
A ambição artística é uma faca de dois gumes em O Brutalista (The Brutalist, 2024), que estreia no Amazon Prime Video nesta sexta-feira (22) da mesma forma com a qual foi lançado nos cinemas: no streaming, também tem os 15 minutos cronometrados de intervalo.
Dirigido por Brady Corbet, O Brutalista conquistou muitos prêmios. O primeiro deles foi o Leão de Prata no Festival de Veneza. Depois vieram três Globos de Ouro e quatro Baftas, entre outros troféus. No Oscar, ganhou as categorias de melhor ator (Adrien Brody), fotografia (Lol Crawley) e música original (Daniel Blumberg).
Trata-se do terceiro longa-metragem dirigido pelo estadunidense Corbet, 37 anos completados no dia 17, que nos tempos de ator foi visto como um dos agressores da refilmagem em inglês de Violência Gratuita (2007) e como um coadjuvante em Melancolia (2011). Os seus filmes anteriores são A Infância de um Líder (2015), que se passa durante a elaboração do Tratado de Versalhes, após a Primeira Guerra Mundial, e aborda o surgimento do fascismo; e Vox Lux: O Preço da Fama (2018), em que uma sobrevivente de um tiroteio escolar se torna uma cantora de sucesso.

Em O Brutalista, pelo qual foi premiado como melhor diretor no Globo de Ouro e no Bafta, o cineasta conta a história do fictício arquiteto húngaro e judeu László Toth. É um ex-prisioneiro dos campos de concentração nazistas que, em 1947, desembarca em Nova York para recomeçar a vida. O papel valeu a Adrien Brody seu segundo Oscar de melhor ator na pele de um sobrevivente do Holocausto — ele venceu por interpretar um personagem real, o músico polonês Wladyslaw Szpilman (1911-2000), em O Pianista (2002).
Lászlo é recepcionado por seu primo, Attila (Alessandro Nivola), que trocou o sobrenome — de Mólnar para Miller — e se casou com uma católica, Audrey (Emma Laird), com quem administra uma loja de móveis em Filadélfia. Attila revela que a esposa do protagonista, Erzsébet (Felicity Jones), também sobreviveu à Segunda Guerra Mundial, mas ainda está impossibilitada de emigrar da Europa devido a sua condição de saúde e à burocracia. Através do primo, Lászlo conhecerá o milionário dono de indústria Harrison Lee Van Buren (Guy Pearce), que vai acabar contratando o arquiteto para projetar um enorme centro comunitário, com biblioteca, teatro, ginásio esportivo e uma capela cristã. O projeto vira um campo de conflitos e uma obsessão que consome não apenas dinheiro.

Esse é um resumo rudimentar de um filme que espelha na forma a busca do seu protagonista pela monumentalidade. É como se Brady Corbet, a exemplo de László Toth, quisesse provar ser um artista importante — uma sede de reconhecimento que é traduzida musicalmente pelo imponente leitmotiv composto por Daniel Blumberg, um tema para trompa com quatro notas ascendentes.
Daí a própria duração do filme: três horas e 35 minutos, divididas em uma abertura, duas partes (intituladas O Enigma da Chegada e O Núcleo Duro da Beleza) e um epílogo, compreendendo um período que vai de 1947 a 1980.
Daí o aceno para os intelectuais ao abordar o brutalismo, um estilo arquitetônico cujo nome não é referente à violência nem vem do italiano "brutto" (feio), mas do francês "béton brut" (concreto bruto). Alcançou seu auge entre os anos 1950 e 1970: a urbanização acelerada do pós-guerra casava bem com suas formas simples e geométricas, sem muitos frufrus na decoração e com valorização da funcionalidade.

Daí o apelo à nostalgia da crítica ao resgatar um formato de filme 35 mm, o VistaVision, que em Hollywood havia sido utilizado pela última vez em 1963, na comédia Meus Seis Amores, e ressuscitar o intervalo — entre a primeira e a segunda parte, a tela é ocupada por uma foto gigantesca dos personagens e um cronômetro que marca 15 minutos em contagem regressiva, com a música de Blumberg tocando ao fundo.
Daí o emprego da grandiloquência do gênero épico para tratar de um tema mítico na História e na ficção estadunidenses: a segunda chance. Pode-se dizer que os Estados Unidos nasceram de uma segunda chance, a dos pobres e degradados ingleses que partiram para a América no começo do século 17. E esse recomeço foi sucessivamente reencenado pelos imigrantes, como László.

Daí a trama com tópicos de alto valor histórico e social: o Holocausto, o antissemitismo, a formação do Estado de Israel, os traumas psicológicos e físicos da guerra, a dependência de drogas, a xenofobia, o conflito da criatividade e da independência artísticas com os interesses financeiros, a arrogância e a ignorância das classes mais abastadas, o caráter abusivo e repressor da elite.
Daí o epílogo — ambientado em 1980 — que, por um lado, rompe com a estética do filme ao adotar um formato de vídeo Betamax e transformar a trilha composta por Blumberg em uma versão dançante (com a participação de Vince Clarke, do duo pop Erasure, nos sintetizadores); por outro, ressignifica os eventos anteriores, convidando a audiência ao debate e, quem sabe, a rever O Brutalista com novos olhos.
Mas O Brutalista fica aquém do prometido em sua potente sequência de abertura, que mostra o desembarque de László na ilha Ellis, em Nova York, e tem como ápice uma imagem da Estátua da Liberdade de cabeça para baixo — um alerta sobre a ilusão que pode ser o tal sonho americano, sobre o pesadelo em que pode se transformar.
A duração do filme reflete cenas esticadas, planos sobressalentes e exercícios de virtuosismo técnico, como se tamanho fosse documento.
A arquitetura é menos um assunto de interesse do filme do que um mero elemento decorativo. Talvez haja apenas um diálogo que aborde frontalmente o ofício, quando László fala que seus prédios na Hungria sobreviveram à Segunda Guerra e menciona o senso de "identidade coletiva". E não é em O Brutalista que o público leigo pode aprender sobre o brutalismo.

O marketing sobre o formato VistaVision foi sabotado pela habitual projeção digital das salas de cinema. Perde-se o contraste, a resolução e a difusão de luz que devem ser percebidas em suportes analógicos.
O orçamento modestíssimo, de US$ 9,6 milhões, prejudica as intenções de produzir um épico: falta escala, falta grandiosidade — repare na escassez dos planos mais abertos.
Falta também vida interior a seus personagens. Eles parecem caricaturas, fantoches a serviço do roteiro, à espera da ordem do diretor para proferir uma frase de impacto ("Nós toleramos você", diz o filho de Van Buren a László) ou para protagonizar uma cena de suposto choque. O estupro que acontece em O Brutalista demonstra, a um só tempo, um mau gosto estético de Brady Corbet e sua insegurança quanto ao desenho das personalidades e das relações que se estabelecem entre os personagens: é preciso explicitar a dominância e o desprezo. As explosões emocionais soam artificiais.
A propósito, a revelação de que houve uso de inteligência artificial (IA) para aprimorar o sotaque de Adrien Brody e Felicity Jones colocou sob suspeição todos os diálogos e as narrações em húngaro. Corbet disse que o objetivo era "preservar a autenticidade das performances", mas há um paradoxo quando se utiliza IA em nome de autenticidade.

Os tópicos de alto valor histórico e social, por sua vez, são parcamente desenvolvidos, apesar da longa duração do filme. Acabam vítimas da megalomania de Brady Corbet, que resulta em uma falta de foco e de profundidade.
Por fim, vem o epílogo, em que uma personagem diz uma frase que parece um salvo-conduto para o diretor: "O que importa é o destino, não a jornada" — ou seja, o que importa é a "grande ideia" que Corbet guardou para o final, não as mais de três horas de um exibicionismo quase vazio.
(ALERTA DE SPOILERS)
Esse epílogo explica a motivação do projeto arquitetônico de László Toth e sua obsessão com o design e as medidas da estrutura a ser construída. Na revista The New Yorker, o renomado crítico Richard Brody resumiu bem as virtudes e os problemas da sequência ambientada na Bienal de Arquitetura de Veneza: "Lá, pela primeira vez, o filme vincula a arquitetura austera e de linhas nítidas à crueldade friamente industrializada do Holocausto. Mesmo que essa revelação lance uma luz retrospectiva sobre muitos dos pontos da trama do filme, ela é simplesmente jogada fora. As ambiguidades resultantes são fascinantes e provocativas, embora Corbet nunca pense bem nelas: se László está criando, de fato, poesia arquitetônica após Auschwitz (na verdade, Buchenwald), essa poesia redime a crueldade e a brutalidade dos campos de concentração ou as reproduz? Seus designs pretendem ser celebratórios ou sarcásticos, redentores ou opressivos? Ele está comparando seus patronos dominadores e plutocráticos aos seus opressores nazistas? O Brutalista, com sua impessoalidade e sua vontade de monumentalidade, pretende ser uma peça com a arquitetura de László? Se sim, por que a estética do filme é tão convencional? E se as ideias do artista são o ponto, por que Corbet as ignora tão superficialmente?".
É assinante mas ainda não recebe minha carta semanal exclusiva? Clique aqui e se inscreva na newsletter.
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano


