
No intervalo de um mês, a Netflix adicionou a seu menu três filmes de Christopher Nolan. Em 7 de julho, entrou Oppenheimer (2023), seu maior sucesso no Oscar — foram sete vitórias, incluindo a categoria de melhor direção.
No dia 19, foi a vez de Interestelar (2014), seu título que mais divide opiniões — uns amam, outros, se não odeiam, pelo menos acham que está há anos-luz de distância dos clássicos da ficção científica.
Nesta sexta-feira (8), chega Tenet (2020), um grande tombo artístico e comercial do cineasta britânico — foi bastante desprezado nas principais premiações (na da Academia de Hollywood, recebeu apenas duas indicações, para o design de produção e para os efeitos visuais, que acabaram laureados) e, nas bilheterias, não pagou seus custos de produção e marketing.
Tenet só não é o pior filme de Nolan porque, no início de sua carreira, ele dirigiu uma adaptação hollywoodiana de um policial norueguês, Insônia (2002). A despeito das atuações de Al Pacino e Robin Williams, a trama é muito convencional e muito previsível, e é o trabalho menos autoral do diretor — é o único de seus 12 longas-metragens sem a sua mão no roteiro.
Lançado nos cinemas entre o final de agosto e o início de setembro de 2020, Tenet foi vendido por Hollywood como o símbolo da retomada das salas de exibição em meio à pandemia de coronavírus. Mas o que o filme simbolizou foi a arrogância de Christopher Nolan, que chegou a bater pé com a Warner: ele queria que o estúdio mantivesse a data do lançamento mundial, 17 de julho — dia em que os Estados Unidos acabariam registrando um recorde de 65,1 mil casos novos de covid-19.
Verdade seja dita, Nolan é um dos raros cineastas cujo nome é suficiente para atrair público. Claro que contar com um personagem como Batman ou um ator como Leonardo DiCaprio ajuda, mas foram sua concepção de cinema e suas charadas narrativas, desde Amnésia (2000), que arregimentaram uma legião de fãs, ávidos pela saborosa mistura de entretenimento e papo-cabeça.
Mas o coronavírus impôs o distanciamento social, disseminou o medo de contágio, fechou cinemas e forçou os grandes estúdios a adiarem sucessivamente a estreia de suas principais apostas — ou até relegarem seu lançamento para as plataformas de streaming.

Christopher Nolan achou que poderia salvar o mundo, como o protagonista sem nome de Tenet, interpretado por John David Washington. Fez a Warner nadar contra a corrente, a exemplo do que acontece com os personagens da trama, que experimentam uma realidade paralela reversa — se você pegar fogo, pode ter hipotermia (Confuso? Calma que fica mais confuso ainda).
Nas bilheterias, o filme arrecadou US$ 365,3 milhões. No contexto da covid-19, é um número alto. Mas a gente tem de descontar os US$ 200 milhões do custo de produção, os estimados US$ 100 milhões usados na divulgação (sim, um absurdo) e aplicar a regra básica de que, para um filme dar lucro, precisa fazer pelo menos o dobro de suas despesas. Ou seja, Tenet ficou devendo.
Do ponto de vista artístico, a dívida pode inclusive ser maior. Tenet é, sem dúvida, um filme de Christopher Nolan: ambicioso, grandiloquente, mirabolante e cheio das suas obsessões temáticas, como o tempo, a memória, o controle e o próprio ofício cinematográfico.
O enredo sobre espionagem internacional denota sua vontade de, um dia, dirigir uma aventura de James Bond — a trama empreende uma volta ao mundo, como é típico na franquia do 007: vai de Kiev, na Ucrânia, a Londres (onde Michael Caine, mordaz como de costume, faz sua oitava colaboração com o cineasta); do quente litoral do Vietnã à geladíssima Sibéria; das águas do Mediterrâneo ao aeroporto de Oslo; das ruas de Tallinn, capital da Estônia, a Mumbai, na Índia, onde Robert Pattinson, na pele de outro agente, Neil, se junta ao protagonista anônimo.
Qual é a trama de "Tenet"?

Tenet começa com os músicos de uma orquestra se preparando para um concerto diante de uma plateia lotada na Ópera Nacional da Ucrânia, em Kiev. Logo explode a ação — aqui, temperada pela tensa trilha sonora composta pelo sueco Ludwig Göransson, que quase sempre fará tudo no filme parecer mais interessante do que realmente é.
Terroristas invadem o palco e atiram em alguns instrumentistas, mas o ataque é apenas uma distração para um sequestro. Nesse meio tempo, surge o personagem de John David Washington, agente de um batalhão que, aparentemente, tem como objetivo central somente resgatar o alvo dos sequestradores.
Dá-se um enrosco não muito compreensível e, por fim, o protagonista sem nome acaba capturado e torturado, mas sobrevive para servir a uma causa maior: "Estamos tentando evitar a Terceira Guerra Mundial", diz a ele uma cientista interpretada pela francesa Clémence Poésy.
— Nuclear? — indaga o protagonista.
— Algo pior.

