
Por coincidência, em 2023 foram lançados dois longas-metragens brasileiros que reconstituem trajetórias musicais de sucesso surgidas na mesma época e interrompidas por um acidente quando os artistas — todos de origem humilde — ainda estavam no auge.
Um é o famigerado Mamonas Assassinas: O Filme. O outro é o tocante Nosso Sonho, sobre a dupla Claudinho & Buchecha, que a RBS TV exibe nesta segunda-feira (25), às 23h20min, na Tela Quente.
Dirigido por Eduardo Albergaria, Nosso Sonho (2023) recebeu seis indicações ao Grande Otelo, o prêmio da Academia Brasileira de Cinema: melhor filme, ator (Juan Paiva), montagem (do diretor com Waldir Xavier), direção de arte (Karen Araújo), figurinos (Alex Brollo) e música original (Plínio Profeta).

O filme conta a história de Claudinho & Buchecha, dupla de funk nascida em Niterói, em 1995, com o Rap do Salgueiro. Foi o primeiro hit de uma parceria que vendeu milhões de discos graças a músicas como Conquista, Nosso Sonho, Quero te Encontrar e Só Love.
Em 13 de julho de 2002, ao voltar de um show de divulgação do sexto álbum, Claudinho morreu quando o carro pilotado por um empresário saiu da pista e bateu fortemente em uma árvore.
Apesar das diferenças abissais de qualidade, Nosso Sonho e Mamonas Assassinas: O Filme também são parecidos na estrutura da história. Na abertura da cinebiografia da banda de Guarulhos (SP), uma narração em off do personagem Dinho, "do outro lado da vida", como ele diz, nos leva para o início da trajetória dos cinco jovens que morreram na queda de um avião, em 2 de março de 1996.
Nosso Sonho começa na noite da morte de Claudinho. Aí, por meio das lembranças de Buchecha, retrocede no tempo para contar os passos da dupla desde quando era piás e brincavam em um riacho perto da favela onde moravam.
Na infância, Buchecha é encarnado por Gustavo Coelho, e Claudinho, por Vinícius Boca de 09. Depois, respectivamente, Juan Paiva e Lucas Penteado assumem os personagens. E cantam de verdade.

O curioso é que, inicialmente, os dois atores estavam escalados em papéis trocados. Como contou a repórter Camila Bengo em GZH, o Buchecha da vida real procurou o diretor Eduardo Albergaria para alertar que Penteado tinha a "energia bagunceira e descompromissada" de Claudinho, enquanto Paiva exibia personalidade parecida com a sua, mais introvertida.
Na mesma reportagem, Lucas Penteado falou sobre sua identificação com a história e sobre suas semelhanças com Claudinho:
— Eu me vejo muito neles, pois são pessoas que vieram de baixo, saca? Eles construíram o presente para que houvesse um futuro. O Claudinho e eu temos em comum a energia do sonho, aquela energia do jovem periférico que não tem tempo de reclamar do que está ruim, porque precisa correr para resolver. Ele foi esse cara que um dia chegou e falou: "Irmão, eu sou artista". Foi lá, subiu no palco e encarou a plateia. Não tinha tempo ruim com ele. Podia ser uma plateia que odiasse funk, mas quando aquele moleque subia no palco, todo mundo amava.
Quanto a Buchecha, Nosso Sonho toma uma liberdade poética ao retratar a relação conturbada dele com o pai, Sousa, interpretado por Nando Cunha. O músico disse que nem tudo aconteceu daquela forma, mas que ficou "confortável" com o que viu no filme sobre seus conflitos familiares — que, por outro lado, acabam permitindo a Paiva e Cunha realizarem belas cenas dramáticas.

Nosso Sonho poderia explorar melhor a origem das canções de Claudinho e Buchecha, o seu processo criativo, e a decisão de cantarem o amor, em vez de centrarem suas letras nos problemas sociais ("A gente sabia que o nosso povo já trazia uma carga pesada, então, queríamos fazer algo que fosse leve, que trouxesse paz", comentou Buchecha). Mas a cinebiografia compensa as lacunas e os pontos subaproveitados do roteiro com suas atuações marcantes e um punhado de sequências capazes de arrepiar.
Uma delas, lá pela metade do filme, mescla atrapalhações sonoras de Claudinho e Buchecha quando foram gravar Nosso Sonho, cenas ficcionais que ilustram sua ascensão e imagens de arquivo que dão conta do tremendo sucesso alcançado pela dupla e que, em uma decisão muito feliz da montagem, surgem na hora certeira para acompanhar um trecho marcante da letra.
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