
Mesmo ainda sem ter visto O Agente Secreto (2025), é seguro apostar que o thriller político dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura vai levar o Brasil de volta à disputa do Oscar de melhor filme internacional, apenas um ano depois da conquista histórica de Ainda Estou Aqui (2024).
A campanha por uma indicação começou oficialmente nesta segunda-feira (15), quando a comissão formada pela Academia Brasileira de Cinema anunciou o representante do país na briga por uma vaga na premiação da Academia de Hollywood. O filme estreia nos cinemas do Brasil no dia 6 de novembro.
Os 15 semifinalistas do Oscar internacional serão revelados em 16 de dezembro, e a lista dos concorrentes sai no dia 22 de janeiro. A 98ª cerimônia de entrega do prêmio mais famoso do mundo será em 15 de março, em Los Angeles.
Com duas horas e 40 minutos de duração, O Agente Secreto é um suspense ambientado na década de 1970, durante a ditadura militar. Wagner Moura interpreta Marcelo, um especialista em tecnologia que chega a Recife em 1977 "fugindo do passado e à procura de um pouco de paz. Mas ele logo se torna um agente do caos na cidade".
Até pouco tempo atrás, o processo de seleção de O Agente Secreto para o Oscar parecia mera formalidade. Quem já viu o sexto longa-metragem de Kleber empilhou elogios e adjetivos. Após a primeira sessão no Brasil, no Cinema São Luiz, em Recife, o crítico gaúcho Marcus Mello, mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS, escreveu no Facebook: "O filme mais aguardado do ano supera todas as expectativas. É um thriller político eletrizante e surpreendente, com sequências antológicas e uma galeria de personagens apaixonantes".
Na reta final, porém, surgiu um forte movimento pela candidatura de Manas (2024), de Marianna Brennand. Os outros quatro rivais eram Baby (2024), de Marcelo Caetano, Kasa Branca (2024), de Luciano Vidigal, Oeste Outra Vez (2024), de Erico Rassi, e O Último Azul (2025), de Gabriel Mascaro.

Disponível no canal Telecine do Amazon Prime Video e do Globoplay, Manas é protagonizado pela promissora Jamilli Correa, adolescente que foi descoberta em uma seleção na periferia de Belém. A primeira obra de ficção de Marianna Brennand, realizadora dos documentários O Coco, a Roda, o Pneu e o Farol (2007) e Francisco Brennand (2012), é baseada em histórias reais de exploração sexual, pedofilia e incesto na Ilha de Marajó, no Pará. Positivamente, a diretora não adota um "olhar estrangeiro", evitando o exotismo espetacular, nem aposta na exposição da brutalidade — seu caminho é o da sutileza, o das elipses e metáforas, o do simbolismo e o do não-dito.
No início de setembro, a campanha de Manas foi impulsionada por uma carta aberta assinada por cerca de 70 lideranças empresariais, como Luiza Helena Trajano, presidente do Conselho de Administração da Magazine Luiza e do Grupo Mulheres do Brasil; Laís Peretto, diretora executiva da Childhood Brasil; Luciana Temer, presidente do Instituto Liberta; Clarissa Sadock, CEO da Comerc Energia; e Ernesto Pousada, presidente da Vibra. O documento afirmava que a escolha do filme para a corrida pelo Oscar sensibilizaria a sociedade sobre a necessidade de debater e combater um dos problemas "mais graves e silenciados do país", que é a violência sexual contra crianças e adolescentes.
Há quem ache que o empresariado também pode ter sido influenciado pelo sobrenome da diretora — os Brennand formam uma das famílias mais ricas de Pernambuco — e por questões políticas. Marianna é filha de Heráclito Fortes, ex-senador por Piauí, ex-deputado federal e ex-prefeito de Teresina, e de Mariana Brennand Fortes, sobrinha do artista plástico pernambucano Francisco Brennand (1927-2019), personagem do segundo documentário da cineasta.
Polêmicas à parte, o tema de Manas é mesmo importante, diria até urgente, o cenário é mesmo relevante para o público do Exterior e o filme é mesmo muito bom. Mas faltavam muitos dos predicados que O Agente Secreto tem.

