
Só poderia estrear em uma quinta-feira (28) na Netflix o filme O Clube do Crime das Quintas-Feiras (The Thursday Murder Club, 2025), adaptação do romance policial homônimo que virou best-seller e deu origem a uma série literária.
Lançado em 2020 pelo britânico Richard Osman, que até então era apresentador de TV, e publicado no Brasil pela editora Intrínseca, O Clube do Crime das Quintas-Feiras foi logo sucedido por O Homem Que Morreu Duas Vezes (2021), A Bala Que Errou o Alvo (2022) e O Último Demônio a Morrer (2023). Os quatro livros já venderam mais de 10 milhões de exemplares, e o quinto, The Impossible Fortune, vai sair no Reino Unido e nos Estados Unidos na virada de setembro para outubro.
A adaptação do best-seller provoca uma sensação paradoxal: parece simultaneamente apressado e preguiçoso. Ainda que suas duas horas demorem uma eternidade para transcorrer, é nítido que faltou tempo para um desenvolvimento melhor dos personagens e das subtramas. Assim como há séries que poderiam ficar acomodadas em um único filme, a história de O Clube do Crime das Quintas-Feiras talvez ficasse mais envolvente e prazerosa se contada e dividida em episódios.
Os personagens são quatro idosos que se reúnem às quintas-feiras em um luxuoso lar geriátrico no sudeste da Inglaterra, o Cooper's Chase. A agenda da sala de reunião diz que eles discutem ópera japonesa, mas na verdade o quarteto usa o horário para tentar resolver antigos casos policiais nunca solucionados — meio que por passatempo, meio que pelo ímpeto de trazer justiça às vítimas.
A ousada Elizabeth lidera o grupo, graças a sua experiência com assuntos secretos — ela é uma espiã aposentada. Ron é um ex-líder sindical — nos tempos de ativa, tinha o apelido de Red Ron por causa de seus ideais esquerdistas. Ibrahim era um psiquiatra — portanto, oferece uma perspectiva psicológica nas investigações. Recém-chegada à turma, a ex-enfermeira Joyce é tão perspicaz quanto prática.

Katy Brand e Suzanne Heathcote escreveram o roteiro do filme, que é dirigido por Chris Columbus, realizador de um punhado de sucessos de bilheteria, como Esqueceram de Mim (1990), Esqueceram de Mim 2: Perdido em Nova York (1992), Uma Babá Quase Perfeita (1993), Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001) e Harry Potter e a Câmara Secreta (2002).
O elenco principal é de sonho. Ganhadora do Oscar de melhor atriz por A Rainha (2006) e indicada por As Loucuras do Rei George (1994), Assassinato em Gosford Park (2001) e A Última Estação (2009), Helen Mirren interpreta Elizabeth. Jonathan Pryce, que disputou o prêmio de melhor ator da Academia de Hollywood por Dois Papas (2019), faz o papel do marido da ex-espiã, Stephen, que tem Alzheimer.

Pierce Brosnan, que foi James Bond em quatro aventuras, mostrou seus dotes cômicos em Mamma Mia! (2008) e contracena com Mirren na série Terra da Máfia (2025-), dá vida a Ron. Ben Kingsley, oscarizado por Gandhi (1982) e concorrente por Bugsy (1991), Sexy Beast (2001) e Casa de Areia e Névoa (2003), encarna Ibrahim. E Celia Imrie, coadjuvante de títulos como Garotas do Calendário (2003) — também estrelado por Helen Mirren — e O Exótico Hotel Marigold (2011), cativa como Joyce.
Dada a natureza da trama, que busca convidar o leitor/espectador para desvendar junto seus mistérios, evitarei spoilers na descrição da história de O Clube do Crime das Quintas-Feiras.
Quando o filme começa, a patota está envolvida com o caso de uma garota morta em 1973, cujo assassino nunca foi preso, mas logo problemas bem atuais batem à porta. Primeiro porque os hóspedes de Cooper's House — a propósito: jamais sabemos a fortuna paga para ocupar suas enormes e aprazíveis instalações — estão ameaçados de despejo. Um dos sócios do empreendimento, Ian Venhtam (vivido por David Tennant em modo "vilão genérico do mundo dos negócios"), quer transformar o local em um centro de convenções e o cemitério adjacente em um condomínio.
Depois, Elizabeth, Ron, Ibrahim e Joyce se verão impelidos a investigar uma morte do presente. Para isso, tentarão contar com a ajuda de uma policial cansada de cuidar só de multas no trânsito, Donna de Freitas (Naomi Ackie, de Pisque Duas Vezes).

O Clube do Crime das Quintas-Feiras trilha um caminho que não é nada novo: o dos detetives amadores da terceira idade. Criada em 1927 por Agatha Christie, Miss Marple foi um dos ícones fundadores do gênero policial — e o próprio Richard Osman, ao batizar seu livro de estreia, celebrou o primeiro conto com a personagem, O Clube Noturno das Terças-Feiras.
Agora em setembro, o Disney+ vai lançar a quinta temporada de Only Murders in the Building, série premiada no Emmy em que Steve Martin, hoje com 80 anos, e Martin Short, 75, são moradores de um edifício luxuoso que se juntam a uma jovem interpretada por Selena Gomez para investigar assassinatos.
O talento e o charme do elenco compensam a falta de frescor na narrativa de O Clube do Crime das Quintas-Feiras, mas Helen Mirren, Pierce Brosnan, Ben Kingsley e Celia Imrie não são exatamente um Quarteto Fantástico: não têm superpoderes para combater a direção preguiçosa e o roteiro apressado. Enigmas e pistas são bastante mastigados para o público, como se o filme fosse feito para ser "visto" enquanto você estiver fazendo outra coisa. Quando tudo não está dito com todas as letras, os olhares dos atores duram o tempo mais do que necessário para que a gente saiba direitinho o que vai acontecer.
As reviravoltas na trama e as coincidências mirabolantes pedem muita suspensão da descrença, mas pelo menos o espectador pode se surpreender — ou se decepcionar — com uma escolha moral feita no desfecho. Só que essa escolha não ganha repercussão à altura do seu peso. Como outro sintoma da mistura de pressa e preguiça de O Clube do Crime das Quintas-Feiras, é logo abandonada e fica quase esquecida em meio ao epílogo óbvio e apaziguante que aponta para novas aventuras com os personagens de Richard Osman.
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