
Postado na quarta-feira (6) no canal do youtuber paranaense Felca, o vídeo intitulado Adultização já somava 13 milhões de visualizações no começo da manhã deste sábado (9). Por mais pesado e nauseante que seja — e não falta um alerta de gatilho na abertura —, é importante que muita gente assista a essa denúncia sobre sexualização precoce, pornografia infantil, pedofilia nas redes sociais e abuso sexual de crianças. Até que ponto fama, engajamento e dinheiro podem se sobrepor à proteção da infância? Quando, como pais e sociedade, vamos romper com a normalização desses conteúdos, que pode acabar estimulando nossos filhos a repeti-los?
Felca é o nome artístico de Felipe Bressanim Pereira, que nasceu em Londrina e completou 27 anos no dia 25 de julho. Ele é conhecido pelo humor sarcástico — vide um de seus vídeos mais assistidos e comentados, em que testa a base da linha de cosméticos lançada pela influenciadora digital Virgínia Fonseca.
Desta vez, o produtor de conteúdo foi o mais sério possível. Só se permitiu a ironia, ainda que mesclada a uma certa angústia diante do futuro da humanidade, no início dos 49 minutos e 57 segundos de duração do vídeo.
— Este vídeo vai ter um formato de funil — avisa Felca, enquanto a imagem mostra um iceberg. — A gente vai começar com um assunto um pouco mais leve e depois vai afunilar até eu começar a denunciar crimes.
Primeiro, Felca contextualiza: vivemos a era da monetização. Tudo o que postamos no YouTube, no Instagram, no TikTok, no Kwai etc pode gerar dinheiro, incluindo a exposição ao perigo ou ao ridículo.
— Mas a parada deixa de ser engraçada e se torna criminosa quando os pais envolvem os filhos menores de idade nesses desespero por monetização, expondo e produzindo conteúdos em cima deles, adultizando ou até sexualizando — comenta o youtuber.
A parte mais leve é sobre os chamados empresários mirins. Crianças que apresentam ou participam de podcasts falam sobre produtividade, reclamam que "a escola atrapalha o empreendedor", dizem que raiz quadrada e Aristóteles não vão ajudar em nada contra um assaltante e sentenciam que "você é o culpado pelo seu fracasso".
Em seguida, Felca relembra o caso de um canal no YouTube que ficou famoso por conteúdos infantis e gerou controvérsias por causa da exploração da imagem da filha por sua mãe. O dinheiro vem e vai, mas um trauma é para sempre.
A partir daí, a coisa fica mais pesada. Felca passa a abordar a sexualização de meninas e a atuação de pedófilos nas redes sociais — prudentemente, ele borra as imagens ilustrativas para que não se tornem mercadoria aos olhos dos consumidores de pornografia infantil.
Um dos casos mais cabulosos, para usar a expressão de Felca, é o de Hytalo Santos. O influenciador digital paraibano, que em 2024 virou alvo de apuração do Ministério Público da Paraíba, por denúncia de exploração de menores, transformou uma menina em "produto" desde que ela tinha 12 anos — hoje, está com 17. A garota foi inserida em um universo de danças sensuais, interações amorosas e festas com adultos.
Adulto é palavra-chave. Em primeiro lugar, adultos responsáveis não deveriam expor crianças em vídeos e nas redes sociais, muito menos apressar os passos de seu desenvolvimento emocional e sua relação com o corpo, o afeto e a sexualidade. Em segundo lugar, do outro lado da tela, além da criançada, de adolescentes e de mães, existem homens adultos, que assistem a tudo com interesses "puramente" pedófilos.
Há vezes em que uma família posta um vídeo que considera inocente — a filha imitando a dança de uma cantora, o passeio de uma menina pela praia —, mas aquele conteúdo será distorcido pelos olhos de um predador sexual de crianças. Tudo pode virar mercadoria pornográfica.
Em outras situações, conforme Felca, são "a ganância e a corrupção" dos pais que fazem girar a roda. Ele conta a história de uma menina que começou fazendo vídeos de dancinha, aos 11 anos. Segundo Felca, a partir dos comentários de homens que queriam que a guria "fosse mais mostrada", a mãe, em vez de bloquear a pessoa ou fazer uma denúncia, acabou atendendo ao pedido. Os vídeos ficaram cada vez mais sugestivos — "Quanto mais vulgar, mais a comunidade de pedófilos crescia", comenta o youtuber. "Mais números, mais dinheiro ela ganhava."
O cúmulo do asqueroso foi criar uma conta VIP no Telegram "para vender conteúdo explícito da própria filha", diz o influenciador digital paranaense. Depois, ele lista uma série de consequências na vida adulta que podem ser sofridas por vítimas de abuso sexual na infância e na adolescência: comportamentos impulsivos, uso de substâncias (álcool, remédios e outras drogas), transtornos mentais (de ansiedade, de estresse pós-traumático, depressão etc), dificuldade de estabelecer vínculos afetivos saudáveis, baixa autoestima e depreciação, suicídio.
Vale repetir a palavra-chave: adultos. Somos nós que temos o poder e a responsabilidade de proteger nossas crianças. Além de evitar a adultização, a sexualização precoce e a exposição nas redes sociais, convém ficar atento aos comentários de usuários. Felca ensina sobre códigos usados por pedófilos, que costumam encher de coraçõezinhos suas reações:
— Eu faço um apelo a todos os pais que publicam vídeos inocentes de seus filhos na internet: procurem neste exato momento e vejam se tem algum comentário falando "trade" ou "troca". Se tiver, você e seu filho ou sua filha estão sendo alvos desses criminosos. Quando mandam GIF do Telegram ou de "link na bio", significa que esses criminosos possuem no seu perfil no Instagram uma conta no Telegram, onde uma comunidade compartilha o que se chama de CP, que é uma sigla em inglês para child porn, pornografia com crianças. Por que GIFs? Porque são mais difíceis de rastrear do que algo digitado.
Pais não são os únicos adultos com o poder e a responsabilidade de proteger a infância e a adolescência. Felca também cobra dos administradores das redes sociais. Para o youtuber, é "completamente inaceitável" que, na era da inteligência artificial, os humanos desenvolvedores de algoritmos não tenham criado uma forma mais eficaz e rigorosa de detectar e impedir a propagação de publicações com teor pedófilo.
Em tempo: por coincidência ou não, nesta sexta-feira (8) a conta de Hytalo Santos saiu do ar no Instagram.
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