A ameaça é uma tecnologia que tem alterado a entropia dos objetos, fazendo com que a munição das armas, por exemplo, seja reversa. Não é que a bala vá para trás, não é que o tiro saia pela culatra. É mais como um disparo feito no futuro que agora está chegando ao presente (ou o passado). Ou, para conseguir visualizar: a bala se descrava de um vidro e volta para a pistola (quase como um déjà vu de Amnésia).
Essa cientista mostra ao protagonista um enorme arquivo com peças mecânicas que voltaram de algum lugar no tempo. São os restos de uma guerra futura. É ela quem também aconselha Washington e o público sobre o que vem pela frente: "Não tente compreender. Sinta".
Sempre acusado por seus detratores de ser expositivo demais, desta vez Christopher Nolan parece admitir que Tenet é muito confuso com suas citações sobre física quântica e radiação, cidades secretas russas que não aparecem nos mapas e os portos livres dos aeroportos, contra-ataques bitemporais e algoritmos apocalípticos. Até um dos principais atores do filme, Robert Pattinson, disse em entrevistas que teve dificuldades para entender o roteiro.

Um calcanhar de Aquiles do diretor torna-se um elefante no meio da sala: o parco desenvolvimento de personagens. Os diálogos pontuados por conceitos científicos, algumas tiradas espirituosas ou a milésima explanação sobre o paradoxo do avô das viagens no tempo impedem momentos de introspecção ou de exibição do lado emocional do protagonista e de Neil (Robert Pattinson).
A ideia é que nós sentíssemos a mesma empatia que Washington demonstra pela esposa do vilão, Kat (Elizabeth Debicki). Só que dirigir atrizes nunca foi o forte de Nolan, e Debicki se perde em uma atuação em que ora é a vítima resignada, ora a "vaca vingativa".

E o vilão? Bem, Kenneth Branagh deve ter se divertido fazendo o sotaque russo de Andrei Sator, magnata e traficante de armas urdido pelo manejo de dejetos radioativos, e fazendo ameaças do tipo "vou fazer um furo no meio da sua garganta e depois tapá-lo com seus testículos para ver você morrer em agonia". Mas sua motivação para querer o fim do mundo não oferece ressonância. Os conflitos de ideias de Tenet carecem do alcance visto em outras obras do diretor, ainda que a possibilidade ou não de reverter o tempo possam gerar discussões acaloradas entre especialistas em física.
O palíndromo do título

Se a trama é complicada em excesso, se não há envolvimento emocional, se os debates são rasos ou restritos, restam a Tenet a pirotecnia e o jogo de referências a ser decifrado. Não à toa, Nolan escolheu para o título uma pirotecnia linguística, um palíndromo, palavra que pode ser lida de frente para trás e de trás para frente — e que, no caso, pode ser traduzido como princípio religioso, dogma, mandamento.
O jogo nem é tão difícil (mas se você achar que é SPOILER, dou uns segundos para você decidir se pula o parágrafo abaixo).
Tenet é o eixo — a cruz — do mais antigo palíndromo, o chamado quadrado mágico. (Se você continuou lendo, agora é por conta e risco.) Encontrada durante escavações em Pompeia, na Itália, e também em Roma, na Inglaterra e na Síria, entre outros sítios arqueológicos, essa inscrição na pedra reúne também as palavras em latim sator/rotas e arepo/opera. Segundo alguns estudiosos, uma leitura possível é "O Criador governa os trabalhos cíclicos com um processo inverso", e o quadrado também aludiria ao Apocalipse.
É isso o que almeja e faz o Sator de Kenneth Branagh — aliás, todas as palavras do quadrado aparecem no filme: além de Sator e da ópera de Kiev, temos uma empresa de nome Rotas no aeroporto norueguês e um falsificador de obras de arte chamado Arepo.
Mas também Nolan pode ser o Criador que governa os trabalhos cíclicos com um processo inverso. Tenet nada mais é do que um thriller de espionagem internacional com carga de ficção científica — um trabalho cíclico em Hollywood — feito em um processo inverso: revisitamos os mesmos cenários de cenas capitais (quase como um aceno a Brian De Palma, um mestre nessa arte) e adentramos um mundo onde os pássaros voam para trás e os carros andam de marcha ré. A trilha de Ludwig Göransson, novamente, é muito feliz em traduzir esse conceito, como se fosse um disco rodando no sentido contrário.

Já as sequências de ação filmadas pelo suíço Hoyte van Hoytema conseguem fascinar, tanto os combates corpo a corpo quanto os duelos automobilísticos, mas chega um momento em que até elas passam a ser confusas: como reconhecer os personagens se todos estão de capacete? Quem eles estão combatendo, quem os está atacando? No fim, o que eram mesmo os artefatos que estavam buscando? Para que serviriam exatamente?
Bem, Christopher Nolan nos disse que não era para tentar compreender. Que era para sentir. Pois o sentimento pode ser o de que acabamos de ver uma brincadeira extravagante e muito cara, um exercício vazio de complexidade cinematográfica, ou seja, um ato de exibicionismo. Essa impressão é reforçada pelo que o cineasta afirmou sobre Tenet: "A grande beleza da câmera é que ela realmente vê o tempo. Antes de a câmera de cinema existir, não havia como as pessoas conceberem coisas como câmera lenta ou câmera reversa. Então, o cinema em si é a janela para o tempo que permitiu que este projeto se concretizasse. É literalmente um projeto que só existe porque a câmera de cinema existe".
Enamorado de sua própria câmera, Nolan não olhou bem para seu filme e acabou tropeçando feio.
É assinante mas ainda não recebe minha carta semanal exclusiva? Clique aqui e se inscreva na newsletter.
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano



