
Os Enforcados (2024), que estreia nesta quinta-feira (14) nos cinemas, começa citando uma passagem do livro The Ritual Theory of Myth (em português, a teoria ritual do mito), publicado em 1966 pelo estadunidense Joseph Fontenrose (1903-1986), um estudioso da literatura clássica e da mitologia:
"Durante a Sakaia babilônica, quando mestres e servos trocavam de lugar na folia saturnal, um criminoso condenado era vestido com as roupas do rei, sentado no trono e recebia o título de Zoganês; durante cinco dias comia e bebia à vontade, desfrutava das concubinas do rei e dava as ordens que lhe apetecia; no quinto dia era despido, açoitado e enforcado".
A Babilônia da era antes de Cristo se conecta à Escócia do século 11 e ao Rio de Janeiro dos anos 2020 no filme escrito e dirigido por Fernando Coimbra.
Este é o segundo longa-metragem rodado no Brasil por Coimbra, que repete em Os Enforcados a parceria com a atriz Leandra Leal, protagonista do premiadíssimo O Lobo Atrás da Porta (2013) — o cineasta chegou a competir ao troféu de estreante no DGA, do Sindicato dos Diretores dos EUA.
Entre um título e outro, ele assinou a série nacional O Homem da sua Vida (2017), fez em Hollywood o filme sobre a guerra no Iraque Castelo de Areia (2017), estrelado por Nicholas Hoult, Logan Marshall-Green, Henry Cavill e Glen Powell, e dirigiu episódios dos seriados Narcos e Perry Mason.

Como O Lobo Atrás da Porta, que girava em torno do sequestro de uma criança e de um triângulo amoroso, Os Enforcados é outro ótimo suspense urbano com crime e paixão. De novo no Rio de Janeiro, Fernando Coimbra conta a história do casal Regina (personagem de Leandra Leal) e Valério (Irandhir Santos, das novelas Amor de Mãe, Pantanal e Guerreiros do Sol).
Os dois são dados a jogos eróticos de violência, submissão e escárnio. Na cena de abertura, Valério finge ser um ladrão que invade a casa onde moram, na Zona Oeste do Rio, e "obriga" Regina a fazer sexo. Depois da transa, a esposa se olha no espelho e reclama do marido, soltando uma frase que fala muito sobre nossas contradições e hipocrisias:
— De faca eu gosto, de marca não.
No café da manhã, a conversa é sobre a reforma que estão fazendo na mansão. Pisando em ovos, Valério alerta Regina que o dinheiro está minguando, vem saindo mais do que entrando.
— Eu tô quebrado — revela.
— Como assim? — espanta-se a esposa. — Não tô entendendo como você pode tá falido se o Brasil tá em crise. O teu negócio vive de crise, Valério. Onde é que caça-níquel mora? Mora em bar, porque a pessoa que tá desesperada, ela reza, ela bebe e ela joga.
Eis a origem da riqueza de Valério: o jogo do bicho e as máquinas caça-níqueis, um mundo clandestino — mas já "legitimado" no país — onde seu pai, já falecido, e o seu tio, Linduarte (Stepan Nercessian), construíram um império. O marido diz que tem um plano para resolver a situação: quer vender sua parte para o tio e, enfim, levar uma vida limpa. Mas Regina — cujo nome, não parece coincidência, em latim quer dizer rainha — tem outro plano, mais ambicioso, mais perigoso.

É aí que Os Enforcados e o Rio contemporâneo se cruzam com Macbeth e a Escócia medieval. Como a Lady Macbeth da célebre peça de William Shakespeare (1564-1616), Regina vai incentivar o marido a matar Linduarte para assumir o trono. Se na tragédia do teatro há a profecia das três bruxas, no filme ela consulta as cartas de tarô lidas por sua mãe — essa personagem é vivida com verve por Irene Ravache: uma de suas máximas é "Todo dinheiro é sujo".
Seguindo os passos de Shakespeare, Fernando Coimbra pontua com imprevistos, reviravoltas e traições a trama povoada por coadjuvantes como Jadson (Thiago Thomé), o braço-direito de Valério, o delegado Torres (Pepê Rapazote), os bicheiros Capitão Rodrigues (Ernani Moraes) e Abelardo (Ricardo Bittencourt) e o advogado tributarista Batista (Augusto Madeira), responsável pelo "reposicionamento financeiro" — um eufemismo para lavagem de dinheiro do crime e da contravenção. Aliás, o senso de humor ácido é um dos trunfos do filme.
A exemplo de Macbeth, Os Enforcados retrata a ambição humana, a corrupção do poder, a natureza do mal e o peso da culpa. O barulho constante das obras na mansão e das máquinas no cenário das docas reflete a jornada caótica em que o casal se meteu e a turbulência do estado de espírito dos personagens. Da mesma forma, a obsessão de Regina com uma suposta mancha na parede parece ilustrar a sua consciência pesada. Vale reparar também em objetos de cena: além dos mais óbvios (como a corda de um varal), um colar, um fio de luz e o chuveirinho da banheira ajudam a reforçar a ideia do título e a mostrar como o casal vai sendo sufocado pela cobiça, pela mentira e pelo sangue.
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