
Blade Runner: O Caçador de Androides (Blade Runner, 1982) pode não ser exatamente o melhor filme de ficção científica ou o que tem mais fãs — há rivais de peso, como o visionário Metrópolis (1927), o clássico 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), a saga Star Wars (iniciada em 1977), o cerebral Stalker (1979), as franquias Alien (que começou em 1979) e O Exterminador do Futuro (desde 1984), o fenômeno Matrix (1999).
Mas talvez seja o título mais influente do gênero e certamente ocupa o topo da lista se o critério for a obsessão — do público, da crítica e até de seu diretor, Ridley Scott.
O tamanho dessa obsessão pode ser medido pelos números de um livro recém lançado no Brasil pela editora gaúcha Belas Letras, de Caxias do Sul. Trata-se de Noir Futurista: Os Bastidores de "Blade Runner", escrito pelo jornalista estadunidense Paul M. Sammon e traduzido por João Marcello Calil.

É uma Bíblia: resultante de mais de 35 anos de trabalho, tem 768 páginas, com 140 delas dedicadas a entrevistas com Scott e os atores Harrison Ford, Rutger Hauer (1944-2019) e Sean Young, e inclui 105 fotos e ilustrações.
O preço, claro, também é superlativo: R$ 184,90 na capa comum e R$ 269,90 na capa dura, que inclui três marcadores, um adesivo dourado e acesso gratuito ao e-book. Se você for um devoto fervoroso, a edição especial limitada Deckard C1494 custa R$ 699,90 e vem em um box rígido com cena da Los Angeles futurista. Entre os brindes, estão uma redoma de proteção em acrílico e um unicórnio em miniatura de resina.
O livro poderia — e até deveria — ser mais volumoso, mesmo que, consequentemente, se tornasse mais caro. O projeto gráfico deixa a desejar: as imagens são todas em preto e branco, na maioria das vezes em dimensões pequenas (tipo 7cm de largura por 5cm de altura), e algumas têm problema de nitidez. Ainda assim, Noir Futurista é altamente recomendado a todos os que louvam o filme.
Os turbulentos bastidores de um clássico

Paul M. Sammon tornou-se um apóstolo antes mesmo de Blade Runner começar a ser filmado. Em junho de 1980, ele foi designado para escrever uma edição dupla e especial da revista Cinefantastique dedicada à versão do diretor britânico Ridley Scott para o romance Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, do escritor estadunidense Philip K. Dick (1928-1982), um precursor do gênero conhecido como cyberpunk.
O jornalista presenciou todas as etapas — pré-produção, filmagens, pós-produção — e pôde conversar demoradamente com praticamente toda a equipe: de Scott e o produtor Michael Deeley aos roteiristas Hampton Fancher e David Webb Peoples, do designer Syd Mead (1933-2019) ao técnico de efeitos visuais Douglas Trumbull (1942-2022).
Sammon viu em primeira mão o surgimento de um mundo do futuro, acompanhou as muitas reescritas do roteiro e testemunhou atritos no set, sobretudo por causa do estilo perfeccionista — ele filmava a mesma tomada 15 ou 20 vezes, conta Sammon — e do temperamento genioso do cineasta, que na época já tinha prestígio por seu longa de estreia, Os Duelistas (1977), e por outra ficção científica, Alien: O Oitavo Passageiro (1979).
"Nosso protagonista (Harrison Ford) e nosso diretor chegaram ao ponto em que mal falavam um ao outro", conta Katherine Harber, produtora executiva. "Ridley também estava exasperado com a equipe, e muitos na equipe odiavam Ridley. Era simplesmente horrível. Blade Runner foi um monumento ao estresse."
Na página 309, Sammon descreve o péssimo ambiente no estúdio: os atores estavam infelizes, os boatos sobre demissões e danos físicos e emocionais corriam, a equipe estava se aproximando da revolta, a carga de trabalho era horrível, e o diretor, impossível.
As reportagens daqueles tempos foram o embrião do calhamaço baseado em mais de cem horas de entrevistas gravadas com mais de 70 pessoas, conduzidas entre 1980 e 1982 e entre 1993 e 1995. O livro foi batizado com a expressão que Sammon afirma ter criado ao publicar, em 1996, a primeira edição de Noir Futurista — termo que, segundo ele, virou "uma abreviação cada vez mais popular para aludir a um subconjunto muito particularizado de ficção científica distópica e esmagadoramente tecnológica, porém corajosa".
Alguns aspectos do futuro imaginado em Blade Runner não se concretizaram: mais de 40 anos depois, Los Angeles ainda não atingiu 100% de verticalização, e a inteligência artificial ainda não chegou ao ponto de querer nos matar. Mas a cruza de ficção científica existencialista com policial noir futurista antecipou o debate sobre o pós-humano — discutindo questões como ética da ciência, engenharia genética, os dilemas morais da IA, a consciência, a memória e a identidade, a própria biologia da nossa natureza.
E Blade Runner acertou ao prever "um mundo estratificado onde magnatas da tecnologia alcançam níveis divinos de poder", como apontou a crítica Katie Rife na Rolling Stone. Também é possível "perceber sua influência em todos os filmes de tech noir que se seguiram, com arquitetura art déco decrépita, moda decadente e chuva sibilando em neon radiante".
Nome seminal da literatura e dos filmes de ficção científica (leia mais ao fim da coluna), Philip K. Dick morreu quase quatro meses antes da estreia de Blade Runner, a primeira adaptação de uma história sua. No começo, os críticos não comungaram: uns elogiaram os temas e a estética, outros reclamaram do ritmo compassado e da falta de ação.
O público também não se converteu de imediato ao culto em torno do título lançado nos cinemas dos Estados Unidos no dia 25 de junho de 1982: a bilheteria da versão original, US$ 27,6 milhões, ficou abaixo do orçamento, de US$ 30 milhões. Mas o filme foi redescoberto pouco depois, graças ao boca a boca e à popularização do VHS.
A trama de "Blade Runner: O Caçador de Androides"

Publicado em 1968 por Philip K. Dick, Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? prospectava como seria o mundo e a vida em 1992 — o ano foi trocado para 2021 em edições posteriores do livro. O filme Blade Runner está ambientado em novembro de 2019 e muda de cenário: San Francisco deu lugar a Los Angeles.
A Terra foi arrasada por uma guerra atômica, e a subsequente chuva tóxica extinguiu a maioria dos animais. Os Estados Unidos estão tomados por imigrantes orientais. As pessoas se locomovem nas grandes cidades em carros voadores, em meio a edifícios com centenas de andares. Chove sem parar, e a poluição quase impede que se veja a luz do sol.
Desenvolvidos pela Tyrell Corporation, os chamados replicantes são robôs com aparência extremamente humana, fortes, ágeis e inteligentes. Sua única fraqueza é o tempo: foram projetados para se autodestruírem biologicamente após uma vida útil de quatro anos.
Os Nexus-6 trabalham em regime de semiescravidão em estações espaciais, para a perigosa exploração e colonização de outros planetas. Alguns se revoltam e tentam se infiltrar entre a gente de carne e osso. Rebeldes como Pris, personagem de Daryl Hannah, e Roy, encarnado por Rutger Hauer, tornam-se alvos do detetive cínico e melancólico interpretado por Harrison Ford, Rick Deckard, um ex-integrante do esquadrão Blade Runner da polícia de Los Angeles, encarregado de rastrear e executar replicantes fugitivos.
Durante a caçada, Deckard se envolve com Rachael (papel de Sean Young), que não sabe ser uma androide. O protagonista, então, começa a questionar o que distingue as pessoas das máquinas.

Além de ser visionário na abordagem de temas científicos, éticos e sociais que hoje estão permanentemente em pauta e de ser pioneiro em uma estética visual que seria replicada nas décadas seguintes, Blade Runner firmou no imaginário popular cenas como o duelo final. É quando, na iminência da morte, Roy faz o emocionante monólogo de exaltação à vida: "Todos esses momentos ficarão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva".
Também penetrou na cultura popular a música composta pelo grego Vangelis (1943-2022), que misturou os sintetizadores do rock progressivo com o saxofone do jazz e influências árabes. O resultado, tão atmosférico quanto marcante, é uma trilha indissociável do filme, evocada sempre que lembramos de uma cena (e vice-versa).
Vangelis disputou o Globo de Ouro de melhor música original, e Blade Runner concorreu ao Oscar nas categorias de direção de arte (Lawrence G. Paul, David L. Snyder e Linda DeScenna) e efeitos visuais (Douglas Trumbull, Richard Yuricich e David Dryer). No Bafta, da Academia Britânica, o filme foi premiado em fotografia (Jordan Cronenweth), design de produção (Lawrence G. Paull) e figurinos (Charles Knode e Michael Kaplan).
As muitas versões do filme e do livro sobre "Blade Runner"

O Blade Runner que você viu pode não ser o que Ridley Scott filmou. A adaptação cinematográfica da história escrita por Philip K. Dick é um exemplo por excelência da política de relançamento que ficou conhecida como versão do diretor.
Estão presentes todos os fatores, desde decisões de estúdio (no caso, a Warner) à revelia do diretor, o que inclui não apenas cortes, mas também enxertos, até a obsessão do cineasta em lapidar sua obra. Ao todo, conforme enumera Paul M. Sammon no livro Noir Futurista, houve seis versões de Blade Runner: o filme das exibições prévias em Denver e em Dallas, a cópia mostrada em San Diego, o longa-metragem que estreou nos cinemas dos EUA em 1982, a versão internacional, a versão do diretor (Director's Cut, de 1992) e a versão final (The Final Cut, de 2007).
As mais famosas são a original (disponível no Amazon Prime Video), a Director's Cut e a The Final Cut (essas duas podem ser alugadas no Apple TV). Essa é a única sobre a qual Scott teve controle absoluto. As três têm mais ou menos a mesma duração — 113, 116 e 117 minutos, respectivamente —, mas há diferenças significativas entre essas duas últimas e a que o estúdio lançou inicialmente.
Em primeiro lugar, não há a narração em off do personagem interpretado por Harrison Ford, Deckard — recurso que, se por um lado, reforçava a aproximação de Blade Runner com o policial noir, por outro é desnecessário e intrusivo.
Estão presentes três cenas violentas que foram cortadas do filme original no mercado estadunidense: a do replicante Roy perfurando os olhos de seu criador, a da replicante Pris segurando Deckard pelas narinas e a da mão de Roy sendo perfurada por um prego.
Caiu fora o "final feliz" imposto pela Warner e montado com sobras das filmagens de O Iluminado (1980), de Stanley Kubrick. E Ridley Scott adicionou mistério com a cena do sonho com um unicórnio: será que Deckard também é um replicante?
A versão de 2007 também ganhou melhoria de som e imagem e ajustes nos efeitos visuais. O mais significativo é a correção por computação gráfica da cena da morte da replicante Zhora, vivida pela atriz Joanna Cassidy (antes, percebia-se o rosto da dublê). Também foi alterado, com nova dublagem, o número de replicantes mortos antes da caçada, agora dois em vez de um, para fechar a conta dos seis que fugiram com os quatro que precisam ser mortos.

Tal qual aconteceu com o filme, o livro de Paul M. Sammon também foi ganhando diferentes versões ao longo do tempo. Em 2007, para marcar o 25º aniversário de Blade Runner, o autor lançou uma atualização, que trazia 50 mil palavras a mais. Noir Futurista teve uma terceira edição em 2017, nos 35 anos do seu objeto de obsessão.
É essa a edição que a Belas Letras traduziu. No primeiro capítulo, Sammon analisa o filme; no segundo, dedica-se ao livro Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? e à biografia de Philip K. Dick.
Depois, em ordem cronológica, o autor reconstitui as primeiras tentativas de desenvolvimento da adaptação cinematográfica; as idas e vindas no roteiro; a busca pelo elenco; as filmagens — com detalhes e comentários sobre muitas cenas, do Teste Voight-Kampff de Leon Kowalski (personagem de Brion James) às Lágrimas na Chuva —; os atritos no set; o trabalho da equipe de efeitos especiais; as reações dos espectadores nas exibições prévias; as muitas mudanças em Blade Runner ao longo do tempo e a construção do culto em torno da obra de Ridley Scott.
No prefácio, Sammon destaca a reprodução da "mais longa entrevista textual" dada sobre o filme por Harrison Ford, que a considerou "totalmente um pé no saco" — o mau humor do ator transparece em cada resposta. Também valoriza o acréscimo de conversas inéditas com Rutger Hauer e Sean Young e de capítulos sobre a versão final de Blade Runner e sobre Blade Runner 2049, a sequência dirigida por Denis Villeneuve lançada em 2017, mas depois da publicação do livro, que não traz uma análise sobre essa continuação.
Sammon também conta que precisou descartar seções das edições anteriores, para que o livro tivesse um "tamanho aceitável". O material cortado inclui uma lista de filmes e diretores influenciados por Blade Runner e um capítulo sobre outras adaptações das obras de Philip K. Dick — leia a seguir.
O legado do escritor Philip K. Dick em Hollywood

Depois de Blade Runner, Philip K. Dick tornou-se um nome frequente nas produções de Hollywood. Os 36 romances e mais de 100 contos do escritor morto aos 53 anos já renderam cerca de 30 longas, curtas e séries. Entre os títulos recentes, estão O Homem do Castelo Alto (2015-2019), uma distopia em que os EUA foram dominados, na Segunda Guerra Mundial, pela Alemanha nazista e pelo Japão imperial, e o seriado de animação Blade Runner: Black Lotus (2021-2022), que se passa em 2032. Em 2026, estreia a minissérie Blade Runner 2099.
Nascido em Chicago, Dick morou grande parte de sua vida na Califórnia, onde ambientou a maioria de suas histórias. Mas o sol, as praias e as garotas de biquíni que caracterizam aquele Estado deram lugar às sombras, à chuva e a tipos como o do filme O Homem Duplo (2006), personagens dementes, viciados em drogas, em crise de identidade ou acuados por um aparato estatal — capaz de dominar corpos, controlar pensamentos e até ditar futuros.
Futuro: eis uma palavra-chave para entender o apreço do cinema pelo escritor que deu origem a O Pagamento (2003), O Vidente (2007) e Os Agentes do Destino (2011), entre outros filmes talvez não tão badalados. Em suas obras, Dick inventou o porvir, fez previsões, deu asas para a imaginação dos cineastas.
Vide Minority Report: A Nova Lei (2002), dirigido por Steven Spielberg e protagonizado por Tom Cruise. A ação se passa em 2054. A polícia tem a capacidade de zerar a criminalidade, ao prender futuros contraventores e assassinos antes que eles cometam seus crimes. O sucesso se deve a um trio de videntes mutantes, os precogs (pré-cognitivos). Todos os passos das pessoas são monitorados.
Já O Vingador do Futuro (1990), de Paul Verhoeven, adapta uma trama ambientada em 2084, quando a Terra mantém colônias de férias em Marte. Mas só para quem tem muito dinheiro. Trabalhadores assalariados precisam recorrer a implantes digitais que simulam viagens. No planeta colonizado, há um movimento revolucionário contra o empresário que tem o monopólio do oxigênio.
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