
Eu reconheço a necessidade e a urgência do debate proposto por Sonhar com Leões, quinto e penúltimo filme da competição nacional do 53º Festival de Cinema de Gramado: precisamos falar sobre morte digna, sobre eutanásia, sobre suicídio assistido.
— Falar da morte é falar da vida — disse no palco do Palácio dos Festivais, na noite desta quarta-feira (20), a atriz Denise Fraga, protagonista da trama escrita e dirigida por Paolo Marinou-Blanco. — É uma conversa que precisamos ter no Brasil.
Eu reconheço a virtude da ousadia na abordagem em chave de comédia do tema que recentemente foi tratado por dois mestres europeus do cinema: o grego naturalizado francês Costa-Gavras, em Uma Bela Vida (2024), e o espanhol Pedro Almodóvar, em O Quarto ao Lado (2024).
— O filme nasceu de experiências difíceis e dolorosas, mas das quais quis criar coisas bonitas e corajosas — declarou, em Gramado, Marinou-Blanco, cineasta filho de pai português e mãe grega.

O filme se apresenta como "uma tragicomédia surreal sobre a eutanásia". Gilda, a personagem interpretada por Denise Fraga, é uma imigrante brasileira vivendo em Lisboa. Ela tem uma doença terminal — a expectativa é de apenas um ano de vida pela frente, mas Gilda não aguenta mais a dor nem saber que seu corpo vai parar aos poucos. Seu único desejo é morrer enquanto ainda tem sua dignidade.
Portanto, Gilda acaba procurando a Joy Transition International, empresa alinhada ao que podemos chamar de ditadura do sorriso: tanto os empregados (vividos por Joana Ribeiro, Sandra Faleiro e Alexander Tuji Nam) quanto os clientes precisam manter uma atitude constantemente positiva, mesmo diante da morte.
— Hoje em dia tem multinacional pra tudo, até pra morrer — a protagonista comenta diretamente com o público.

Eu reconheço o frescor e a criatividade do roteiro, que, além de quebrar a quarta parede, também faz a Gilda adulta coabitar, via flashback, o mesmo quarto de hospital onde a Gilda criança viu seu pai (interpretado por Felipe Rocha) sofrer até partir por causa de um câncer no pâncreas. Enquanto isso, na outra ponta da história Amadeu (encarnado pelo ator português João Nunes Monteiro), é um agente funerário capaz de bater papo com os cadáveres que prepara para o enterro.
Eu reconheço a qualidade da dobradinha entre o trabalho de câmera comandado pelo diretor de fotografia gaúcho Glauco Firpo e a montagem de Bruno Lasevicius e Kathryn J. Schubert: os quadros costumam estar bem arquitetados, eles sabem quando acelerar e quando acalmar o ritmo, há fluidez nas transições — inclusive quando o script pede o rompimento das fronteiras entre um cenário e outro, entre um tempo e outro.

Eu reconheço a pertinência de muitas reflexões — "Mesmo morrendo, você precisa pensar nos sentimentos dos outros", reclama Gilda — e a ourivesaria na construção dos diálogos.
Eu reconheço a equalização sem pasteurização de Marinou-Blanco na direção do elenco: todos os atores estão no mesmo filme, mas cada um tem seu registro próprio de interpretação.
Eu reconheço mais um desempenho cativante de Denise Fraga, premiada em Gramado e no Festival de Havana pela atuação em Por Trás do Pano (1999) e em Brasília por Felicidade É... (1995) e Hoje (2011).
Reconheço tudo isso, mas fiquei encucado desde a primeiríssima cena de Sonhar com Leões. A pulga se instalou atrás da minha orelha e não saiu mais de lá.
É que Sonhar com Leões não é estritamente "uma tragicomédia surreal sobre a eutanásia". O filme não aborda só a eutanásia: aborda também o suicídio — e com uma perturbadora riqueza de detalhes.
Talvez metade dos seus 87 minutos de duração seja dedicada a retratar as tentativas de suicídio de Gilda. Tudo, vale repetir, é visto sob as lentes do humor.
Sonhar com Leões não apenas apresenta, com encenação ou no mínimo representação gráfica, um manual com vários métodos para tirar a própria vida, como faz piada, repetidamente, sobre o "jeito certo" em uma das formas descritas.
No jornalismo, procuramos seguir uma cartilha elaborada pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), mediante orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), que manifesta contrariedade ao compartilhamento de notícias sobre suicídio que contenham informações explícitas sobre o meio letal.
A arte, claro, vive de transgredir, de desafiar normas e convenções, de provocar e perturbar.
Mas a ficção está isenta de responsabilidade quando trata de um assunto sensível?
Comédias têm passe livre sempre?
Como as pessoas que têm ideação suicida reagem à exposição e à explicação de métodos?
Como os espectadores traumatizados por casos de suicídio na família ou de amigos encaram as piadas sobre as tentativas de se matar postas em prática por Gilda?
Será que Sonhar com Leões não deveria ter, nos créditos iniciais, um alerta de gatilho, um aviso prévio sobre conteúdos que podem desencadear reações emocionais intensas, desconfortáveis ou angustiantes?
Acho que seria um cuidado e um gesto de empatia (aliás, a arte também vive de se colocar no lugar do outro) incluir esse alerta de gatilho no filme antes de sua estreia nos cinemas, marcada para o dia 11 de setembro — justamente o mês da campanha Setembro Amarelo, de prevenção ao suicídio.
Pois bem: no debate sobre Sonhar com Leões, na manhã seguinte, o produtor executivo Eduardo Rezende Lima disse que isso será feito.
É assinante mas ainda não recebe a minha carta semanal exclusiva? Clique AQUI e se inscreva na minha newsletter.
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano



