
Qual é o maior cineasta estadunidense vivo? A resposta vai variar conforme a bagagem cultural e a sensibilidade de cada crítico, historiador ou cinéfilo questionado, mas provavelmente os nomes mais citados sejam Francis Ford Coppola, Clint Eastwood, Martin Scorsese e Steven Spielberg.
Coppola soma mais vitórias no Oscar (cinco), Spielberg é quem mais arrecadou (US$ 10,7 bilhões) e Scorsese é o único já homenageado pelos três principais festivais do mundo (Berlim, Cannes e Veneza). Mas Eastwood também tem critérios objetivos a seu favor. É o que mais filmes dirigiu (40 longas-metragens), é o mais longevo (tem 95 anos) e é, de fato, o "maior": 1m93cm de altura, contra 1m86cm de Coppola, 1m72cm de Spielberg e 1m63cm de Scorsese.
Existe outro trunfo. Embora os filmes de Coppola, Scorsese e Spielberg exibam marcas autorais bem reconhecíveis, são os filmes de Clint Eastwood que realmente têm a cara do seu diretor: ele interpretou o personagem principal ou um coadjuvante importante em 24 dos 40 longas-metragens que já realizou.
Um dos últimos títulos que protagonizou estreia na Netflix nesta quarta-feira (17): A Mula (The Mule, 2018), que é a sétima maior bilheteria de sua carreira como diretor, com US$ 174,8 milhões arrecadados. Depois, Eastwood se aposentou como ator em Cry Macho (2021) — e pode ter feito sua despedida como cineasta em Jurado Nº 2 (2024).
Em A Mula e em Cry Macho, Clint Eastwood encerra a desconstrução — ou a reconfiguração — de sua imagem cinematográfica: o eterno símbolo de virilidade surge com o corpo curvado e as passadas lentas, sem medo de exibir sua fragilidade, sua vulnerabilidade e até sua ridicularidade. É o ápice de um processo que começou com William Munny, o ex-pistoleiro que virou criador de porcos e que agora mal consegue montar no seu cavalo em Os Imperdoáveis (1992), faroeste que deu a Eastwood o Oscar de melhor filme (como produtor) e o de melhor diretor — ele repetiria a dobradinha com Menina de Ouro (2004).
A Mula faz parte de uma série de filmes recentes nos quais Clint Eastwood, após retratar vultos históricos em Cartas de Iwo Jima (2006), A Troca (2008), em Invictus (2009) e em J. Edgar (2011), adaptou histórias reais de homens comuns que acabam empurrados para o extraordinário. São cidadãos que praticam um ato de bravura, enfrentam as autoridades ou envolvem-se no crime; os heróis controvertidos, que encaram dilemas morais ou viram alvo de investigação.
Enquadram-se em uma ou mais dessas categorias o protagonista de Sniper Americano (2014), considerado o mais letal atirador da história militar dos EUA, com cerca de 160 mortes em quatro temporadas servindo no Iraque, a partir de 2003; o piloto de avião que, em 2009, salvou vidas em um pouso de emergência no Rio Hudson, personagem de Sully (2016); os três jovens que, em 2015, impediram o ataque de um marroquino armado com fuzil, reconstituído em 15h17: Trem para Paris (2018); e o atrapalhado segurança de O Caso Richard Jewell (2019), que evitou uma tragédia na Olimpíada de Atlanta, em 1996, mas acabou pintado como vilão por polícia e imprensa.
O personagem de A Mula é fictício, mas foi baseado na trajetória de uma pessoa real, Leo Sharp (1924-2016). Chamado de Earl Stone, reúne características que o alinham a pelo menos outros três protagonistas encarnados por Clint Eastwood: o ladrão Luther Whitney, de Poder Absoluto (1997), o treinador de boxe Frankie Dunn, de Menina de Ouro, e o viúvo rabugento Walt Kowalski, de Gran Torino (2008). Aliás, sua biografia remete à do próprio cineasta.
Luther, Frankie, Walt e Earl são veteranos da Guerra da Coreia (1950-1953), que teve intervenção de soldados dos Estados Unidos. Eastwood não chegou a combater, mas serviu ao Exército durante dois anos, no mesmo período do conflito militar, trabalhando como salva-vidas e instrutor de natação no Forte Orde, na Califórnia.
Luther, Frankie, Walt e Earl são pais ausentes ou afastados dos filhos. O personagem de A Mula, que durante décadas colocou sua horticultura à frente da família, assume: "Eu achava que era mais importante ser alguém lá fora do que o fracasso que eu era aqui na minha própria casa". É inevitável pensar na vida pessoal de Eastwood, que nunca parou de trabalhar e teve dois divórcios, vários casos extraconjugais e (pelo menos) oito filhos com seis mulheres diferentes.

No início do filme, Earl chega a perder o casamento de sua filha, Iris — interpretada por uma das filhas do cineasta, Alison Eastwood —, por causa de uma convenção de cultivadores de orquídeas. Doze anos depois, é a vez de sua neta, Ginny (Taissa Farmiga), estar prestes a se casar. Com o advento das vendas pela internet, seu negócio acabou falindo, e o banco executou a hipoteca de seu estabelecimento comercial.
É só por não estar trabalhando que Earl comparece a um ensaio do casamento, como observa sua ex-esposa, Mary (Dianne Wiest). Lá, um sujeito que sabe dos problemas financeiros do protagonista apresenta uma proposta. Velhinho, branco e sem nenhum registro de multa como motorista, Earl é candidato perfeito para se tornar uma "mula" do cartel mexicano comandado por Latón (Andy Garcia), transportando cocaína pelas rodovias dos EUA.

O enredo permite a Clint Eastwood retomar traços típicos da sua filmografia. Há a ambiguidade do protagonista — Earl sabe que está cometendo um crime, mas não deixa de sentir prazer com sua competência nesse novo trabalho e usa o dinheiro sujo para fazer o bem.
Como em Rota Suicida (1977) ou Um Mundo Perfeito (1993), a estrada é novamente cenário de uma jornada quase solitária contra tudo e contra todos.
Outra vez, Eastwood faz um desabafo meio irônico, meio melancólico sobre o estado das coisas: as diferenças geracionais, o racismo estrutural, a violência policial, nossa obsessão pelo espetáculo midiático (retratada nas cobranças feitas ao agente federal vivido por Bradley Cooper encarregado de tentar identificar e capturar o homem empregado pelos traficantes).
E também estão em A Mula os temas recorrentes do diretor: a ética, a moral, a responsabilidade, a culpa e a busca — nem sempre eficaz — por perdão e redenção.
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