
Nunca tinha visto um estúdio de cinema dar spoiler sobre o final de um filme recém-lançado. Foi o que a Marvel fez com Thunderbolts* (2025), que a partir desta quarta-feira (27) está disponível no Disney+.
A sabotagem deu resultado: orçada em US$ 280 milhões, aí incluídos os gastos com a divulgação, a aventura teve a quinta pior bilheteria entre os 37 longas-metragens do Universo Cinematográfico Marvel, com US$ 382 milhões. A arrecadação não foi suficiente para proporcionar lucro depois de cobertas as despesas com a produção e o marketing. Na verdade, gerou prejuízo ao estúdio após a divisão do dinheiro com os exibidores (as salas de cinema).
Brabo é que uma parte considerável do gasto com marketing deve ter sido na famigerada campanha lançada em 5 de maio, apenas quatro dias após a estreia mundial nos cinemas.
ALERTA DE SPOILERS, ainda que autorizados pela própria Marvel.
Nessa data, o diretor Jake Schreier e o elenco revelaram ao grande público uma informação que só vem à tona no epílogo de Thunderbolts*.

Um vídeo divulgado nas redes sociais mostra os atores Florence Pugh (que faz o papel de Yelena Belova, a nova Viúva Negra), Sebastian Stan (Bucky Barnes, o Soldado Invernal), David Harbour (Guardião Vermelho), Wyatt Russell (Agente Americano), Olga Kurylenko (Treinadora), Hannah John-Kamen (Fantasma), Lewis Pullman (Bob, um novo personagem no MCU), Julia Louis-Dreyfus (Valentina Allegra de Fontaine, diretora da CIA) e Geraldine Viswanathan (Mel, assistente de Valentina) arrancando o título do cartaz original. Por baixo, aparece o novo nome oficial: The New Avengers — Os Novos Vingadores.
Em outro vídeo compartilhado nas redes sociais do Marvel Studios, Sebastian Stan surge colando um novo pôster na lateral de um ponto de ônibus. Houve mudança também naquelas propagandas gigantescas estampadas em paredes de edifícios — ou seja, escapar do spoiler era um desafio para os transeuntes.
No filme, revelação só acontece no final

Criados nos quadrinhos em 1997, por Kurt Busiek e Mark Bagley, os Thunderbolts são uma espécie de Esquadrão Suicida da Marvel. No filme, nem chegam a ser conhecidos por este nome enquanto vivem suas aventuras — daí o uso do asterisco no título. Ao final da trama, o grupo de anti-heróis, rejeitados e até vilões é apresentado por Valentina Allegra de Fontaine à imprensa como os Novos Vingadores. A cartada marqueteira abafa o pedido de impeachment da diretora da CIA que tramitava no Congresso dos EUA.
Na primeira das duas cenas pós-créditos, o personagem de David Harbour vai até um supermercado e vê os Thunderbolts — já rebatizados como os Novos Vingadores — estampando uma caixa de cereal. Ele fica feliz com o fato e tenta fazer uma mulher comprar e reconhecê-lo no produto que tem seu rosto.
A segunda cena se passa 14 meses depois e une Thunderbolts* — ou Os Novos Vingadores, você escolhe — ao filme seguinte da Marvel, Quarteto Fantástico: Primeiros Passos, que estreou em 24 de julho.
Os integrantes da nova equipe estão no prédio que antes foi sede dos Vingadores, agora comprado por Valentina e servindo como base de operações dos Novos Vingadores.
Eles conversam sobre Sam Wilson (Anthony Mackie) estar recrutando sua própria equipe de Vingadores e como ele detém os direitos autorais desse nome — o que rende outras piadas do Guardião Vermelho, como chamar o grupo de Avengerz, para driblar a questão do domínio da marca Avengers. Então, os personagens ouvem falar de algo vindo do espaço: é a nave do Quarteto Fantástico chegando ao universo deles.
Jogada de marketing ou sinal de desespero da Marvel?

