
O filme de suspense Cabo do Medo (Cape Fear, 1991) é uma das três parcerias do diretor Martin Scorsese e o ator Robert De Niro disponíveis no menu da Netflix — as outras são Taxi Driver (1976) e O Irlandês (2019).
Trata-se da refilmagem de Círculo do Medo (1962), adaptação do diretor J. Lee Thompson para um romance de John D. MacDonald. Pelas mãos de Scorsese e do roteirista Wesley Strick, a história tornou-se incandescente e transcendente.
A trama é basicamente a mesma: ao sair da cadeia, após cumprir 14 anos de sentença por estupro, o psicopata Max Cady (papel de Robert De Niro) busca vingança contra seu advogado de defesa, Sam Bowden (Nick Nolte), que é casado com Leigh (Jessica Longe), mulher sempre desconfiada da fidelidade do marido, e pai da adolescente Danielle (Juliette Lewis).
Os atores Gregory Peck (1916-2003), Robert Mitchum (1917-1997) e Martin Balsam (1919-1996) estão presentes nas duas versões, e a tensa trilha sonora composta pelo lendário Bernard Herrmann (1911-1975) foi brilhantemente reformulada por Elmer Bernstein (1922-2004).
Ironicamente, Gregory Peck e Robert Mitchum trocaram de lado. No original, o primeiro interpretou Sam Bowden, e o segundo viveu Max Cady. Em Cabo do Medo, Peck é Lee Heller, advogado do estuprador, e Mitchum faz o tenente Elgart, da polícia da Flórida.
Cabo do Medo foi um sucesso comercial — custou US$ 35 milhões e arrecadou US$ 182,2 milhões nas bilheterias — e recebeu duas indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro, nas mesmas categorias: melhor ator, para Robert De Niro, e melhor atriz coadjuvante, para Juliette Lewis.

Embora De Niro tenha encarnado Al Capone (em Os Intocáveis) e o próprio Diabo (em Coração Satânico), além de mafiosos icônicos, não é exagero considerar Max Cady o grande vilão da sua carreira. O ator realmente apavora na sua combinação de brutalidade e malícia.
Seu corpo malhado e todo tatuado já é um terrível cartão de visitas. A propósito, há um lance metalinguístico na composição visual do seu Max Cady: ao usar tatuagens de cunho religioso, De Niro emprestou à recriação de um dos personagens mais conhecidos de Robert Mitchum elementos de outro, o falso pastor de O Mensageiro do Diabo (1955).

Martin Scorsese disse que Cabo do Medo é um filme sobre "punição para tudo aquilo que excite sexualmente o ser humano, a batalha moral básica da ética cristã". Nesse sentido, Max Cady é o catalisador da sexualidade latente da filha adolescente de Tom Bowden.
À época da estreia nos cinemas, o crítico José Onofre (1942-2009), em Zero Hora, ofereceu outra rica leitura: a mitologia dos EUA é calcada no "dilema com que depararam os primeiros homens brancos a chegarem naquele território para recomeçar a vida: a construção da família ou a aceitação da solidão. É a grande metáfora da vida, a América em sua vastidão quase desabitada é o cosmos desafiante, surgindo a família como a solução de grupo que faça a mediação com o inexplicável e coloque as raízes da sociedade. Cabo do Medo é a batalha da família para expulsar a selvageria inconsciente do mundo".
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