
Disponível desde sexta-feira (3) na Netflix, Monstro: A História de Ed Gein (Monster: The Ed Gein Story, 2025) tem uma armadilha terrível para o público que rapidamente a transformou na série mais vista do momento na plataforma de streaming.
Na verdade, há mais de uma armadilha para a audiência ao longo dos oito episódios da minissérie sobre Ed Gein (1906-1984), serial killer do Estado de Wisconsin, nos Estados Unidos, que inspirou personagens dos filmes Psicose (1960), O Massacre da Serra Elétrica (1974) e O Silêncio dos Inocentes (1991).
Atenção: o texto a seguir tem SPOILERS e detalhes perturbadores sobre atrocidades cometidas em crimes reais.
A primeira armadilha é para quem valoriza a palavra "história" no título nacional. O original, que não emprega history (essencialmente não ficcional e factual), mas story (uma narrativa que pode ser verdadeira, fictícia ou uma mistura de ambos), é mais honesto: a minissérie traz uma versão bastante livre dos acontecimentos, com espaço generoso para a imaginação ou mesmo a mentira.
A segunda armadilha é que a trama coloca o espectador na condição de cúmplice do chamado Açougueiro de Plainfield. Entre outras barbaridades, verdadeiras ou exageradas, Ed Gein esquartejava e esfolava suas vítimas e os corpos roubados do cemitério, todos de mulheres; violava sexualmente os cadáveres; confeccionava e vestia máscaras, calças, espartilhos e cintos feitos com pele humana; usava crânios para fabricar tigelas; e mantinha nove vulvas em uma caixa de sapatos.

Mais do que cumplicidade, a minissérie espera da gente algum tipo de empatia para com o protagonista interpretado com gana por Charlie Hunnam, ator britânico que ficou famoso ao estrelar o seriado Filhos da Anarquia (2008-2014): vivendo isolado em uma área rural, Gein era constantemente humilhado pela mãe que ele idolatrava, Augusta (Laurie Metcalf), era atormentado pela sua sexualidade — ou sua identidade de gênero — e tinha um transtorno mental ainda não diagnosticado, a esquizofrenia.
Mais do que pedir cumplicidade e empatia, talvez Monstro: A História de Ed Gein também proponha uma espécie de redenção para Ed Gein. (Reforço o ALERTA DE SPOILER.) No episódio final, quando já estava vivendo seus últimos anos em um hospital psiquiátrico, ele se orgulha de "ter contribuído para o mundo", ao ajudar policiais a capturarem outro notório assassino serial, Ted Bundy (1946-1989); e quando morre de insuficiência respiratória e cardíaca provocada por um câncer de fígado, Gein ganha direito a uma iluminada subida ao céu, em uma sequência de dança embalada pelo maior sucesso da banda Yes, Owner of a Lonely Heart (1983), cujo título significa dono de um coração solitário e cujos versos parecem uma autorização para suas atitudes abjetas: "Seja você mesmo, dê a seu livre-arbítrio uma chance".

A terceira armadilha é fazer o espectador se sentir envergonhado (ou mesmo culpado) por consumir obras sobre serial killers e recriações de crimes reais que não raro glorificam o assassino e trivializam suas vítimas. Séries como Monstro: A História de Ed Gein só existem porque, ora, há uma demanda voraz e sádica. O personagem encarnado por Charlie Hunnam quase quebra a quarta parede, quase aponta o dedo para o público quando diz a um interlocutor:
— É você que não para de olhar.
Trata-se de uma armadilha hipócrita. Afinal, a Netflix mantém a todo vapor a produção de documentários do subgênero conhecido como true crime, e Monstro: A História de Ed Gein é a terceira temporada da série criada por Ryan Murphy e Ian Brennan para ficcionalizar casos policiais chocantes.
Na primeira, eles centraram o foco no homicida canibal Jeffrey Dahmer (1960-1994), e na segunda reconstituíram a história dos irmãos Lyle Menendez e Erik Menendez, que mataram os pais. Murphy também tem no currículo American Horror Story, antologia surgida em 2011 que igualmente estetiza a violência, a tortura, o assassinato.

Não há um pingo de autocrítica em Monstro: A História de Ed Gein. Mas, verdade seja dita, há pelo menos uma provocação desconcertante, uma armadilha realmente terrível.
Depois de ler uma história em quadrinhos intitulada The Bitch of Buchenwald (A Piranha de Buchenwald), Ed Gein fica obcecado por uma personagem real da Segunda Guerra Mundial, a alemã Ilse Koch (1906-1967) — interpretada, na ficção, pela atriz Vicky Krieps, dos filmes Trama Fantasma (2017) e Tempo (2021). Esposa do comandante de um campo de concentração, a mulher utilizava a pele de prisioneiros judeus para fazer abajures, luvas e capas de livros. A minissérie sugere, perturbadoramente: se ficamos fascinados por serial killers, por que não seríamos também por nazistas?
E por que assassinos seriais exercem um encanto? A personagem Adaline (Suzanna Son), com quem Ed Gein tenta um romance, funciona como os olhos do público, que oscilam entre o deslumbramento — pela possibilidade de vivermos nossas fantasias mais sombrias sem nos macularmos de verdade — e a rejeição. A própria Ilse Koch arrisca uma explicação:
— O povo cria os monstros porque precisa de alguém para culpar pelas ações da humanidade. Então, eles prendem o monstro, colocam na praça do vilarejo e enforcam para todo mundo ver, para que todos, unidos, cuspam nele. Assim, tudo pode voltar ao normal. E os fracos voltam para a fila. É assim que se controla a sociedade.
Esse monólogo pode dar a entender que Monstro: A História de Ed Gein exibe discussões profundas, mas está aí a última armadilha da série.

É, de fato, muito interessante abordar a transformação de Ed Gein em um ícone (existe inclusive um museu com artefatos de sua casa, em Plainfield), sua influência na cultura pop, sobretudo nos filmes de terror, e seu impacto na própria criminalidade. O roteirista Ian Brennan e o diretor Max Winkler até ensaiam algumas reflexões, especialmente no segmento sobre os bastidores de Psicose (1960), com Tom Hollander no papel do cineasta Alfred Hitchcock (1899-1980) e Joey Pollari como o ator Anthony Perkins (1932-1992), e nas passagens em que Alanna Darby interpreta Christine Jorgensen (1926-1989), atriz e cantora trans que foi pioneira em cirurgia de redesignação sexual.
Mas Brennan e Winkler preferem o choque visual do que o desenvolvimento de ideias, repetem-se nos atos macabros ou exóticos de Ed Gein e perdem o foco ao inflarem a narrativa com uma porção de personagens que acabam sendo superficiais ou, pior, servindo apenas para a exploração do grotesco — vide a absolutamente gratuita cena de sexo na penitenciária que envolve o serial killer Richard Speck (1941-1991), vivido por Tobias Jelinek.
É uma cena que, além de provavelmente reforçar preconceitos contra a comunidade trans, não tem nenhum propósito na trama. Existe somente como o que chamam de rage bait: um conteúdo criado intencionalmente para provocar raiva e indignação, com o objetivo de gerar mais engajamento — aos olhos dos algoritmos das redes sociais, engajamento negativo também é sinal de popularidade. Ou seja, é mais uma armadilha na qual pode cair o espectador de Monstro: A História de Ed Gein.
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