
Que ano para o cinema do Brasil, que orgulho danado de ser brasileiro!
O país ganhou o inédito Oscar de melhor filme internacional com Ainda Estou Aqui, que também valeu para Fernanda Torres o Globo de Ouro de atriz em drama.
No Festival de Cannes, O Agente Secreto faturou dois prêmios: melhor direção, para Kleber Mendonça Filho, e melhor ator, para Wagner Moura.
O Último Azul recebeu o Urso de Prata, o segundo troféu mais importante no Festival de Berlim.
E na noite desta quinta-feira (21), a última da competição de longas-metragens nacionais do 53º Festival de Gramado, o Palácio dos Festivais assistiu à primeira exibição de Cinco Tipos de Medo, um thriller de crime e suspense que não deve nada às produções de Hollywood, da França, da Inglaterra, da Índia ou da Coreia do Sul. Mais do que isso: é um dos melhores títulos do gênero nos últimos anos.

Cinco Tipos de Medo é o primeiro longa-metragem do Mato Grosso a competir em Gramado. Na verdade, os 180 profissionais envolvidos representam nove Estados, incluindo o RS. A delegação gaúcha vai, por exemplo, da produtora Luciana Druzina ao desenhista de som Kiko Ferraz, passando pelo músico Leo Henkin, autor da trilha sonora original.
— Valorizar o cinema regional é fortalecer o cinema brasileiro como um todo — comentou Luciana no palco do Palácio dos Festivais, onde, neste sábado (23), ocorre a cerimônia de entrega dos Kikitos.
O diretor é o cuiabano Bruno Bini, que estreou em longas com Loop (2020). Cinco Tipos de Medo é uma expansão do seu curta Três Tipos de Medo (2016). A história é baseada em um episódio real, quando moradores do bairro Jardim Novo Colorado, na capital do Mato Grosso, se uniram para pagar a fiança de líder do tráfico, temendo que sua ausência deixasse a comunidade vulnerável à violência de outras facções.
Em Gramado, o cineasta apresentou assim o novo trabalho:
— Cinco Tipos de Medo é um filme que nasce do Brasil profundo, com contradições, potências e histórias que muitas vezes ficam fora do radar nacional. É um filme sobre como a violência urbana afeta nossa vida de forma absurda, às vezes inesperada, e sobre como a gente busca redenção no meio da dor. Então, o filme também é sobre encontros, sobre compartilhar, sobre deixar as pessoas entrarem na nossa vida.
Qual é a trama de "Cinco Tipos de Medo"?

Por se tratar de um tipo de filme em que o segredo é a alma do negócio, evitarei descrever muito da trama de Cinco Tipos de Medo, para não dar spoilers.
Uma narração em off na abertura do filme relaciona os cinco maiores medos identificados por uma pesquisa: medo de médico, medo de lugares fechados, medo da solidão, medo de ficar sem dinheiro e medo de morrer. Cada um deles é ilustrado por uma brevíssima cena que mostra os cinco personagens principais.

Bella Campos, a Maria de Fátima da novela Vale Tudo (2025), retoma o sotaque de sua cidade natal, Cuiabá, para interpretar Marlene, enfermeira que ficou desempregada depois da pandemia de covid-19.
O rapper Xamã dá vida a Sapinho, líder do tráfico de drogas no Jardim Novo Colorado.
Bárbara Colen, de Bacurau (2019), encarna a policial Luciana, capitã do Bope.

Rui Ricardo Diaz, protagonista de Lula, o Filho do Brasil (2009) e o Vitor Morello da série Impuros (2018-), faz o papel do advogado Ivan, que tem uma filha prematura ainda internada no hospital.
E João Vitor Silva, o Bruno de Verdades Secretas (2015-2021), vive o jovem violinista Murilo.

Todo o elenco se destaca, em especial Bárbara Colen, que protagoniza cenas intensas de ação psicológica e de ação física. Mas o astro mesmo é Bruno Bini, que vai muito bem nos seus três papéis: diretor, roteirista e também montador.
O ponto de partida da ciranda do filme é um ataque a tiros à casa de uma dessas cinco pessoas. A partir daí, Bini faz pequenos recuos no tempo narrativo e revisita cenas para mostrar como as cinco trajetórias se conectam, se cruzam e se chocam, emparedando seus personagens com dilemas morais.
O cineasta opera um jogo de alta complexidade que desperta curiosidade sobre o processo de criação da sua estrutura: será que Bini escreveu a história de cada personagem e depois foi embaralhando tudo? Será que o roteiro já previa a construção não linear ou essa foi uma ideia que surgiu na montagem?
Seja como for, o quebra-cabeças de Cinco Tipos de Medo não tem nenhuma peça fora do lugar, não deixa nenhuma peça sobrando. Tudo se amarra, tudo se completa. Até pecinhas que pareciam bobagens insignificantes lá na frente podem se tornar relevantes e decisivas.
Que coisa boa ver um filme de crime, suspense e investigação policial em que o espectador nunca está à frente, mas sempre atrás dos passos do diretor, que nos conduz com muita segurança por um labirinto violento.

Porém, fazendo jus ao discurso de Bruno Bini no palco do Palácio dos Festivais, Cinco Tipos de Medo não é só um thriller muito bem executado. O resultado na tela confirma suas palavras: vê-se como a violência urbana contamina, podendo tragar para sua espiral cidadãos comuns, adolescentes pacíficos, pais traumatizados. Vê-se as contradições e potências de um Brasil que costuma ficar fora do radar. Vê-se o peso do encontro e o valor do compartilhamento de emoções.
Por falar nisso, Cinco Tipos de Medo não investe apenas na tensão, no mistério e na ação. Pode provocar riso, mesmo nas situações mais perigosas, e até choro. Só que o filme atinge nosso coração sem exagerar no dulçor — o retrogosto é mais amargo que se poderia imaginar. Ainda assim, aposto que, quando estrear nos cinemas, em data a ser definida, vai deliciar espectadores famintos por um thriller de crime e suspense preparado com dramas substanciosos e sabores brasileiros.
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