
Em cartaz a partir desta quinta-feira (4) no CineBancários, em Porto Alegre, A Praia do Fim do Mundo é o novo filme de uma das atrizes mais premiadas do Brasil: a paraibana Marcélia Cartaxo, 61 anos de idade e 40 de carreira.
Na verdade, não é tão novo assim. Está sendo lançado agora no circuito comercial, mas A Praia do Fim do Mundo começou sua trajetória em 2021, quando recebeu quatro prêmios na 31ª edição do festival Cine Ceará: melhor filme segundo a crítica, melhor fotografia, assinada por Petrus Cariry, também diretor e coautor do roteiro, ao lado de Firmino Holanda, e melhor direção de arte, por Sergio Silveira.
No mesmo ano, o título rodado em preto e branco também conquistou 10 troféus no 16° Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro, em João Pessoa: melhor filme, direção, atriz (Marcélia Cartaxo), atriz coadjuvante (Fátima Macedo), fotografia, montagem (Petrus Cariry e Firmino Holanda), direção de arte, figurino (Lana Patrícia), desenho de som (Érico Paiva) e trilha sonora (João Victor Barroso). Em 2022, A Praia do Fim do Mundo participou do 18º Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre, o Fantaspoa. Em 2023, esteve em mostras da Filadélfia, nos EUA, em Zabaikalsky, na Rússia, e no Nepal.

O cearense Petrus Cariry tem no currículo O Grão (2007), Mãe e Filha (2011) e Mais Pesado É o Céu (2023), ganhador de três Kikitos no Festival de Gramado: direção, fotografia (do próprio cineasta) e montagem (assinada por Petrus com Firmino Holanda).
A sinopse de A Praia do Fim do Mundo diz o seguinte: em Ciarema (uma praia fictícia no litoral do Ceará), o avanço do mar destrói residências e desabriga famílias. Alice (papel de Fátima Macedo), uma jovem ambientalista, mora com Helena (Marcélia Cartaxo), sua mãe doente, em uma casa constantemente castigada pelas ressacas. Alice quer ir embora, Helena quer permanecer em frente às ondas. No fim, as duas vão enfrentar seus destinos.

Petrus Cariry derramou elogios a Marcélia:
— Minha relação com Marcélia Cartaxo começou muito antes de nos conhecermos pessoalmente. Ela foi uma das primeiras atrizes brasileiras que vi na tela grande, e através dela entrei em contato com o cinema nacional de forma profunda e sensível. Marcélia tem esse poder raro de atravessar o tempo e tocar o espectador com sua entrega, sua verdade e sua presença única. Ela trouxe para A Praia do Fim do Mundo uma densidade emocional silenciosa que nem sempre vemos no cinema. É um filme que fala de fim e recomeço, solidão e memória, temas que ganham outra dimensão quando passam pelo corpo e pela voz de uma artista como ela.

Marcélia recebeu em agosto a principal honraria do Festival de Gramado, o Troféu Oscarito. Ao receber o prêmio no Palácio dos Festivais, a atriz declarou:
— É com muita alegria que recebo o Oscarito. Eu tenho uma felicidade enorme de ter galgado esses 40 anos de carreira, com muita resistência, muito desafio. Mas tive também a alegria de viver minhas personagens com muito amor, muita entrega. Não fiz este trajeto todo sozinha. Tive muitos mestres. Quero agradecer a todos que trabalharam comigo e a todas as pessoas que me acompanham. Quero compartilhar este prêmio com a minha grande diretora Suzana Amaral. Foi ela que me botou nesse universo, foi ela que acreditou em mim.

Marcélia despontou para o mundo quando tinha 21 anos, ao protagonizar um filme de título apropriadíssimo: A Hora da Estrela (1985), adaptação da diretora Suzana Amaral para o romance homônimo de Clarice Lispector. Por sua atuação na pele de Macabéa, jovem nordestina que enfrenta precariedades e a solidão em São Paulo, Marcélia ganhou o Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim.
Filha de uma costureira e de um agricultor, caçula de cinco irmãos e tímida, Marcélia foi descoberta por Suzana Amaral em uma peça de teatro nordestina que estava tendo apresentações na capital paulista. Na entrevista coletiva realizada durante o Festival de Gramado, quando eu pedi à atriz que fizesse um exercício de distanciamento para elencar as principais características do seu trabalho, ela valorizou muito o aprendizado com a cineasta:
— A Suzana teve um carinho enorme comigo. Ela me deu um guia para encarnar a Macabéa, e esse guia eu levo para todas as personagens que eu vou fazer. Todo trabalho começa do zero. É um mergulho psicológico, uma busca muito grande. Suzana mexeu muito com as minhas emoções. Ela me fez sentir cada momento da Macabéa, me deu de presente um trabalho intenso de observação, de memória da emoção, de memória corpórea, de concentração. Eu começo pelo que há de mais simples na personagem. Tento entrar naquela vida com muito respeito e carinho e esquecer da minha vida.
De A Hora da Estrela em diante, Marcélia Cartaxo colecionou prêmios. Foram quatro Candangos no Festival de Brasília: melhor atriz por A Hora da Estrela e Big Jato (2015) e melhor atriz coadjuvante por Fronteira das Almas (1987) e 16060 (1995).
No Grande Otelo, da Academia Brasileira de Cinema, Marcélia foi laureada duas vezes como melhor atriz: por Madame Satã (2002) e por Pacarrete (2019).
Em Recife, venceu o Calunga de atriz em curtas-metragens, por Tempo de Ira (2003).
O Oscarito foi seu terceiro troféu no Festival de Gramado. Antes, Marcélia conquistou os Kikitos de melhor atriz por Pacarrete e por A Mãe (2022).
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