
A terça-feira (19) foi feminina no 53º Festival de Cinema de Gramado. No mesmo dia da entrega do Troféu Oscarito para a atriz Marcélia Cartaxo no Palácio dos Festivais, houve a exibição de dois filmes dirigidos por mulheres: o documentário gaúcho Quando a Gente Menina Cresce, de Neli Mombelli, e o longa-metragem de ficção A Natureza das Coisas Invisíveis, de Rafaela Camelo. Os dois títulos são protagonizados por gurias de nove a 12 anos.
Primeiro longa-metragem do coletivo TV OVO, de Santa Maria, que completa 30 anos em 2026, Quando a Gente Menina Cresce foi o segundo concorrente da Mostra de Longas Gaúchos, sucedendo outro documentário, Uma em Mil, dos irmãos Jonatas Rubert e Tiago Rubert. Nesta quarta (20), haverá a sessão da ficção Bicho Monstro, de Germano Oliveira. Na quinta-feira (21) e na sexta-feira (22), respectivamente, Rua do Pescador Nº 6, de Bárbara Paz, e Passaporte Memória, de Decio Antunes, fecham a competição. A entrega dos Kikitos será na noite de sexta.
Na tarde desta terça, no palco do Palácio dos Festivais, Neli Mombelli disse que seu filme nasceu em uma reunião familiar, em 2019, quando as mulheres mais velhas estavam falando sobre sua primeira menstruação. Uma delas contou sobre o turbante que usava na cabeça para impedir que os cabelos molhassem: o risco era "ficar louca".
— Ainda hoje existem muitos tabus sobre esse tema, com falta de informação e falta de acolhimento — apontou a diretora.

Neli estava acompanhada das seis meninas que estrelam o filme, todas alunas da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Professor Sérgio Lopes, na periferia de Santa Maria: Alana, Ana Julia, Emilly, Isadora, Taiane e Thaila. Antes de iniciar a sessão, Neli desejou que elas "possam ser o que quiserem e possam sonhar sempre".
O documentário acompanha a transição vivida por essas garotas de nove a 12 anos ao longo de um ano letivo. Umas já se sentem pré-adolescentes, outras dizem que ainda são crianças, "graças a Deus!". Elas falam sobre a relação com o próprio corpo, revelam sentimentos, desejos e medos, compartilham aprendizados herdados de suas mães. Menstruação parece uma palavra proibida: dizem "virar mocinha", "vazou". Mas as meninas também demonstram o ímpeto de quebrar o ciclo geracional, movidas por sonhos como o de querer ser astronauta.

Quando a Gente Menina Cresce tem um elenco absolutamente cativante, por causa da simpatia, da expressividade e da espontaneidade — frutos de um trabalho de escuta, confiança e fortalecimento dos laços entre a equipe do filme, as gurias e suas famílias. A direção de fotografia de Lívia Pasqual e Marcos Borba, a montagem de Joana Bernardes e Thais Fernandes e a direção de arte de Luisa Holanda constroem cenas belíssimas e potentes, seja ao retratar uma brincadeira no pátio da escola, seja ao registrar o encantamento das meninas diante da performance de um grupo de dança em uma árvore.
"A Natureza das Coisas Invisíveis"

Na programação da noite no Palácio dos Festivais, a diretora e roteirista brasiliense Rafaela Camelo, que também assina como uma das produtoras e uma das montadoras, apresentou o quarto competidor dos Kikitos de longas nacionais de ficção, A Natureza das Coisas Invisíveis. O filme participou do Festival de Berlim de 2025 na mostra Generation Kplus, dedicada ao universo infantojuvenil, e é o primeiro longa-metragem de Rafaela, coautora, com Emanuel Lavor, do curta As Miçangas (2023).
No seu discurso, a cineasta emocionou-se ao definir o filme como "um pequeno manifesto aos que partiram". Essa definição, mais a ambientação, na segunda parte, em uma chácara e o abraço ao místico conectam A Natureza das Coisas Invisíveis a Cidade; Campo (2024), longa premiado no Festival de Gramado do ano passado e dirigido por Juliana Rojas — que prestou consultoria ao roteiro de Rafaela.
Se a diretora chorou no palco do Palácio dos Festivais, suas duas atrizes mirins esbanjaram risos. E conquistaram a plateia com palavras de carinho e agradecimento.
— Uma honra participar deste festival e passar um pouco deste friozinho — disse Serena, 12 anos.
— Gente, todo mundo aqui é maravilhoso. Os gaúchos são muito educados — elogiou Laura Brandão, 11 anos. — Queria agradecer à minha mãe e ao meu pai, que apoiaram desde o início a minha carreira de atriz.

No filme, Laura interpreta Glória, uma garota de 10 anos que passa as férias de verão no hospital onde sua mãe, Antônia (Larissa Mauro), trabalha como enfermeira. Lá, ela conhece a personagem de Serena, Sofia, menina que chamou a ambulância por causa do acidente doméstico de sua bisavó (Aline Marta Maia), que tem Alzheimer em estado avançado e agora está internada. Camila Márdila encarna a mãe de Sofia, Simone, que logo desenvolve amizade com Antônia. (Como os nomes do elenco indicam, os raríssimos homens são apenas coadjuvantes na trama.)
Unidas pelo desejo de sair dali, as crianças encontram conforto na companhia uma da outra. Diante da iminência da morte da bisavó, as duas famílias viajam juntas para passar os últimos dias dela em um refúgio verde no interior de Goiás.

Tudo resplandece em A Natureza das Coisas Invisíveis. Laura Brandão e Serena enchem a tela cada vez que aparecem. Apesar de haver um ou outro diálogo mais formal, suas personagens falam — e agem — com a naturalidade, a curiosidade, o caráter lúdico e o espanto das crianças. Não à toa, a bisa aconselha as duas mães:
— Brinquem muito com suas filhas, porque são essas coisas que valem a pena.
O roteiro faz reverberar lá adiante elementos estranhos, como a presença de um porco em um banheiro de colégio, e objetos cênicos, como uma fotografia rasgada. Assim, vai introduzindo temas e abrindo o filme a novas leituras, mas sem jamais perder o foco narrativo e a coerência artística. Rafaela Camelo defende o afeto, a delicadeza, a reconexão com o telúrico e o valor da espiritualidade.
A direção de fotografia assinada por Francisca Sáez Agurto demonstra sensibilidade e talento para a poesia visual, virtudes realçadas pela edição serena de Marina Kosa e Rafaela Camelo. A cereja deste bolo de sabor bem caseiro é a trilha sonora, tanto a música composta pelo chileno Alekos Vuskovic, que contribui muito para o clima mágico de certas cenas, quanto as pérolas resgatadas do cancioneiro brasileiro dos anos 1970 e 1980, como Fazenda, de Milton Nascimento, Eu Queria Dizer que te Amo numa Canção, de Fernando Mendes, e Quero Ser Locomotiva, de Jorge Mautner.
Eis um favorito para a noite de entrega dos Kikitos, neste sábado (23), e que não vai demorar muito a estrear nos cinemas: o lançamento está previsto para o dia 27 de novembro, dentro do projeto Sessão Vitrine, com ingressos baratos.
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