
Monstros: O Dilema do Fã, que foi publicado em 2023 nos Estados Unidos e neste ano no Brasil, é o livro certo na hora certa. Sua autora, a crítica e ensaísta cultural estadunidense Claire Dederer, reflete sobre se é possível separar a obra do artista. O que fazer com a arte incrível de homens horríveis? Podemos amar os filmes, os livros, as músicas, os quadros e odiar seus diretores, seus escritores, seus cantores, seus pintores?
Como, por exemplo, continuar assistindo aos filmes de Roman Polanski, que drogou e estuprou uma garota de 13 anos e sobre quem pesam outras acusações de violência sexual contra adolescentes?
Como admirar uma pintura de Pablo Picasso (1881-1973) sem ser assaltado por sua biografia de homem tóxico?
Como ouvir uma ópera de Richard Wagner (1813-1883) diante do zumbido gritante do seu antissemitismo, que foi expressado em palavras no ensaio "O Judaísmo na Música" (1850), e do entrelaçamento de suas ideias e composições ao nazismo?
Como seguir acreditando na existência de "um lugar onde os forasteiros eram aceitos e onde o amor triunfava sobre o mal" depois que J.K. Rowling, com veemência, passou a atacar as pessoas trans? "Se você for uma pessoa trans, ou amar uma pessoa trans, ou simplesmente discordar da fala de Rowling, o que fazer com aquela parte de sua infância que se interligou com Harry Potter?"
São questões em sintonia com a era da produção explosiva de imagens e do consumo maciço de fotos e vídeos em redes sociais como Instagram e TikTok. Se a aparência se tornou infinitamente mais importante, a reputação também passou a ser alvo de uma vigilância maior.
As novas gerações não relativizam tanto o que no passado poderia ser minimizado como "deslize moral", e as redes abriram espaço para visões e vozes que antes eram ignoradas, marginalizadas, silenciadas. A revolta contra o patriarcado e contra a normalização do racismo e de preconceitos sexuais alimenta a chamada cultura do cancelamento.
O ato de cancelar um artista denota um ideal de ética e de pureza por quem o pratica, seja o público, a imprensa ou a indústria. Às vezes, os réus desse tribunal digital merecem mesmo ser condenados; em outras, parece um exagero ou uma hipocrisia transformar um ídolo e um monstro.
Mas quando é uma coisa e quando é a outra?
"Gostaria que alguém inventasse uma calculadora online — o usuário digitaria o nome de um artista, e a calculadora avaliaria a hediondez do crime versus a grandiosidade da arte e emitira um veredito: você poderia ou não consumir a obra de tal artista", escreve Claire Dederer em Monstros: O Dilema do Fã, que foi lançado no Brasil pela editora Amarcord, com tradução do escritor Joca Reiners Terron (384 páginas, R$ 74,90) e uma frase do livro A Hora da Estrela (1977), de Clarice Lispector (1920-1977), na epígrafe: "Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?".
Dederer, 58 anos, não tem respostas para todos os casos analisados no livro. Na verdade, volta e meia uma pergunta abre um leque de novas interrogações. A autora não apenas compartilha os seus próprios dilemas: ela convida o leitor a refletir junto ou por conta própria, de acordo com os pesos e as medidas que usamos, conforme nosso estômago ou nosso coração.
Os casos de Roman Polanski e Woody Allen

Os primeiros personagens do livro de Claire Dederer são dois cineastas consagrados: Roman Polanski e Woody Allen.
Polanski, 92 anos, ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e o Oscar de melhor direção por O Pianista (2002) e concorreu na mesma categoria por Chinatown (1974) e Tess (1980). No Festival de Berlim, recebeu o Urso de Ouro por Armadilha do Destino (1966) e o Urso de Prata por O Escritor Fantasma (2010). Em Veneza, seu penúltimo longa-metragem, O Oficial e o Espião (2019), conquistou o Grande Prêmio do Júri e o troféu da crítica.
"Não existe nenhuma outra figura contemporânea que equilibre estas duas forças de forma tão homogênea: o absoluto da monstruosidade e o absoluto da genialidade. Polanski fez Chinatown, quase sempre considerado um dos melhores filmes de todos os tempos. Polanski drogou e estuprou analmente Samantha Gailey, de 13 anos. Esses são os fatos, irreconciliáveis. Como eu me sustentaria entre essas contradições?", indaga Dederer, adicionando um complicador: o próprio Polanski "foi uma vítima, pois sua mãe foi assassinada em Auschwitz, seu pai foi preso em campos de concentração, sua esposa e seu filho ainda não nascido foram assassinados pela família Manson".
Allen, 89 anos, já foi homenageado com um prêmio pela carreira nos festivais de Veneza, em 1995, e Cannes, em 2002, e obteve quatro vitórias no Oscar: melhor direção e melhor roteiro original por Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977) e melhor roteiro original por Hannah e suas Irmãs (1986) e Meia-Noite em Paris (2011). Teve mais 20 indicações, a última delas, pelo script de Blue Jasmine (2013), em 2014, justamente o ano em que Dylan Farrow, sua filha adotiva com a atriz Mia Farrow, trouxe de volta à tona a acusação de abuso sexual que teria sofrido em 1992, quando ela tinha sete anos.
"Não sabemos a história real e talvez nunca saibamos", diz Claire Dederer. "O que sabemos com certeza é que Woody Allen dormiu com Soon-Yi Previn, filha de sua companheira Mia Farrow. Soon-Yi estava no Ensino Médio, ou caloura na faculdade, na primeira vez que ele dormiu com ela. (...) Dormir com a filha de sua companheira — isso requer um tipo especial de bizarrice."
Também por motivos pessoais, Dederer afirma que a história com Soon-Yi "perturbou e reorganizou" sua visão dos filmes de Allen. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa permaneceu intacto como "o maior filme cômico do século 20". Mas em Manhattan (1979), a autora enfim percebeu que "as mulheres têm permissão para ser belos objetos ou são frustradas, impotentes, ridículas — em suma, caricaturas". Claro que, ao tornar públicas suas objeções ao filme, Dederer virou alvo de homens que vinham com um discurso surrado e conveniente: "Você deve julgar Manhattan com base em sua estética!".
Vale transcrever as reflexões das páginas 54 e 55, que resumem um dos pontos centrais do livro — a "autoridade cultural" quase sempre é uma figura masculina que "fica do lado do criador homem":
"Qual de nós estava vendo com mais clareza? Aquele que tinha a capacidade — alguns podiam dizer privilégio — de não se incomodar com as atitudes do cineasta em relação às mulheres e seu histórico com garotas? Ou aquele que não podia deixar de notar — talvez não pudesse deixar de sentir — as antipatias e os impulsos que pareciam inspirar o projeto? Será que esses espectadores orgulhosamente objetivos estavam mesmo sendo tão objetivos quanto pensavam? O gênio habitual de Woody Allen é a autoindagação, e em Manhattan ele tropeça em um obstáculo crucial da autoindagação, e também come uma adolescente, e esse é o filme que é chamado de obra-prima? O que exatamente esses caras estão defendendo? É o filme? Ou outra coisa?".
Michael Jackson e o conceito de mácula

Há muitas outras passagens marcantes no livro. Ao citar Michael Jackson (1958-2009), Claire Dederer discorre sobre o conceito de mácula. Ela conta de suas emoções antagônicas ao ouvir I Want You Back (1969), dos Jackson 5, em uma lanchonete: a alegria pela música foi logo arruinada pela lembrança dos relatos de pedofilia e abuso sexual registrados no documentário Deixando Neverland (2019).
A "contaminação da obra" depende pouco de uma "decisão filosófica". A mácula "é simplesmente algo que acontece", não é uma escolha. "Quando alguém diz que devemos separar a arte do artista, está dizendo: remova a mácula. Deixe que a obra seja imaculada. Mas não é assim que funciona. Observamos o copo cair no chão; não podemos decidir se o vinho se espalhará pelo carpete".
Para Dederer, boicotar a obra, além de igualar a fruição da arte ao mero consumo, é, em essência, um gesto ético inútil — o homem horrível vai continuar ganhando dinheiro para fazer sua arte incrível mas também suas coisas horríveis. "O que fica é o amor. Nosso amor pela arte, um amor que ilumina e amplia nosso mundo. Nós amamos, quer queiramos ou não, assim como a mácula acontece, quer queiramos ou não".
Os críticos, por sua vez, não deveriam ter reações do tipo "E aí, vai jogar no lixo a obra de X?", que os tornam "servos do capital, desviando o foco do agressor e dos sistemas que o apoiam para o consumidor individual. (...) O liberalismo quer que você desvie o olhar do sistema e se concentre na importância das suas escolhas".
Hemingway, Picasso e a definição de gênio

Um dos capítulos mais longos de Monstros: O Dilema do Fã é centrado em dois ícones da arte e da literatura do século 20: Pablo Picasso (1881-1973) e Ernest Hemingway (1899-1961). Segundo Dederer, eles moldaram a ideia contemporânea do gênio artístico com características que, depois, passaram a ser associadas aos astros do rock: "robusto, sem limitações, mulherengo, viril, cruel, sexual".
Esse gênio é ao mesmo tempo mestre e servo. Domina a sua arte e o público, mas também é refém de uma força maior, um desejo, um vício, algo que o faz perder completamente o controle sobre si mesmo.
A impulsividade que separa o artista do artesão é uma faca de dois gumes. "Se você é bem recompensado por ceder a alguns de seus impulsos, não começa a parecer que todos os seus impulsos devem ser honrados? Sobretudo porque é difícil distinguir o bom do ruim. Por que você anularia um impulso, por mais selvagem ou destrutivo que seja, quando ele pode ser a mesma coisa que o impulso que lhe permite fazer essa coisa misteriosa e livre que todos dizem ser genial? O que se segue logicamente daí é a ideia de que o artista deve ser livre em todas as suas ações. Caso contrário, se ele se restringir, poderá desativar a energia. Poderia, de alguma maneira destrambelhada, sentar-se sobre a musa e esmagá-la até a morte."
A genialidade confere carta branca para a monstruosidade? A loucura é inerente a um grande artista? Ou toda a liberdade dada por nós acaba deixando um gênio louco? E por que os canalhas nos fascinam?
Dederer vai além: "Talvez tenhamos criado a ideia de gênio para servir à nossa atração pela canalhice. Talvez tenhamos solicitado a esses artistas que vivam nossas fantasias mais sombrias — e, se dermos a eles o rótulo de gênio, não precisaremos nos sentir culpados por desfrutar do espetáculo. Podemos nos divertir com a performance da maldade".

Essa provocação é retomada mais adiante, quando Claire Dederer examina Lolita (1955), o romance mais famoso de Vladimir Nabokov (1899-1977). Trata-se do diário do pedófilo e estuprador de crianças Humbert Humbert. A autora se pergunta: um escritor que escreve sobre um monstro, que se põe no lugar de monstro, é também um monstro? E por que retratar um monstro?
Brilhante e desconcertante, esse capítulo também traz de volta à narrativa Roman Polanski. "Todo mundo quer comer garotas novinhas!", bradou o cineasta no rescaldo do estupro da garota de 13 anos que cometeu em 10 de março de 1977. "Por que Nabokov deveria contar a história de Humbert? Porque, como Polanski nos diz, é uma história comum. É horrível, impensável e aterradora e acontece o tempo todo. Isso a torna um tema adequado para um escritor."
O crime das mulheres artistas

O outro capítulo extenso de Monstros: O Dilema do Fã se chama "Mães que abandonam" e tem como principais personagens a escritora Doris Lessing (1919-2013) e a cantora Joni Mitchell, 81 anos. "Se o crime masculino é o estupro, o crime da mulher é a falha em cuidar dos filhos", escreve Dederer, que pondera sobre as dificuldades e as cobranças impostas a quem é mãe e artista — ou mãe e trabalhadora de qualquer outra área.
Ao listar exemplos de atitudes que podem ser vistas como sinais de abandono — fechar a porta do escritório ou do estúdio para as crianças, colocar o filho em uma creche, divorciar-se e deixar que o outro genitor tenha a guarda majoritária —, Dederer observa que nenhuma delas é considerada abandono se praticada por homens. Especialmente se forem artistas.

Ao final, Claire Dederer se debruça sobre o caso de Miles Davis (1926-1991), trompetista e compositor que legou ao mundo um dos discos mais incensados do jazz, Kind of Blue (1959). Ela cita bastante Mad at Miles: A Black Woman's Guide to Truth (1990), ensaio de Pearl Cleage, dramaturga, escritora de ficção e ensaísta negra que escreve sobre a evolução de seu relacionamento com a música do artista.
Cleage é sobrevivente de abuso, e seu conhecimento sobre a violência física, psicológica e até patrimonial perpetrada por Miles Davis contra mulheres negras provoca turbulência nos seus sentimentos sobre a música dele em Kind of Blue — que a faz se sentir menos sozinha e que se tornou um totem pessoal, a trilha sonora de várias épocas de sua vida. Ela está simultaneamente brava e apaixonada por Miles.
"Podemos" — pergunta Pearl Cleage — "fazer amor ao ritmo das 'músicas antigas de Miles' quando sabemos que ele pode ter passado a manhã do dia em que a gravou estapeando uma de nossas irmãs? Podemos continuar a celebrar o gênio em face do monstro?"
Não há resposta simples nem única. Não existe receita de bolo. A solução, segundo Dederer, depende do que parece o oposto da autoridade: a experiência pessoal. O sentimento que aquele filme, aquele livro, aquela música, aquela pintura provocou na gente. A beleza que encontramos e valorizamos — e aqui a autora cita o crítico de arte Dave Hickey (1940-2021): "A beleza é aquilo de que gostamos, quer devamos ou não, aquilo a que respondemos involuntariamente". O amor, com sua natureza irracional e emocional ("O coração tem razões que a própria razão desconhece", já dizia Pascal).
Claire Dederer ama Polanski. Esse fato pode não ser ideal, pode até ser deprimente, como ela afirma, mas é verdadeiro.
"Em outras palavras: não existe uma resposta correta. Não há autoridade e não deve haver autoridade. Você está liberada. Você é inconsistente. Você não precisa ter uma grande teoria sobre o que fazer com Michael Jackson. Você é uma hipócrita, hoje e sempre. Você adora Annie Hall (o título original de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa), mas mal consegue olhar para um quadro de Picasso. Você não é responsável por resolver essa contradição irreconciliável. Na verdade, você não vai resolver nada por meio do seu consumo; a ideia de que você pode resolver é um beco sem saída. A maneira como você consome arte não faz de você uma pessoa boa ou ruim."
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