
Famoso por Me Chame pelo seu Nome (2017), o diretor italiano Luca Guadagnino vem lançando um filme após o outro. Depois da Caçada (After the Hunt, 2025), que estreou nos cinemas na quinta-feira (16) e é protagonizado por Julia Roberts, sucede Queer (2024), Rivais (2024) e Até os Ossos (2022).
Nesses três títulos anteriores, Guadagnino mirou sua câmera no corpo. Fez da pele de seus atores uma personagem por si só, quase sempre transpirando, como consequência de uma urgência sexual, de um tesão não resolvido, de um desejo condenado à tragédia.
Em Depois da Caçada, Guadagnino foca na palavra. O filme é amplamente discursivo — afinal, seu âmbito é o da filosofia. Mas de novo está no centro da história o sexo, embora desta vez totalmente despido de sensualidade e de consensualidade. E as mãos dizem muito sobre o estado de espírito dos personagens: repare em como podem denunciar uma aproximação indevida, sinalizar camaradagem ou funcionar como escudos emocionais.
Ah, e novamente há a voz de Caetano Veloso na trilha sonora. O cantor brasileiro esteve presente em Rivais com Pecado, faixa em espanhol do disco Fina Estampa (1994), e em Queer com Vaster Than Empires, canção em inglês composta por Trent Reznor e Atticus Ross.
Em Depois da Caçada, Caetano é ouvido na gravação que ele, a cabo-verdiana Cesária Évora e o tecladista japonês Ryuichi Sakamoto fizeram, para a coletânea Red Hot + Rio (1996), de É Preciso Perdoar — samba melancólico de Carlos Coqueijo e Alcivando Luz imortalizado por João Gilberto e Stan Getz nos anos 1970. A versão do duo estadunidense Ambitious Lovers também aparece no filme, que lá no final emprega a bossa nova Lígia (1972), de Tom Jobim.
Depois da Caçada marca a estreia como roteirista de uma atriz pouco conhecida, Nora Garrett. O filme pode colocar Julia Roberts na disputa pelo Oscar. Ela venceu por Erin Brockovich (2000) e foi indicada por Flores de Aço (1989, como coadjuvante), Uma Linda Mulher (1990) e Álbum de Família (2013, também como coadjuvante).
A atriz interpreta Alma, uma professora de Filosofia da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, casada com o psiquiatra Frederik (Michael Stuhlbarg, que rouba a cena). Os dois fazem parte da elite intelectual do país e costumam convidar amigos, colegas e estudantes para visitar sua enorme casa, onde taças e mais taças de vinho embalam conversas envaidecidas sobre Nietzsche, Heidegger, Hegel e Foucault.

A turma fala também sobre moral coletiva, tortura pública, "descontentamento performático" e políticas de gênero: ser um homem branco, heterossexual e cis, como o professor Hank (Andrew Garfield), virou desvantagem? Existe favorecimento para, por exemplo, uma mulher negra e lésbica, como Maggie (Ayo Edebiri, da série O Urso), a aluna de Alma prestes a apresentar sua tese de PhD?
Um tique-taque alto e incessante que se ouve durante os primeiros minutos de Depois da Caçada alerta o público: há uma bomba-relógio por ser detonada. A crise explode no dia seguinte de uma festa. Maggie procura Alma e acusa Hank, que havia a acompanhado até a casa dela, de estupro.

Nem Alma nem o espectador terão provas da violência sexual. É um caso de ela disse, ele nega. A protagonista fica em uma corda bamba. Tenta equilibrar o apoio a Maggie com a lealdade a Hank, que é, sim, um típico galanteador e que concorre com Alma pela vaga de professor titular na universidade, mas que também é seu melhor amigo — ou talvez mais do que isso, como suas mãos salientes transparecem.
O conflito e seu desdobramento permitem identificar Depois da Caçada como um filme que discute o #MeToo — movimento contra assédio e agressão sexual que ganhou força a partir em 2017, quando surgiram as denúncias contra o produtor de Hollywood Harvey Weinstein — e a cultura do cancelamento.
Esse segundo tema é referenciado, por exemplo, pela personagem Kim (Chloë Sevigny) na cena do bar, quando toca uma música dos Smiths. O ex-vocalista da banda, Morrissey, já deu declarações consideradas racistas e xenofóbicas e já foi visto em um programa de TV com o distintivo de um partido de extrema-direita, o For Britain. Mas Kim, a terapeuta que tem um pôster de Dirty Harry no seu escritório, não consegue deixar de amar essas canções.

Afeito a controvérsias e a provocações desde um de seus primeiros longas-metragens, 100 Escovadas Antes de Dormir (2005), Luca Guadagnino não pinta Maggie como uma guardiã da ética e da virtude e usa nos créditos de abertura uma fonte e uma estética semelhante às dos filmes de Woody Allen, cineasta acusado de abuso sexual por uma filha adotiva, Dylan Farrow, e cancelado na indústria estadunidense. A festa na casa de Alma e Frederik também alude às obras de Allen.
O próprio título do filme de Guadagnino é bastante provocativo: nesta caçada, os homens estão no lugar das bruxas. E o diretor italiano também aponta a hipocrisia que pode aflorar em situações assim. Como escreveu a crítica Nadira Goffe na Slate, as fictícias lideranças acadêmicas "vivenciam um cabo de guerra entre o que acreditar e o que eles sentem que devem acreditar, porque a perspectiva de questionar uma jovem lésbica negra é simplesmente ruim demais para arriscar sequer fazer perguntas imparciais sobre o caso". Todos na órbita de Maggie preferem simplesmente limpar suas mãos.
Mais do que #MeToo ou a cultura do cancelamento, porém, o que mais se debate nos longos diálogos de Depois da Caçada é a Geração Z, aquela dos nascidos entre 1997 e 2012. Pela voz de seus personagens mais velhos, vividos por Julia Roberts, 57 anos, e Andrew Garfield, 42, Luca Guadagnino, 54, critica os jovens que acabaram inspirando o rótulo de Geração Mimimi.
Esses jovens foram protegidos ou mesmo mimados por pais que quiseram poupar os filhos das dificuldades e dos traumas enfrentados ao longo de suas vidas. O efeito pode ser nocivo: insegurança emocional, baixa tolerância à frustração, incapacidade de lidar com o não, imediatismo (que é impulsionado pela cultura das redes sociais).
Positivamente, falam mais sobre saúde mental e valorizam mais a qualidade de vida e o bem-estar do que as gerações anteriores. Por isso, acabam sendo campeões de reclamações no ambiente de trabalho, queixando-se de sobrecarga, exaustão e falta de reconhecimento e apontando sintomas de burnout.
Hank, logo no começo do filme, lamenta que "a ofensa virou o maior pecado". Alma condena a visão utópica de uma sociedade com "celas acolchoadas" e "alertas de gatilho". E repreende Maggie quando a jovem protesta que a conversa entre as duas ficou "desconfortável":
— Nem tudo precisa ser confortável na vida.
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