
A Netflix acabou de adicionar ao seu menu a deliciosa trilogia de assalto dirigida por Steven Soderbergh e estrelada por Brad Pitt, Matt Damon e George Clooney: Onze Homens e um Segredo (Ocean's Eleven, 2001), Doze Homens e Outro Segredo (Ocean's Twelve, 2004) e Treze Homens e um Novo Segredo (Ocean's Thirteen, 2007).
Soderbergh seguiu a cartilha básica dos filmes sobre roubos espetaculares: os larápios são boas-pintas que preferem usar a inteligência à violência, o alvo é tido como intransponível, em metade do tempo se planeja os detalhes e na outra se executa a ação — com equilíbrio de suspense, tensão e humor cínico. O cineasta estadunidense tinha armas extras: o charme e a química de um elenco estelar, o figurino retrô dos personagens e a trilha sonora que une clássicos da black music a batidas eletrônicas do DJ irlandês David Holmes.
Vou copiar, por causa das analogias saborosas, o que o crítico Roger Lerina escreveu em Zero Hora quando o primeiro longa-metragem estreou nos cinemas de Porto Alegre: "O ator e produtor George Clooney planejou um golpe de mestre: pegou carona no charme rude de um filme medíocre dos anos 1960 — ambientado no mundo do jogo de Las Vegas —, entregando a história original para um bom roteirista (Ted Griffin) reescrevê-la, chamou o cineasta ganhador do Oscar de 2000 (Soderbergh foi premiado por Traffic) para dirigir a nova versão e dividiu a cena com um time de astros do naipe de Julia Roberts, Brad Pitt, Matt Damon e Andy Garcia. Com um royal straight flush desses, a mão estava garantida: Onze Homens e um Segredo, é tão divertido como quebrar a banca de um cassino cafona".
Lançada em 1960, sob direção de Lewis Milestone, a versão original de Onze Homens e um Segredo marcou a estreia no cinema do Rat Pack, grupo de atores e músicos de Hollywood amigos do uísque honesto, de carros velozes e de mulheres consideradas fáceis. Na trama, que é lenta e longa demais, os bons companheiros encarnados por Frank Sinatra, Sammy Davis Jr., Dean Martin, Peter Lawford e Joey Bishop se juntavam para roubar o dinheiro de cinco cassinos de Las Vegas.
A recauchutagem consegue definir a função de cada um dos 11 escroques na história e imprime um ritmo vertiginoso, graças também ao trabalho de câmera, manejada muitas vezes no ombro pelo próprio Steven Soderbergh, com o pseudônimo Peter Andrews, e à montagem precisa como um relógio suíço de Stephen Mirrione, igualmente oscarizado por Traffic.

O custo salgado — US$ 85 milhões — foi recompensado nas bilheterias: Onze Homens e um Segredo arrecadou US$ 450,7 milhões e deu sinal verde para a trilogia. Doze Homens e Outro Segredo saiu mais caro, US$ 110 milhões, mas rendeu menos do que o anterior: US$ 362,7 milhões. Treze Homens e um Novo Segredo voltou ao orçamento original e, com US$ 311, 3 milhões faturados, fez a cinessérie ultrapassar a marca do US$ 1 bilhão.
No pacote da Netflix, também entra Oito Mulheres e um Segredo (Ocean's Eight, 2018), de Gary Ross, o derivado feminino que traz no elenco Sandra Bullock, Cate Blanchett, Anne Hathaway e a cantora Rihanna. Esse custou US$ 70 milhões e somou mais US$ 297,7 milhões aos cofres da franquia.
Saiba mais sobre os quatro filmes, mas atenção: pode haver spoilers nas sinopses das aventuras posteriores.
Onze Homens e um Segredo (2001)

De Steven Soderbergh. As primeiras cenas mostram o golpista Danny Ocean (George Clooney) saindo da prisão metido dentro de um smoking. Imediatamente, o ex-detento começa a reunir uma equipe para aplicar um golpe ousado e improvável: roubar o indevassável cofre que guarda o dinheiro de três dos maiores cassinos de Las Vegas, algo em torno de US$ 160 milhões.
Danny começa então a montar sua equipe, auxiliado por Rusty Ryan (Brad Pitt), um jogador profissional de cartas que ganha a vida ensinando pôquer a astros hollywoodianos de pequeno porte (interpretados por estrelinhas de brilho incipiente mesmo, como os atores de seriados Topher Grace e Joshua Jackson).
Entre os homens arregimentados para o fabuloso assalto, estão o batedor de carteiras Linus Caldwell (Matt Damon), o especialista em explosivos Basher Tarr (Don Cheadle), um velho pilantra aposentado (Carl Reiner), um antigo dono de cassino, Reuben (Elliot Gould), e uma dupla de irmãos motoristas (Scott Caan e Casey Affleck).
A ganância não é o único motor de Danny. Ele também quer afastar a ex-esposa, Tess (Julia Roberts), dos braços de Terry Benedict (Andy Garcia), não por acaso o dono dos três cassinos que o malandro charmoso planeja saquear.
Doze Homens e Outro Segredo (2004)

De Steven Soderbergh. O filme se passa três anos após os eventos de Onze Homens e um Segredo. Depois de dividir os US$ 160 milhões roubados do cassino de Terry Benedict (Andy Garcia) em Las Vegas, o cerebral Danny Ocean (George Clooney) e sua turma tentaram andar na linha, cada um em um lugar diferente. O problema é que o irado Benedict está entrando em contato com cada um dos onze de Ocean para dar um ultimato: eles devem devolver a grana, e com juros.
Assim, a gangue — que agora inclui Tess (Julia Roberts) — se reúne na Europa atrás de outros golpes milionários. Mas a trupe logo descobre que Benedict não é a única pessoa à procura deles. Há ainda uma agente da Europol (encarnada por Catherine Zeta-Jones) e o famoso ladrão francês François Toulour, a Raposa da Noite (Vincent Cassel).
Há um bocado de humor e as reviravoltas na trama são até mais mirabolantes, mas o filme é confuso em seu início e se torna exageradamente cool. A sensação de que Doze Homens e um Novo Segredo foi só uma espécie de relax para astros foi corroborada, em um making of, pelo depoimento do veterano Carl Reiner (1922-2020) sobre seus colegas de elenco: "Quando não estão filmando, eles cantam, dançam, treinam boxe ou ficam conversando. Chega a ser repugnante: se divertem tanto e ainda são pagos por isso".
Treze Homens e um Novo Segredo (2007)

De Steven Soderbergh. Os golpistas não buscam apenas dinheiro, mas sim dar uma lição a um novo personagem, Willie Bank, vivido por Al Pacino. Trata-se de um magnata arrogante que, para erguer um cassino, passou para trás Reuben (Elliot Gould), veterano integrante do bando. O plano, fantástico como convém, é quebrar a banca do vilão.
Brad Pitt, Matt Damon, George Clooney e companhia continuam a se divertir em cena, com tiradinhas que misturam personagens com as personas reais dos atores, mas dessa vez eles não deixaram o espectador fora da brincadeira.
Oito Mulheres e um Segredo (2018)

De Gary Ross. Mais de 10 anos depois do terceiro roubo comandado por Danny Ocean, o líder do elegante bando é dado como morto em circunstâncias desconhecidas. Quem toma seu lugar é sua irmã caçula, Debbie (Sandra Bullock). Tal como o mano no início de tudo, a personagem acaba de sair da prisão.
Mas o cenário de Oito Mulheres e um Segredo é bem diferente: saem os cassinos e entra a vida urbana e cosmopolita de Nova York, em meio ao famoso baile de gala do Met. O evento, organizado na vida real a cada mês de maio pela editora da revista Vogue, Anna Wintour, é o momento escolhido por Debbie Ocean para roubar um colar de US$ 150 milhões. Para concretizar a façanha, ela reúne uma equipe de especialistas, formada exclusivamente por mulheres de etnias variadas, que não se envolvem com armas, nem explosivos, nem violência física.
São elas: Lou (Cate Blanchett), seu braço-direito; Daphne Kluger (Anne Hathaway), uma atriz de Hollywood envolvida involuntariamente no roubo; Nine Ball (Rihanna), uma hacker; Rose Weil (Helena Bonham-Carter), uma estilista que tinha prestígio nos anos 1990 e que agora corre atrás de grana para quitar suas dívidas; Amita (Mindy Kaling), uma solitária ourives; Constance (Awkwafina), uma batedora de carteiras; e Tammy (Sarah Paulson), dona de casa e ex-parceira de Debbie.
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