O diretor de Thunderbolts*, Jake Schreier, disse ao jornal The New York Times que a troca do título "sempre esteve nos planos". A reprodução na vida real do que acontece na ficção não deixa de ser um curioso exercício de metalinguagem, além de permitir o emprego de um adjetivo — "ousado" — pouco usual no universo dos super-heróis, onde tudo é muito formulaico e mal existe o risco emocional.
A jogada de marketing parece ter sido um tiro pela culatra: a massiva revelação prematura sobre o desfecho de Thunderbolts* pode ter animado fãs de carteirinha, mas repelido o público que não tem mais paciência para o universo interligado da Marvel.
E o lance midiático também refletiu a ansiedade ou até o desespero da Marvel em gerar conteúdo (exposição é fundamental na era da imagem e do instantâneo) e em se manter relevante em um período de claro declínio comercial dos filmes de super-herói — dos últimos 10 títulos do estúdio, apenas um ultrapassou a marca do US$ 1 bilhão nas bilheterias; entre os 10 anteriores, foram seis.
Qual é a trama de "Thunderbolts*"?

Thunderbolts* é o primeiro filme da Marvel a abordar frontalmente o tema da saúde mental. Em maior ou menor grau, quase todos os personagens lidam com questões como depressão, ansiedade, trauma, síndrome do impostor e bipolaridade. Mais do que vilões, enfrentam um abismo emocional.
É um território no qual a Marvel havia pisado muito pouco. Um raro parente dos personagens de Thunderbolts* é a Feiticeira Escarlate da minissérie WandaVision (2021) e do filme Doutor Estranho no Multiverso da Loucura (2022).
O elenco de anti-heróis, rejeitados e até vilões do filme dirigido por Jake Schreier, que tem no currículo Frank e o Robô (2012) e seis episódios da minissérie Treta (2023), inclui a superespiã Yelena Belova, a nova Viúva Negra (Florence Pugh), Bucky Barnes, o Soldado Invernal (Sebastian Stan), o Guardião Vermelho (David Harbour), a Fantasma (Hannah-John Kamen), John Walker, o Agente Americano (Wyatt Russell) e a Treinadora (Olga Kurylenko).
Como diz a sinopse, depois de se verem presos em uma armadilha montada pela maquiavélica Valentina Allegra de Fontaine (Julia Louis Dreyfus), atual chefe da CIA, esses personagens "devem embarcar em uma missão perigosa que os forçará a confrontar os cantos mais sombrios de seus passados. Será que esse grupo disfuncional se destruirá? Ou encontrará redenção e se unirá antes que seja tarde demais?".
Os créditos de abertura, com distorções na tradicional música da Marvel e o sombreamento do logotipo, e a primeira sequência estabelecem o clima e os temas de Thunderbolts*. Não faltam humor nem cenas de ação (embora nenhuma seja muito memorável), e também haverá maquinações políticas e comentários metalinguísticos sobre a trajetória descendente do próprio MCU. Mas o que distingue o filme é seu foco na saúde mental — vale citar que o roteiro foi coescrito pela showrunner da série O Urso, Joanna Calo, ao lado de Eric Pearson, um dos autores de Thor: Ragnarok (2017) e Viúva Negra (2021).
Mesmo que logo acione um paraquedas para aterrissar sã e salva, é muito simbólico que a cena inicial flagre Yelena na beirada do topo de um arranha-céu, em Kuala Lumpur, capital da Malásia. Ali, em uma narração em off, a personagem interpretada com a intensidade característica de Florence Pugh revela sintomas de depressão, como a falta de ânimo e a sensação de vazio. Ela diz que se joga no trabalho como se fosse a resposta — e, ao voltar para casa, se joga na bebida como se fosse o alívio.

Thunderbolts*, nos seus melhores momentos, se assemelha a uma sessão de terapia coletiva. Os integrantes do supergrupo sofrem mais psicologicamente do que fisicamente.
O Guardião Vermelho, por exemplo, entrega-se à nostalgia, assistindo a vídeos da antiga União Soviética, porque tem urgência pela adoração.
Bucky Barnes ainda carrega as cicatrizes emocionais da lavagem cerebral que o transformou em um assassino a mando dos russos.
John Walker reage com raiva e escárnio a um mundo que o rejeita.
E Bob (Lewis Pullman), um novo personagem, é um trauma ambulante e também uma poderosa bomba-relógio — num dia, se sente um deus; no outro, comeu o pão que o diabo amassou.
Não quero entrar no terreno dos spoilers, mas a grande cena de Thunderbolts* é aquela que conjuga a ação dos filmes de super-herói, a ambientação de um terror psicológico que borra as fronteiras entre a realidade, a memória e a fantasia e a catarse de um drama sobre família disfuncional. Chegou a rolar uma lágrima aqui. Mais de uma, para ser franco.
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