Vale lembrar e reforçar uma questão básica: não é só temática e qualidade que pesam na briga por uma indicação ao Oscar de melhor filme internacional. São fatores tão ou mais cruciais a visibilidade que o longa-metragem tem junto aos integrantes da Academia de Hollywood, a presença de nomes já conhecidos no Exterior ou em alta e o poder de investimento em marketing e em lobby — afinal, como em qualquer eleição, boas campanhas de publicidade podem se converter em votos.
O Agente Secreto já tinha atraído o olhar da Academia de Hollywood e de jornalistas dos Estados Unidos ao conquistar no Festival de Cannes, um dos principais do mundo, os prêmios de melhor direção, para Kleber Mendonça Filho, melhor ator, para Wagner Moura, e melhor filme pela Fipresci, a federação internacional dos críticos de cinema.
Manas também ganhou troféus em festivais, mas nenhum do mesmo quilate. No Festival de Veneza de 2024, Marianna Brennand venceu a mostra paralela Giornate degli Autori. No Festival de Mannheim-Heidelberg, na Alemanha, ela mereceu o prêmio de cineasta emergente. No Festival de Huelva, na Espanha, Manas levou o Colón de Plata e foi eleito o melhor filme pelo público.
Em seguida ao Festival de Cannes, os produtores de O Agente Secreto assinaram um contrato de distribuição nos EUA com a Neon, a mesma empresa que trabalhou nas campanhas vitoriosas de Parasita (2019) e de Anora (2024), ambos ganhadores da Palma de Ouro em Cannes e, depois, do Oscar de melhor filme.
Aliás, em maio passado a Neon conseguiu sua sexta Palma de Ouro consecutiva. O triunfo de Foi Apenas um Acidente (2025) sucedeu os de Parasita, Titane (2021), Triângulo da Tristeza (2022), Anatomia de uma Queda (2023) e Anora (em 2020, não houve festival, por causa da pandemia de covid-19). A companhia também tem no catálogo títulos como A Pior Pessoa do Mundo (2021), Dias Perfeitos (2023) e A Semente do Fruto Sagrado (2024), todos indicados ao Oscar internacional.
Manas tem como um dos produtores associados justamente Walter Salles, o diretor de Ainda Estou Aqui. Nos EUA, ganhou um padrinho de peso: Sean Penn, ator duplamente oscarizado — por Sobre Meninos e Lobos (2003) e por Milk: A Voz da Igualdade (2008) —, entrou como produtor executivo. Pouco após se associar ao projeto, o astro convidou Marianna Brennand a levar o longa a Los Angeles, com o objetivo de impulsionar sua campanha internacional. A partir do dia 10 de setembro, ele organizou encontros estratégicos e oportunidades para a diretora apresentar pessoalmente o filme a profissionais-chave do mercado. No sábado (13), Penn e outra estrela de Hollywood, Julia Roberts, promoveram uma sessão especial de Manas que foi seguido de um debate com a participação da atriz Dira Paes e mediado pela jornalista Stacy Wilson Hunt, do Hollywood Reporter.
Manas também já tem distribuidora no mercado estadunidense. Mas a KimStim é uma empresa de porte bem menor e com filmes bem menos conhecidos. Entre os títulos que lançou por lá, estão o brasileiro A Febre (2019), de Maya Da-Rin, o português Diários de Otsoga (2021) e o japonês Plano 75 (2022). Não há concorrentes ao Oscar no seu catálogo.

Além disso, os nomes de Marianna Brennand e do elenco de Manas não têm o apelo despertado pela dupla Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura no Exterior. Com Aquarius (2016), o cineasta pernambucano foi selecionado para competir pela Palma de Ouro no Festival de Cannes, apareceu na quarta colocação da lista de 10 melhores filmes do ano elaborada pela revista francesa Cahiers du Cinèma e ganhou o prêmio Directors to Watch no Festival de Palm Springs, na Califórnia. O título também recebeu indicação ao troféu de longas estrangeiros do Independent Spirit Awards, o principal prêmio do cinema independente nos EUA.
Codirigido por Juliano Dornelles, Bacurau (2019) dividiu o Prêmio do Júri em Cannes com Os Miseráveis (2019), também competiu no Independent Spirit Awards e foi eleito o melhor filme internacional pela Associação dos Críticos de Nova York.
Nem Aquarius nem Bacurau foram selecionados para buscar uma indicação ao Oscar internacional. O primeiro perdeu para o obscuro Pequeno Segredo (2016), de David Schürmann, em uma escolha do Ministério da Cultura que para muitos foi uma retaliação política do governo de Michel Temer: em Cannes, Kleber Mendonça Filho e sua equipe protestaram contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff. O segundo foi derrotado por A Vida Invisível (2019), de Karim Aïnouz — que pelo menos é um filmaço —, em uma votação apertada da comissão formada pela Academia Brasileira: o placar foi de 5 a 4. Em 2023, enfim Kleber pôde representar o país, com Retratos Fantasmas, mas o ensaio sobre os cinemas de calçada nem chegou a entrar na lista dos semifinalistas.
Já Wagner Moura é, ao lado de Rodrigo Santoro, o ator brasileiro de maior projeção em Hollywood. Na verdade, o baiano de 49 anos está mais em alta do que o fluminense de 50.
Wagner concorreu ao Globo de Ouro, em 2016, pelo papel de Pablo Escobar no seriado Narcos e atuou em um dos filmes mais badalados do ano passado, Guerra Civil (2024). Recentemente, esteve cotado ao Emmy de ator coadjuvante pelo desempenho na série Ladrões de Drogas (2025).

Por tudo isso, pela soma de todos esses fatores, O Agente Secreto já vinha aparecendo com destaque nas apostas da imprensa especializada. No site da centenária revista Variety, o jornalista Clayton Davis especulou que podem sair cinco indicações: melhor filme, melhor longa internacional, direção, ator e roteiro original (também de Kleber Mendonça Filho). Recentemente, Tânia Maria, potiguar de 76 anos, foi citada na lista "Also in Contention" (também na disputa) da categoria de atriz coadjuvante, lado a lado com as consagradas Emma Stone, Michelle Yeoh e Laura Dern.
Ou seja: dependendo da campanha de marketing do Brasil e da Neon e, claro, do desempenho dos outros candidatos, O Agente Secreto tem potencial para chegar ao Oscar 2026 com mais indicações do que Ainda Estou Aqui — que competiu em melhor filme, atriz (Fernanda Torres) e longa internacional. Pode inclusive quebrar o recorde de uma produção brasileira, pertencente a Cidade de Deus (2002), que concorreu em quatro categorias: melhor direção (Fernando Meirelles), roteiro adaptado (Bráulio Mantovani, a partir do romance homônimo de Paulo Lins publicado em 1997), fotografia (César Charlone) e edição (Daniel Rezende). O sonho é livre.
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