
Trailers podem ser muito enganosos. Como o de Amores Materialistas (Materialists, 2025), filme com Dakota Johnson, Chris Evans e Pedro Pascal que estreou nesta sexta-feira (26) na HBO Max, depois de uma bem-sucedida jornada nos cinemas: custou US$ 20 milhões e arrecadou US$ 103,5 milhões nas bilheterias. Talvez muita gente tenha comprado ingresso achando que veria uma comédia romântica.
O título foi escrito e dirigido pela sul-coreana radicada nos Estados Unidos Celine Song e sucede o belíssimo Vidas Passadas (2023), que concorreu ao Oscar nas categorias de melhor filme e melhor roteiro original. O trailer aposta em um marketing que, por um lado, engana quem não viu o longa-metragem anterior. Por outro lado, pode assustar quem viu e se apaixonou.
Na trama de Amores Materialistas, Dakota Johnson faz o papel de Lucy, uma casamenteira em Nova York, profissão que a própria diretora já teve. Lucy funciona como uma espécie de algoritmo de carne e osso, como escreveu a colunista Cláudia Laitano. Seu trabalho é encontrar o par perfeito para homens e mulheres que priorizam critérios materiais, como a altura da pessoa, a sua idade ou o dinheiro que ela ganha, em vez de buscarem conexões emocionais. Ou seja, o filme fala da mercantilização do afeto, mostra como o amor virou uma forma de negócio neste nosso mundo tão capitalista e que tanto valoriza o sucesso.

Durante uma festa de casamento, Lucy conhece o personagem de Pedro Pascal, o Harry, irmão do noivo. Solteiro, Harry é o que, no mercado das agências de namoro, chamam de unicórnio: ele é bonito, rico, charmoso, inteligente, engraçado... O pacote completo. Mas na mesma festa Lucy reencontra um ex-namorado, John (Chris Evans), um aspirante a ator que está trabalhando como garçom — afinal, todo mês tem boletos para pagar. O abraço que Lucy dá em John deixa claro que aquela foi uma história mal resolvida.
O trailer de Amores Materialistas faz o filme quase parecer uma comédia romântica qualquer, uma comédia romântica cheia de clichês, ou, no mínimo, uma comédia romântica adocicada e bobinha. A campanha de divulgação incluiu cartazes com as hashtags TimePedro e TimeChris, para criar uma narrativa típica de triângulo amoroso e rivalidade romântica, como as de O Casamento do meu Melhor Amigo (1997) ou O Diário de Bridget Jones (2001), para citar duas comédias românticas famosas.
Mas Celine Song não acha que seu filme deva ser tratado como uma comédia romântica. Prefere que a gente chame de romance, ou de drama romântico. Em entrevistas, ela disse que queria falar de encontros e de amor sem fazer uma diversão escapista. Para a cineasta, existe uma predisposição a encarar o romance como um gênero cinematográfico que não leva a sério o assunto abordado. Por falar em seriedade, pelo menos um tema pesado surge no decorrer da história.

O trailer de Amores Materialistas sugere uma edição acelerada, com cenas rápidas e tiradas cômicas. Mas o filme é mais cadenciado e, se é verdade que, sim, tem humor, também tem uma melancolia que pode ser cortante. Porque Amores Materialistas, como Vidas Passadas, é um outro filme sobre escolhas e renúncias, sobre como equilibramos nossos desejos com a necessidade de segurança e de proteção.
A dualidade ganha tradução visual na direção de fotografia assinada por Shabier Kirchner. Há simetria e estabilidade nas cenas de Lucy com Harry; quando ela está com John, há naturalismo e câmera na mão.

O trailer de Amores Materialistas usa letreiros para apresentar seus personagens: A Casamenteira, O Partido Perfeito, A Complicação. É uma estratégia de venda que simplifica demais os personagens e ignora suas sutilezas. Em primeiro lugar, vale dizer que o filme não elege nem condena nenhum de seus personagens, o que faz o espectador olhar para dentro de si mesmo — somos instados a refletir sobre quais são as nossas prioridades afetivas.
Dakota Johnson constrói bem as contradições de Lucy. Aliás, a inegável beleza da atriz e a sua voz doce contrastam com seu pragmatismo, sua visão desencantada do mundo e seus momentos de estresse.
Chris Evans mostra, mais uma vez, que sempre existiu um talento debaixo do uniforme do Capitão América. John é um personagem rico, no bom sentido: uma hora pode parecer um idiota, na outra, o cara mais nobre do pedaço.
E a escolha de Pedro Pascal foi realmente perfeita. Celine Song disse que era muito importante Harry não ser um vilão nem uma piada: ela precisava que o personagem fosse vivido por um ator que todo mundo ama.
Por fim, o trailer de Amores Materialistas mente: a música que toca é uma versão de Material Girl, um dos grandes sucessos da Madonna nos anos 1980. Mas essa canção não faz parte da trilha sonora do filme, jamais é ouvida em cena. Afinal, Celine Song não seria óbvia nem moralista de colocar na trilha de um filme sobre amores materialistas uma música sobre uma garota materialista.
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