
O roqueiro mais maldito de Porto Alegre é o personagem do documentário Amor e Morte em Julio Reny (2025), que já foi exibido em sessões especiais na Capital e em festivais no Brasil e no Exterior, mas ainda não tem data de estreia marcada.
Dirigido por Fabrício Cantanhede, o filme retrata a turbulência emocional e as dificuldades financeiras de Julio Reny, que recentemente chegou a colocar à venda o seu único violão.
A sinopse do documentário merece ser reproduzida: na cena roqueira gaúcha desde os anos 1970, Julio Reny levou a trilogia sexo-drogas-e-rock'n'roll a níveis extremos. Entre palcos, cabarés e funerais, o filme narra sua história através de um longo e revelador depoimento do protagonista, que descobriu recentemente que tem esquizofrenia e transtorno bipolar.
A propósito de sexo, no filme Julio rememora a época em que namorava três mulheres simultaneamente: "As três se odiavam, mas sabiam da existência uma das outras".
A propósito de drogas, no filme Julio admite: "Hoje tô com vocês gravando esse filme, ocupado, contando a minha vida, desabafando. Mas amanhã... Amanhã vou ter de entrar na narcotização e esquecer meu tédio e minha solidão, meu sofrimento, das horas que não passam neste apartamento. Até rimou. Poderia virar a letra de uma canção, se eu voltasse a compor".
A propósito de rock'n'roll, no filme Julio diz que vai "morrer sendo um rocker, sendo um roqueiro".
O documentário inclui entrevista com uma das filhas de Julio, Consuelo, e depoimentos — ora atuais, ora antigos, em VHS — de Carlos Gerbase, Edu K, Wander Wildner, Carlos Eduardo Miranda (1962-2018), Castor Daudt, Carlos Magno, Mauro Borba, Juarez Fonseca e Claudinho Pereira (1947-2025).
— O Julio é uma pessoa que não entra nos caminhos fáceis, ele prefere fazer as coisas como ele acha que devem ser — diz Gerbase.
— O Julio é um cara que gosta de estar recomeçando, não entendo bem porquê — afirma Edu K.
— Ele sempre passou a impressão de ser um dropout, que não quer se misturar, não por arrogância, mas por um modo de ser, por temperamento, uma característica própria de ser mais ensimesmado — comenta Juarez.
— Quer coisa mais roqueira do que a vida do Julio Reny? Morte da mulher, solidão, essas coisas dele, isso tudo vira lenda — aponta Claudinho.
Esses depoimentos fazem um brevíssimo e, obviamente, incompleto resumo da carreira artística e da vida pessoal do porto-alegrense Julio Reni Barbo, o Julio Reny, 66 anos. Com voz marcante, ora poderosa, ora delicada, ele liderou bandas como a KM 0, a Expresso Oriente, os Cowboys Espirituais e os Irish Boys; trabalhou como ator em filmes seminais do cinema gaúcho — Deu pra Ti Anos 70 (1981), de Giba Assis Brasil e Nelson Nadotti, e Verdes Anos (1984), de Carlos Gerbase e Giba Assis Brasil —; comandou programas como Negras Melodias e A Hora do Jazz entre 1987 e 1997, quando era radialista na Ipanema FM; e foi anteriormente biografado pelo jornalista e escritor Cristiano Bastos no livro Julio Reny: Histórias de Amor & Morte (2015), que o autor define como uma biografia "autorizada, mas sincera até doer".

Amor e Morte é justamente o nome de uma das músicas mais famosas do cantor, compositor e guitarrista, ao lado de Não Chores Lola, Cine Marabá, Mil Noites, Uma Tarde de Outubro de 73, Anita, Café Marrakesh, Cão Vagabundo e Jovem Cowboy. Suas canções têm, ao mesmo tempo, frescor e amargura. À frente da Expresso Oriente, formada em 1986, juntou percussão, saxofone e teclado a baixo, guitarras e bateria, criando uma sonoridade tão pop quanto sofisticada. Nos Cowboys Espirituais, que surgiram em 1997, cruzou o rock com o country e com o rap.
As letras, por sua vez, pedem "amor e morte" (Amor e Morte), falam de "coração partido", da "cama vazia" e do "filme sem ilusões" (Não Chores Lola), contam que "quando a natureza humana te destrói, na solidão da noite é o que dói" (Tenha Fé). Têm personagens amargos e solitários, reflexo da própria personalidade de Julio Reny, que se considera tanto um outsider, um maldito, quanto um perdedor, um fracassado. No documentário, ele chega a pedir para parar quando relembra a frustrada participação no festival Rock Unificado, realizado em 1985 no Gigantinho. Um olheiro da gravadora RCA escolheu as bandas que participariam do álbum Rock Grande do Sul, responsável por apresentar ao Brasil Engenheiros do Hawaii, Replicantes, De Falla, Garotos da Rua e TNT. Julio Reny e a KM 0 ficaram de fora.
— É uma dor que eu vou levar para o túmulo, a de não ter estourado nacionalmente Amor e Morte e Não Chores Lola — conta Julio, que credita o desastrado show (a banda atrasou, o som estava baixo, o guitarrista Edu K, parecia "tocar amarrado", houve até uma briga na plateia) a um "feitiço brabo" feito por um vizinho, que culpava o músico pela morte por evenenamento de seus cães. — Perdi a minha corrida do ouro. Caí em desgraça com as gravadoras por causa dessa maldita noite, desse maldito show, desse maldito feitiço.

Maldito é uma palavra que Julio Reny usa também para se referir a si próprio. Repare em outros dos depoimentos no documentário:
— Eu sou um maldito do rock gaúcho, essa que é a verdade. Às vezes, levo só meia dúzia (para me ver) no bar e toco por cem reais. Ou menos até, quando tô desesperado.
— Todas as pessoas da minha vida morreram. Perdi toda a minha família, só restaram as minhas filhas, minhas duas filhas dos dois casamentos. Sou um cara muito sozinho, só tenho meus companheiros de estrada e poucas pessoas que me cercam.
— Eu tô muito doente da catarata, inoperável. Se eu operar, já fico cego, três peritos já me disseram isso. Ou fica cego pela catarata, ou fica cego de vez pela operação.
— Sou um pobre diabo. Um solitário que sofre de depressão, toma remédios fortes pra isso, que tem de tomar remédio pra dormir. Mas sou um homem de fé, sabe? Rezo muito, rezo muito. Sou crente. Sou que nem o Roberto Carlos, um homem de fé, meu ídolo e meu herói.
— Tive muita sorte e muito azar. Sou um pobre coitado que foi condenado à solidão nos derradeiros anos de sua vida. À solidão e ao tédio.
— Quero morrer dormindo e acordar no outro lado. E sei que pelos meus vícios e pelos pecados que cometi eu não vou acordar no paraíso, vou acordar no inferno. Vou rezar pra sair do inferno.
Se a transcrição desses depoimentos não foi suficiente, convém avisar que, apesar de pontuado por músicas radiantes e por momentos de humor, Amor e Morte em Julio Reny tem uma atmosfera soturna e claustrofóbica, realçada pela direção de fotografia em preto e branco, pela trilha sonora instrumental e pelo enquadramento da câmera, quase sempre mostrando apenas o rosto do personagem. Vale inclusive um alerta de gatilho: no filme, Julio Reny revela detalhes de sua tentativa de suicídio.
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