
No vasto e inesgotável universo de filmes sobre a máfia, dois títulos são considerados essenciais. Um é a trilogia O Poderoso Chefão (1972, 1974 e 1990). O outro é Os Bons Companheiros (Goodfellas, 1990), que no sábado (18) foi adicionado ao menu da Netflix (e que também está disponível na HBO Max).
Os Bons Companheiros valeu a Martin Scorsese o Leão de Prata de melhor diretor no Festival de Veneza. No Oscar, recebeu o prêmio de ator coadjuvante (Joe Pesci) e disputou as estatuetas douradas de melhor filme, direção, atriz coadjuvante (Lorraine Bracco), roteiro adaptado (por Nicholas Pileggi e Scorsese) e edição (Thelma Schoonmaker).
Se em O Poderoso Chefão o cineasta Francis Ford Coppola retratou a Cosa Nostra pelo alto da pirâmide, consagrando a representação arquetípica que seria copiada pelos bandidos da vida real, em Os Bons Companheiros os protagonistas são mafiosos do baixo clero em busca de ascensão hierárquica dentro da organização. São os homens que precisam sujar as mãos, ou seja, os operários do crime.
O filme é baseado em um livro (Wiseguy, no nome original)- do jornalista e escritor Nicholas Pileggi, que repetiria a parceria com Scorsese em Cassino (1995), espécie de continuação espiritual de Os Bons Companheiros.
A trama também tem muito da vivência do próprio Scorsese. Criado no bairro de Nova York conhecido como Little Italy, ele cresceu íntimo da influência e ação do crime organizado entre a comunidade de imigrantes italianos. Teve parentes e amigos tragados pela tentação do dinheiro fácil.
"As pessoas reclamam da minha representação dos ítalo-americanos. Mas não posso fazer nada. Sinto muito. Aquilo é só a minha percepção do que eu vivia", disse o cineasta no livro Conversas com Scorsese, de Richard Schickel.

"Toda noite" Scorsese ouvia o drama sobre as dívidas, os dilemas sobre o certo e o errado, as "famílias", a violência da selva urbana. No cinema, seu primeiro olhar mais apurado para esse submundo foi em Caminhos Perigosos (1973). Harvey Keitel interpreta Charlie (o nome do pai do diretor), um pequeno mafioso que acredita que "você paga seus pecados na rua, não na igreja".
Atormentado por sua devoção ao catolicismo e a vida proporcionada por seu trabalho ilícito, o protagonista ainda precisa lidar com a imprudência intempestiva de seu melhor amigo, Johnny Boy (Robert De Niro), que se recusa a arranjar emprego e deve muito dinheiro — gasto no jogo e na farra — a um agiota. O refúgio emocional de Charlie é Teresa (Amy Robinson), prima de Johnny Boy, mas ela também o fustiga, questionando a suposta integridade que ele diz manter.
Em Os Bons Companheiros, Scorsese narra a história real de Henry Hill (1943-2012), personagem interpretado por Ray Liotta (1954-2022). Trata-se de um pequeno marginal do bairro nova-iorquino do Brooklyn que cresceu idolatrando gângsteres como o capo local Paulie Cicero (Paul Sorvino), o frio e habilidoso Jimmy Conway (Robert De Niro) e o sádico e insano Tommy DeVito (Joe Pesci). Detalhe curioso: a mãe do endiabrado Tommy é vivida pela mãe do diretor, Catherine Scorsese (1912-1997).

Tommy protagoniza uma das cenas inesquecíveis de Os Bons Companheiros: aquela em que Henry, após ouvir uma das suas histórias, diz que o personagem de Joe Pesci é "um cara engraçado". Tommy não gosta do comentário e passa a questionar Henry sobre isso: "Sou engraçado como? Tipo um palhaço? Eu te faço rir?". A tensão é absolutamente palpável, e o tempo congela: tudo não dura mais do que 60 segundos, mas parece uma longa e interminável sessão de tortura psicológica e ameaça de agressão física.
A essa altura, Henry, apadrinhado por Jimmy, já havia galgado degraus dentro do bando. Seu teto, no entanto, é baixo: por ter sangue irlandês, jamais será aceito na elite mafiosa.

Nessa escalada, o ganancioso Henry se casa com uma mulher judia, Karen (Lorraine Bracco), mas acaba seduzido por aquele ambiente de poder, glamour e virtual impunidade. Ele perde o rumo ao se envolver com drogas e embarca numa viagem sem volta e violenta.
Scorsese retrata essa jornada com propriedade e maestria, desde o vocabulário (contaram mais de 300 vezes em que é dito o palavrão "fuck") à encenação — é espetacular, por exemplo, o plano-sequência na entrada do clube noturno dos mafiosos, o Copacabana.
"O Copacabana é o Valhalla. Quando alguém conseguia uma mesa lá, era como estar numa corte de reis", compara Martin Scorsese no livro de conversas com o crítico Richard Schickel. "O perigo do filme é que os jovens podiam ver aquilo e pensar: ei, essa vida é fantástica. Mas é preciso ver a última hora do filme, quando as coisas começam a dar errado para valer."
É assinante mas ainda não recebe minha carta semanal exclusiva? Clique aqui e se inscreva na newsletter.
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano





