
A Netflix adicionou recentemente ao seu menu Doutor Sono (Doctor Sleep, 2019), mais um filme baseado em história do escritor Stephen King, a exemplo de 1922 (2017), Jogo Perigoso (2017), A Torre Negra (2017), Campo do Medo (2019) O Telefone do Sr. Harrigan (2022), que seguem disponíveis na plataforma.
Estrelado por Ewan McGregor e Rebecca Ferguson, o filme tem direção e roteiro assinados por Mike Flanagan, o mesmo de Jogo Perigoso e de outra adaptação de uma trama de King, A Vida de Chuck (2024). Doutor Sono é a continuação tardia de O Iluminado (1980), a adaptação de Stanley Kubrick (1928-1999) para o livro lançado em 1977 por King.
O Iluminado virou um clássico do cinema e atraiu mais leitores, mas King foi um crítico de primeira hora do filme. Só que ele demorou 33 anos para formular uma resposta.
Basicamente, o mestre do suspense e do horror reclama da falta de fidelidade, especialmente em relação ao protagonista. No livro, o aspirante a escritor Jack Torrance é um bom pai que, aos poucos, vai sucumbindo ao alcoolismo e ao isolamento no Overlook, um hotel assombrado onde ele vai trabalhar como zelador durante os cinco meses em que o lugar fica fechado por causa da neve.
No filme, a bebida mal aparece, e desde os primeiros minutos o personagem interpretado por Jack Nicholson é detestável — ainda que seja um detestável adorável: a gente é capaz de decorar e repetir todas as suas falas e seus trejeitos.

O filme Doutor Sono começa de onde O Iluminado parou. Inclusive o ano é 1980. E a música... Chega a arrepiar quando ouvimos novamente aquela trilha em sintetizador. A essa altura do campeonato, não deve ser spoiler dizer que o gurizinho Danny e sua mãe, Wendy, sofreram o diabo no Overlook. Agora eles aparecem em cena tentando remendar suas feridas emocionais.
O diretor Mike Flanagan escolheu atores parecidos com os originais: Roger Dale Floyd, no papel de Danny, e Alexandra Essoe, que interpreta Wendy e fala igualzinho a Shelley Duvall (1949-2024). Se eu estivesse de olhos fechados, poderia jurar que era a mesma atriz.

Danny cresce e, na pele de Ewan McGregor, torna-se um adulto cheio de problemas, obviamente, dado o passado traumatizante. Ele tinha aposentado seu diminutivo — agora prefere que o chamem de Dan — e seus poderes mediúnicos, mas vai precisar voltar à ativa quando uma outra criança mágica, a menina Abra (Kyliegh Curran), passa a ser caçada pelos vilões da história.
Com paciência mas sem lentidão — são duas horas e meia de duração —, Doutor Sono vai apresentando três tramas que depois se entrelaçam. A de Dan, a de Abra e a de Rose Cartola (Rose the Hat no original), uma bruxa má que lidera um grupo meio hippie, meio vampiro, o Verdadeiro Nó, que se alimenta de crianças especiais. Essa personagem é encarnada pela sueca Rebecca Ferguson, a Ilsa Faust da franquia Missão: Impossível e a Lady Jessica Atreides da saga Duna. Ferguson é a verdadeira iluminada do filme. Rouba a cena a cada vez que surge, equilibrando sedução e crueldade.

Doutor Sono é bastante envolvente e perturbador nos seus dois primeiros terços, graças ao surgimento de um novo universo ficcional e à construção de uma atmosfera de medo e perigo, para a qual colabora um truque sonoro: batimentos cardíacos, que por vezes são acelerados, pontuam o filme. Mike Flanagan, que também assina a montagem, é muito elegante na concepção visual.
Mas de vez em quando Flanagan esquece da verossimilhança. Há uma sequência que, mesmo em uma história cheia de elementos sobrenaturais, quebra a suspensão da descrença: apela para uma arma tão comum demais para combater magia. E quando Doutor Sono começa a recriar passos de O Iluminado, escorrega, quase caindo na paródia. Cenas no hotel Overlook podem, em em vez de provocar tensão, gerar risadinhas dos fãs que entendem a referência. Portanto, podem não funcionar com quem nunca viu O Iluminado.

Para Stephen King, Doutor Sono integrou-se naturalmente a O Iluminado e conseguiu redimir o personagem Jack Torrance. Há uma cena comovente — que, de novo, talvez só faça sentido para quem conhece o filme de 1980 — em que Dan depara com um cenário visitado pelo pai.
Ali acontece uma espécie de reconciliação, ainda que truncada. Ali, retomando um aforismo do escritor F. Scott Fitzgerald (1896-1940), o protagonista vivido por Ewan McGregor diz uma frase que dá a dimensão da tragédia que se abateu sobre Jack, a do alcoolismo: "O homem toma uma bebida, a bebida toma uma bebida, e então a bebida toma o homem".
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