalez (Anthony Ramos), que atua em uma base de defesa contra ogivas nucleares.
Nos dois atos seguintes, figuras que só apareciam em uma videochamada ou de quem só ouvíamos a voz ganham protagonismo, como o general Anthony Brady (Tracy Letts), o secretário de Defesa, Reid Baker (Jared Harris), Jake Baerington (Gabriel Basso), conselheiro da Agência Nacional de Segurança, Ana Park (Greta Lee), uma especialista em Coreia do Norte, e o próprio presidente dos EUA (encarnado por Idris Elba).
Com a inestimável contribuição do editor Kirk Baxter, vencedor do Oscar de melhor montagem, ao lado de Angus Wall, por A Rede Social (2010) e Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2011), Casa de Dinamite é eficaz na construção da tensão. Essa tensão é pontuada, aqui e ali, pela trilha sonora do alemão Volker Bertelmann, oscarizado por Nada de Novo no Front (2022).
As mudanças de perspectiva a cada ato evitam que o público se perca diante do exército de personagens demandados em uma situação drástica como essa, ajudam a compreender as peças e os movimentos de um nervoso xadrez político e militar e permitem detalhar o dilema imposto aos EUA — a certa altura, alguém chega a dizer que a escolha é entre a rendição e o suicídio.

Por outro lado, a estrutura do roteiro mina o envolvimento do espectador com os personagens. Para compensar o curto tempo de cena de cada um, o filme aposta em truques baratos e apressados — a impressão é de que Casa de Dinamite se resolveria melhor no formato de uma minissérie. Em vez de convidar à empatia, os dramas particulares — um pedido de casamento que estava planejado para aquele dia, um pai distante da filha, uma esposa grávida — parecem ter sido jogados aleatoriamente na trama. Uns acabam sendo esquecidos, e outros afloram em momentos que desafiam a suspensão da descrença.
O resultado, quase sempre, denota artificialidade, mas ainda assim alguns atores conseguem emprestar seu carisma para os personagens. São os casos de Rebecca Ferguson, no início, e de Idris Elba, que, no epílogo, reflete sobre o armamentismo dos EUA e vê-se em uma terrível condição: como Elba contou em entrevista à repórter Amanda Capuano para a coluna de Raquel Carneiro na Veja, ele "nunca havia parado para pensar que uma única pessoa tem o poder de iniciar uma guerra e destruir a humanidade".
É assinante mas ainda não recebe minha carta semanal exclusiva? Clique aqui e se inscreva na newsletter.
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano





