
O dia 2 de setembro de 2025 marca o aniversário de 20 anos do filme que protagonizou uma das derrotas mais impactantes e injustas do Oscar: O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain, 2005), atualmente disponível no canal Telecine do Amazon Prime Video (com sete dias de teste grátis) e do Globoplay.
A primeira exibição ocorreu no Festival de Veneza, onde o drama dirigido por Ang Lee recebeu o Leão de Ouro. Era o início de uma trajetória vitoriosa que incluiu quatro Globos de Ouro, quatro Baftas (da Academia Britânica) e os troféus da Associação dos Produtores dos EUA e do Sindicato dos Diretores dos EUA, além da liderança em indicações ao Oscar _ foram oito: melhor filme, direção, ator (Heath Ledger), ator coadjuvante (Jake Gyllenhaal), atriz coadjuvante (Michelle Williams), roteiro adaptado (por Larry McMurtry e Diana Ossana, a partir de conto de Annie Proulx), fotografia (Rodrigo Prieto) e música original (Gustavo Santaolalla).
Como em 17 dos 20 anos anteriores o campeão de indicações levara o Oscar de melhor filme, O Segredo de Brokeback Mountain parecia mesmo o favorito a conquistar a principal estatueta dourada na 78ª cerimônia de premiação da Academia de Hollywood. E o andamento da festa consolidou essa condição. Mas na última volta os caubóis caíram do cavalo.
Por que "Crash: No Limite" ganhou o Oscar?

Ainda na noite daquele domingo, 5 de março de 2006, no Kodak Theatre, em Los Angeles, Ang Lee, o diretor de O Segredo de Brokeback Mountain admitiu seu desconcerto diante da vitória de Crash: No Limite (2005), de Paul Haggis, no Oscar de melhor filme.
— Não sei o que pensar — afirmou o taiwanês Lee, que hoje tem 70 anos. — Estava nas coxias e acompanhava o ritmo habitual da festa com a minha estatueta (Lee ganhou como melhor diretor) e a de roteiro adaptado, e quando chegou a de melhor filme... Não sei o que pensar. Muitos parabéns a Crash.
O anúncio causou espanto no próprio time de Crash — que também faturou em roteiro original e montagem. Continuo achando bom o filme de Paul Haggis, mesmo com seus excessos e suas simplificações. Mas o tempo provou que O Segredo de Brokeback Mountain é um título não somente superior: já adquiriu o status de clássico, desses que poderão ser vistos durante décadas sem jamais perder o viço.

Vale, porém, contextualizar o triunfo de Crash e a queda de Brokeback Mountain.
Aquele foi um Oscar bastante politizado. Os cinco principais concorrentes propunham discussões sobre intolerância racial (Crash), homofobia (Brokeback Mountain), retaliação ao terrorismo (Munique), liberdade de expressão (Boa Noite e Boa Sorte) e o convívio entre a América liberal e a América conservadora (Capote).
O apresentador da festa era um crítico contumaz do então presidente George W. Bush, o comediante Jon Stewart, e o artista homenageado, um cineasta que sempre atacou o militarismo estadunidense e o lado glamouroso de Hollywood — o Robert Altman (1925-2006) de M.A.S.H. (1970) e O Jogador (1992). Aliás, esse Oscar honorário foi premonitório: com histórias paralelas e diversos personagens que se cruzam, Crash segue o modelo consagrado por Altman em Nashville (1975) e Short Cuts: Cenas da Vida (1993).
A festa, contudo, acabou não sendo de todo política — Stewart jamais citou o nome de Bush, apenas aludiu ao presidente ao dizer que, ali na Academia, os votos valem mesmo (em referência à polêmica eleição de 2000); só George Clooney e um clipe de filmes como Sindicato de Ladrões (1954) e Todos os Homens do Presidente (1976) ressaltaram o lado conscientizador de Hollywood; e não se ouviu protestos à guerra no Iraque.
Também a premiação mostrou-se mais tímida. Saíram de mão abanando os dois títulos mais incisivos: Boa Noite e Boa Sorte, de Clooney, e Munique, de Steven Spielberg, que podiam ser lidos como reprovação ao modo com o qual o governo Bush lidava com a "ameaça islâmica", dentro e fora dos EUA. Também não levou o Oscar de filme estrangeiro Paradise Now, sobre os homens-bomba palestinos.

A derrocada de O Segredo de Brokeback Mountain pode ser creditada à rejeição do eleitorado conservador e preconceituoso quanto à diversidade sexual, uma fatia que era bem maior àquela época. Demorou mais de 10 anos para que um filme LGBT+ conquistasse o principal prêmio no Oscar — a honra coube a Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016), de Barry Jenkins, que também foi o primeiro com elenco todo negro a vencer.
Mas por que Crash ganhou? A começar, o filme abordava um tema candente em tempos nos quais charges satirizando o profeta Maomé publicadas por jornais europeus provocaram uma crise internacional, com revolta dos países e dos imigrantes muçulmanos: o medo, a intolerância e a incompreensão entre culturas e etnias diferentes.

Crash também tinha a simpatia de grande parte dos votantes por se passar em Los Angeles, cidade onde vivem ou pelo menos trabalham milhares de membros da Academia de Hollywood.
E, com um olhar tanto trágico quanto esperançoso, trata de um assunto que envolve todos os moradores de grandes cidades dos EUA: brancos, negros, ricos, pobres, latinos e imigrantes asiáticos que não conhecem a realidade uns dos outros até que travam contato de maneira violenta, como em uma batida de carro.
Só que a pancada de Brokeback Mountain é muito mais devastadora e duradoura. Guardamos para sempre as lágrimas que o filme faz derramar.
A trama de "O Segredo de Brokeback Mountain"

Embora seja conhecido como um "faroeste gay", que tira do armário o homoerotismo latente de clássicos do western — vide Rio Vermelho (1948) e Os Brutos Também Amam (1953) —, O Segredo de Brokeback Mountain consegue transcender a questão da sexualidade. Como bem disse Ang Lee ao receber o Oscar de melhor direção, é uma história "sobre a grandeza do amor em si".
É também uma história sobre jovens que lidam com o sexo, a desesperança, segredos e rupturas. Essas características, a ambientação e o nome de Larry McMurtry (1936-2021) aproximam o filme de A Última Sessão de Cinema (1971), título de Peter Bogdanovich (1939-2022) baseado em novela de McMurtry, coautor da adaptação do conto de Annie Proulx dirigida por Ang Lee.
A Última Sessão de Cinema se passa em 1951 e narra a história de dois rapazes, que, apaixonados pela mesma garota, conhecem o sexo e tentam achar rumo na vida enquanto uma cidadezinha do Texas morre lenta e silenciosamente. Em Brokeback Mountain, lenta e silenciosamente, em meio à decadência daquele estilo de vida, nasce uma paixão entre dois rapazes.
O trabalhador rural Ennis Del Mar e o caubói de rodeio Jack Twist — interpretados pelo saudoso Heath Ledger (1979-2008) e por Jake Gyllenhaal, ambos impecáveis — são duas ovelhas desgarradas que, naquela gelada solidão da montanha no Wyoming, nos EUA de 1963, vivem um idílio amoroso, totalmente proibido a eles na planície. O chapéu, as botas de couro, os cavalos e as paisagens ásperas são mais do que figurinos e cenário: simbolizam uma expectativa de masculinidade que consome por dentro os dois personagens.

Ennis e Jack só vão se falar após serem contratados para pastorear ovelhas na montanha. Lá no alto, em uma de tantas cenas esplêndidas, Jack, em primeiro plano, represa sua imensa vontade de espiar Ennis, ao fundo, se despindo.
A voz de Ennis é quase um grunhido, como se, engolindo as palavras, ele pudesse engolir junto seus sentimentos. Eis um homem que se esconde dos outros e de si mesmo. Aí, nessa repressão de desejos que se faz acompanhada da austera fotografia do mexicano Rodrigo Prieto e da melancólica trilha com violões e harmônica do argentino Gustavo Santaolalla, estão tanto a dor quanto a glória de Brokeback Mountain.
A exemplo do que fizera em alguns de seus melhores títulos — O Banquete de Casamento (1993), Razão e Sensibilidade (1995), Tempestade de Gelo (1997), O Tigre e o Dragão (2000) —, Ang Lee retrata personagens que não se enquadram, que acabam reféns das convenções.
Ao mesmo tempo, de modo universal e atemporal, tão delicado quanto contundente, o diretor filma o tema do amor frustrado, o agonizante duelo entre os impulsos do coração e as imposições da sociedade (não à toa, duas mulheres surgem nos caminhos de Ennis e Jack: Alma, encarnada por Michelle Williams, fabulosa, e Lureen, vivida por Anne Hathaway).
Ennis e Jack são dois caras no Oeste, mas poderiam ser um homem negro e uma mulher branca, um judeu e uma palestina, uma moça de família rica e um rapaz pobre, um Capuleto e um Montecchio.
A "resposta" de Pedro Almodóvar ao filme

Antes do taiwanês Ang Lee, a direção de O Segredo de Brokeback Mountain foi oferecida a Pedro Almodóvar.
"Mas nunca acreditei que eles me dariam total liberdade e independência para fazer o que eu queria", disse o cineasta espanhol em entrevistas. "A relação entre esses dois caras (os personagens Ennis del Mar e Jack Twist) é animalesca. Era uma relação física. Para mim, seria impossível ter isso no filme porque era um filme de Hollywood. Você não poderia ter esses dois caras transando o tempo todo."
Quase 20 anos depois, Almodóvar filmou o que ele próprio chamou de "resposta a O Segredo de Brokeback Mountain": o faroeste gay Estranha Forma de Vida (2023), que tem 30 minutos de duração, é estrelado por Ethan Hawke e Pedro Pascal e está disponível na HBO Max e na MUBI.
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