
Às vésperas do aniversário de 78 anos de Stephen King, que será comemorado neste domingo (21), estreia nos cinemas do Brasil o mais recente filmaço baseado em um livro do escritor estadunidense: A Longa Marcha: Caminhe ou Morra (The Long Walk, 2025), em cartaz a partir desta quinta-feira (18).
Autor prolífico, King é uma fonte inesgotável para o cinema, a TV e o streaming. Mais de 350 longas-metragens, curtas e séries partiram de uma história sua — ele só perde para William Shakespeare (1564-1616) em número de adaptações. As versões audiovisuais começaram com Carrie, a Estranha (1976) e incluem joias como O Iluminado (1980), A Hora da Zona Morta (1983), Conta Comigo (1986), Louca Obsessão (1990), Um Sonho de Liberdade (1994), O Nevoeiro (2007) e It: A Coisa (2017).
Em 2025, seu nome está em muita evidência. Antes de A Longa Marcha, já haviam sido lançados dois filmes nos cinemas, A Vida de Chuck (2024) e O Macaco (2025), e uma série no streaming, O Instituto (2025). No dia 26 de outubro, estreia na HBO Max It: Bem-vindo a Derry (2025), que se passa na década de 1960 e mostra as origens do palhaço sinistro Pennywise (novamente interpretado por Bill Skarsgård). Em 13 de novembro, será a vez da nova adaptação cinematográfica do romance O Sobrevivente, agora sob direção de Edgar Wright e com Glen Powell, Emilia Jones, Josh Brolin e Colman Domingo no elenco.
A Longa Marcha é baseado no primeiro romance que Stephen King começou a escrever, em 1966, no contexto da Guerra do Vietnã (1959-1975), mas que só chegou às livrarias em 1979, depois que o escritor já tinha lançado cinco obras. E não saiu com seu nome, mas com um pseudônimo, Richard Bachman, que ele criou para poder publicar mais de um título por ano sem correr o risco de saturar o mercado.
A história tem elementos que se tornariam marcas de King. Os personagens adolescentes que são abandonados à própria sorte pelos adultos. A eterna luta do Bem contra o Mal. O abraço ao suspense e ao terror. O isolamento (físico ou emocional) que funciona como detonador de conflitos. A presença constante da morte e o impacto duradouro do trauma, que podem andar lado a lado com a capacidade humana da resiliência e a possibilidade de redenção.

A direção de A Longa Marcha coube a Francis Lawrence, realizador de quatro filmes da franquia Jogos Vorazes, surgida em 2012 com base nos livros publicados a partir de 2008 por Suzanne Collins. Há semelhanças entre as histórias, ambas distopias que envolvem jogos de sobrevivência, o que deve ter motivado a produtora Lionsgate Films a escalar Lawrence.
Adaptada por JT Mollner, cineasta de Desconhecidos (2023), a trama de A Longa Marcha se passa em um futuro alternativo dos Estados Unidos. Depois de uma grande guerra, o país ficou pobre e passou a ser governado por um regime totalitário. Todos os anos, milhares de adolescentes e jovens são inscritos em um sorteio que vai escolher 50 garotos — ou seja, um de cada Estado — para participar da chamada Longa Marcha, que é transmitida via rede nacional de TV (embora, no filme, nunca vejamos as câmeras nem televisões).

Essa caminhada na estrada existe para, supostamente, inspirar a população, segundo afirma o Major, um vilão propositadamente caricato interpretado por Mark Hamill (que também tem papel importante em A Vida de Chuck). A ideia é mostrar que enormes desafios podem ser superados para que o país volte aos "tempos de glória" — qualquer semelhança com o slogan "Make America Great Again" adotado pelo atual presidente dos EUA, Donald Trump, não parece ser coincidência. Mas a Longa Marcha é, na verdade, desesperadora.
Para começar, não existe linha de chegada e só pode haver um vencedor. Durante dias e noites, os 50 rapazes deverão de caminhar centenas de quilômetros sem jamais parar. Abastecidos regularmente com água e alguns alimentos, eles precisam urinar ou defecar enquanto andam, e, claro, é proibido dormir — mas alguns chegam a cochilar e até a sonhar no percurso.
Os personagens principais são Ray Garraty, vivido por Cooper Hofman, 22 anos, filho do saudoso ator Philip Seymour Hoffman (1967-2014) e protagonista de Licorice Pizza (2021), e Peter McVries, encarnado por David Jonsson, 32, de Rye Lane: Um Amor Inesperado (2023) e Alien: Romulus (2024). Ray, que foi levado à linha de largada por sua mãe chorosa (Judy Greer), é um guri de coração bom mas machucado por um trauma relacionado ao pai. Mais velho e com uma grande cicatriz no rosto, Peter também é altruísta, mas concilia sentimentos nobres com o pragmatismo necessário para a sobrevivência.
Ao seu lado na estrada, Ray e Peter terão tipos como o religioso Arthur Baker (papel de Tut Nyuot); o imberbe Curley (Roman Griffin Davis, que fez o menino protagonista de Jojo Rabbit), que talvez tenha mentido a idade para poder participar; o arrogante, mas vulnerável Hank Olson (Ben Wang); o sádico e provocador Gary Berkovitch (Charlie Plummer); e o atlético Stebbins (Garrett Wareing), um especialista em conhecimentos sobre a Longa Marcha.
Os garotos são escoltados por soldados armados. Se um caminhante estiver num ritmo abaixo de 5 km/h, recebe uma advertência verbal. Depois de três advertências, se o participante não retomar a velocidade mínima obrigatória ele é executado imediatamente com um tiro na cabeça. Essas execuções são uma radicalização da divisão de classes em uma nação tão obcecada pelo sucesso: se você não é um vencedor, é um loser; e se é um perdedor, não merece viver.
— Fico torcendo para que essa parte se torne mais fácil de suportar — diz um personagem após a primeira eliminação.
— É disso que eu tenho medo — retruca o outro, em uma alerta sobre a dessensibilização da sociedade diante da normalização da violência, um problema endêmico dos Estados Unidos, um país que cresceu territorialmente graças ao genocídio dos povos nativos, participa frequentemente de guerras ao redor do mundo e cultua fervorosamente as armas de fogo.
Aliás, vale avisar aos espectadores mais sensíveis: as cenas de execução são bem explícitas. O som alto das salas de cinema amplia o impacto dos estampidos, e não há parcimônia na exibição de sangue.
Esses momentos se tornam mais dolorosos porque o filme faz a gente se afeiçoar pelos personagens à medida que eles contam suas histórias, revelam suas personalidades, tornam-se amigos. A alegria e o carinho das interações entre os caminhantes não escondem a tristeza e o medo de saberem que esses laços de amizade estão condenados ao rompimento, porque só pode haver um sobrevivente ao final da Longa Marcha.
É assinante mas ainda não recebe a minha carta semanal exclusiva? Clique AQUI e se inscreva na minha newsletter.
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano




