
Dois gigantes de Hollywood encorpam a coleção da editora gaúcha Belas Letras dedicada aos livros do jornalista e escritor britânico Ian Nathan.
Depois de lançar títulos sobre Tim Burton e Quentin Tarantino, em 2024, agora é a vez de Clint Eastwood: O Cineasta Icônico e sua Obra (tradução de Candice Soldatelli, 176 páginas, R$ 169,90) e Steven Spielberg: O Cineasta Icônico e sua Obra (tradução de Áurea Akemi Arata, 176 páginas, R$ 169,90).
No site da editora, existe um combo com os dois volumes, a R$ 539,80, que inclui brindes como canecas, baralhos, marcadores, adesivos, minipôsteres e ecobags.

Com sede em Caxias do Sul, a Belas Letras também está publicando outros dois livraços — pelo menos em tamanho — sobre um diretor cultuado e sobre um filme cultuadíssimo. O primeiro é Kubrick: Uma Odisseia, de Robert P. Kolker e Nathan Abrams. O segundo, Noir Futurista: Os Bastidores de "Blade Runner", de Paul M. Sammon (esse título será tema da coluna ainda em setembro, no máximo na primeira semana de outubro).
Ex-editor da revista Empire, Nathan é o escritor de The Coppolas: A Movie Dynasty, Ridley Scott: A Retrospective e Anything You Can Imagine: Peter Jackson and the Making of Middle-earth. Os livros sobre Eastwood e Spielberg fazem parte de uma série que já retratou também Wes Anderson, os irmãos Coen, Christopher Nolan e Guillermo Del Toro.
Como de costume, os dois novos livros publicados pela Belas Letras trazem na capa o aviso "Não oficial e não autorizado". A ideia de Ian Nathan é se distanciar das biografias do tipo chapa-branca, acríticas e sem informações comprometedoras (a expressão vem da cor das placas dos carros que eram usados por órgãos governamentais no país). Mas o autor não esconde sua paixão pelos personagens. Não era para menos.
Clint Eastwood, 95 anos, e Steven Spielberg, 78, construíram carreiras sólidas com filmes que se firmaram no imaginário do público. Antes de mais nada, são dois grandes contadores de histórias, embora cada um a seu modo.
Eastwood costuma preferir a arte da simplicidade e da sobriedade, indo direto ao ponto, sem muitas firulas. Ele não gosta de "psicobaboseira", como contou em entrevista a Nathan, e raramente admite a existência de subtexto nas suas tramas.
É como diz seu personagem, o fictício cineasta John Wilson, em Coração de Caçador (1990), filme baseado nos bastidores das filmagens de Uma Aventura na África (1951) por John Huston (1906-1987): "É a simplicidade que cria a verdadeira arte. Hemingway reduzia a vida a sua expressão mais simples: coragem, medo, impotência, morte. Não complique. Vai perder seu tempo".
Seus filmes espelham a forma de trabalhar. O set costuma ser um lugar tranquilo — "Ninguém corre em um hospital, e eles estão salvando vidas", disse Eastwood certa vez. O diretor não grita "Ação!" nem "Corta!": sempre mantém baixa e suave sua voz de barítono grave. E apesar de dar ao ator todo o tempo necessário para a preparação, geralmente faz apenas uma tomada de cada cena, para melhor capturar a emoção da primeira vez.

Spielberg não ganhou à toa o apelido de mago do cinema: sempre gostou de inovações tecnológicas e efeitos visuais para incrementar narrativas bastante humanas e emocionais. Vale lembrar sua experiência pessoal com O Maior Espetáculo da Terra (1952), de Cecil B. De Mille, recriada pelo diretor em Os Fabelmans (2022) e recontada no livro de Ian Nathan.
Com 11 anos, Spielberg assistiu com os pais a esse épico sobre o circo. A sequência do acidente de trem o deixou duplamente assombrado: tinha pesadelos, mas também queria entender como De Mille havia produzido aquilo. Então, o pequeno Steven pegou sua câmera super-8 e seu trenzinho de brinquedo para encenar colisões. Pela primeira vez, estava utilizando a magia do cinema para lidar com um trauma.

Juntos, os dois cineastas somam sete vitórias no Oscar e mais 20 indicações. Eastwood ganhou quatro vezes, sempre em dobradinha. Pelo faroeste Os Imperdoáveis (1992), venceu nas categorias de melhor filme, como produtor, e de melhor diretor. Pelo drama de boxe Menina de Ouro (2004), faturou de novo os troféus de filme e direção. Por esses dois títulos, também concorreu ao prêmio de melhor ator. Suas outras indicações como diretor foram pelo policial Sobre Meninos e Lobos (2003) e pelo filme de guerra Cartas de Iwo Jima (2006).
Vale acrescentar que Clint Eastwood é o terceiro diretor mais presente nas listas dos 10 melhores filmes de cada ano elaboradas pelos críticos da prestigiado revista francesa Cahiers du Cinèma. Com 13 citações, só perde para Jean-Luc Godard (1930-2022), com 25, e Ingmar Bergman (1918-2007), com 14. Foi o primeiro colocado em 1992, com Os Imperdoáveis, e no ranking seguinte, com Um Mundo Perfeito (1993).

A Academia de Hollywood laureou duplamente Spielberg, como produtor e como diretor, pelo drama sobre o Holocausto A Lista de Schindler (1993). Depois, ele conquistou de novo o Oscar de melhor direção por outro filme ambientado na Segunda Guerra Mundial, O Resgate do Soldado Ryan (1998). Disputou a estatueta de diretor outras sete vezes: pela ficção científica Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), pela aventura de Indiana Jones Os Caçadores da Arca Perdida (1981), pela fantasia E.T.: O Extraterrestre (1982), pelo thriller Munique (2005), pela cinebiografia Lincoln (2012), pelo musical Amor, Sublime Amor (2021) e pelo autobiográfico Os Fabelmans.
Vale acrescentar que Steven Spielberg ainda é o diretor com a maior bilheteria acumulada: são US$ 10,7 bilhões, acima de James Cameron, com US$ 8,7 bilhões, e dos irmãos Anthony Russo e Joe Russo, com US$ 6,7 milhões.
Os dois livros de Ian Nathan são repletos de fotos de bastidores e dos filmes. Os textos dão o contexto histórico, reconstituem a produção, trazem entrevistas e citações e analisam todos os longas-metragens dos dois diretores. Na verdade, nem todos.
Publicado originalmente em 2023, o volume sobre Clint Eastwood está defasado, mas isso não depõe contra seu autor. É, isso sim, prova da longevidade do cineasta, que em 2024 lançou um dos seus melhores títulos, Jurado Nº 2. Se esse tiver sido mesmo seu canto do cisne, foi um fechamento muito coerente de uma filmografia marcada por dilemas da justiça e do próprio sistema judicial dos EUA, sobre o que é justo na vida, sobre ética, moral, virtude e responsabilidade, e povoada por personagens ambíguos: um velho bandido pode ser mais íntegro do que o xerife, um criminoso convicto sem pudor de matar pode se tornar uma doce figura paterna para o menininho que sequestrou, um ladrão pode ser mais honesto do que o presidente, um reacionário ex-militar pode virar herói de uma comunidade de imigrantes.

O livro de Ian Nathan vai até Cry Macho (2021), que se não foi a anunciada despedida de Clint Eastwood como diretor, marcou sua aposentadoria como ator. A propósito, na introdução o autor afirma que "separar o ator do diretor é quase impossível". Afinal, Eastwood estrelou 24 dos 40 filmes que dirigiu, trazendo a seus personagens todo seu passado como ícone do faroeste (da série de TV Rawhide aos spaghetti westerns de Sergio Leone) e imprimindo neles uma mistura de "força minimalista", "masculinidade casca grossa" e "aura irônica". A ironia era manifestada já no nome da produtora que fundou em 1967, batizada em alusão ao riacho que atravessa sua propriedade em Carmel, na Califórnia: Malpaso (em espanhol, passo em falso ou passo ruim).
Agrupando os filmes em ordem cronológica, Nathan apresenta a carreira de Clint Eastwood desde Perversa Paixão (1971), em que um radialista mulherengo passa a ser perseguido por uma mulher psicótica. Nesse filme, Don Siegel (1912-1991), que dirigiu Eastwood em cinco títulos, incluindo Perseguidor Implacável (1971) e Fuga de Alcatraz (1979), faz uma participação especial. Encarna um barman que dá conselhos ao protagonista, refletindo a relação do astro com Siegel fora das telas.

Alguns filmes são tão emblemáticos que merecem capítulo exclusivo, como os oscarizados Os Imperdoáveis e Menina de Ouro. Nathan também concede esse privilégio para o faroeste Josey Wales: O Fora da Lei (1976), no qual transparecem outras marcas do diretor: o anti-heroísmo, a busca de redenção, o olhar empático para minorias e grupos étnicos marginalizados.
Talvez o crítico britânico pudesse dar a mesma distinção para mais um filme. Ou melhor, dois: A Conquista da Honra (2006) e Cartas de Iwo Jima (2006), que retratam a batalha em uma ilha japonesa no Pacífico, durante a Segunda Guerra Mundial, por dois pontos de vista opostos. No primeiro, Eastwood conta as histórias dos seis soldados que, em 1945, levantaram a bandeira dos EUA em Iwo Jima. No segundo, falado em japonês e estrelado por atores nipônicos. o diretor inspirou-se na correspondência do general Tadamichi Kuribayashi (encarnado por Ken Watanabe) e de outros militares com suas famílias durante os 35 dias de resistência ao massivo ataque das tropas aliadas.
Esse díptico liga a carreira de Clint Eastwood com a de Steven Spielberg, coprodutor dos dois filmes. E o díptico só existiu porque, primeiro, houve o interesse de Eastwood de ver a guerra por outros olhos — o sacrifício, a morte e a dor de mães e esposas só mudam de lado; segundo, por causa da habitual economia do cineasta. Por ter poupado US$ 15 milhões do orçamento de US$ 70 milhões destinado a A Conquista da Honra, teve sinal verde de Spielberg para rodar Cartas de Iwo Jima.

A Segunda Guerra Mundial é um dos cenários mais frequentes de Steven Spielberg: está presente em seis dos seus 34 longas-metragens, se a gente incluir as duas aventuras em que Indiana Jones combate nazistas: Os Caçadores da Arca Perdida e Indiana Jones e a Última Cruzada (1989). A lista se completa com 1941 (1979), Império do Sol (1987), A Lista de Schindler e O Resgate do Soldado Ryan.
A ficção científica é outro território bastante visitado, vide Contatos Imediatos do Terceiro Grau, E.T.: O Extraterrestre, Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (1993), A.I.: Inteligência Artificial (2001), Minority Report (2002) e Guerra dos Mundos (2005).
Há também as cinebiografias e os filmes baseados em episódios históricos, como Amistad (1997), Prenda-me se For Capaz (2002), Munique, Cavalo de Guerra (2011), Lincoln, Ponte dos Espiões (2015) e The Post: A Guerra Secreta (2017).

Ian Nathan lista três marcas de Steven Spielberg que aparecem independentemente do gênero cinematográfico, todas decorrentes da sua infância problemática: os lares desfeitos (seus pais se divorciaram quando ele ainda era criança), a figura paterna ausente ou complicada e "loiras atormentadas" — segundo Nathan, "talvez com base no temperamento frágil da mãe, há uma série de esposas injustiçadas e heroínas em dificuldades, todas notavelmente loiras". Como exemplos, cita a Ronnie Neary de Contatos Imediatos do Terceiro Grau, a Emilie Schindler de A Lista de Schindler e a Mitzi Fabelman de Os Fabelmans, a autobiografia disfarçada do diretor.
Em 2002, por ocasião dos 20 anos de E.T., Spielberg comentou: "O filme é muito mais atemporal do que eu achava. E fala muito da minha vida. O menino no meio de sua família, com os pais recém-divorciados. Esse garoto solitário que busca a amizade, uma relação afetiva intensa que poderia compensar a ausência do pai. Elliot é o garoto que eu sempre quis ser. Como diretor, pude inventar um herói que é mais valente do que eu fui durante a minha infância".

Ian Nathan destaca os principais colaboradores de Spielberg, como o lendário compositor John Williams, que fez a música de 29 filmes, o editor Michael Kahn, que acompanha o cineasta desde Contatos Imediatos do Terceiro Grau, o diretor de fotografia Janusz Kaminski, presente em 20 títulos, e o ator Tom Hanks, já escalado cinco vezes.
Como no livro sobre Clint Eastwood, alguns filmes ganharam capítulo exclusivo: Tubarão (1975), E.T., Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros e A Lista de Schindler. Esses dois últimos, na verdade, dividem o mesmo capítulo, porque lançados na mesma temporada. "Foi um ano como nenhum outro, em uma carreira como nenhuma outra", escreve Ian Nathan.

São "dois filmes tão contrastantes quanto a noite e o dia". Jurassic Park é um legítimo blockbuster hollywoodiano, que faturou US$ 1,1 bilhão e, nas palavras do próprio Spielberg, é uma "sequência para Tubarão, em terra". Premiado em sete categorias do Oscar, A Lista de Schindler também foi muito bem de bilheteria (US$ 322,1 milhões, quase 13 vezes o seu orçamento), mas "assumiu a nobreza de um documento histórico".
Nathan conta que a cinebiografia de Oskar Schindler, um industrial alemão que salvou mais de mil judeus do extermínio nos campos nazistas, permitiu a Spielberg redescobrir sua herança judaica. O crítico conclui assim a comparação entre os dois filmes: "Jurassic Park foi um entretenimento habilmente fabricado, uma tentativa de preencher todos os assentos vazios do cinema. A Lista de Schindler foi uma tentativa de preencher um vazio dentro de si mesmo".
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