
O Analista de Bagé, o detetive Ed Mort e a Velhinha de Taubaté podem até ser mais famosos, mas não são os personagens mais antigos do genial Luis Fernando Verissimo, que morreu neste sábado (30), aos 88 anos, em Porto Alegre. Ele estava internado desde 11 de agosto no Hospital Moinhos de Vento, com e pneumonia, e enfrentava a doença de Parkinson e sequelas de um acidente vascular cerebral (AVC) sofrido em 2021.
Anos antes de seus filhos ilustres, ele deu vida à tira de quadrinhos As Cobras, onde Verissimo exercitou seu talento máximo com um traço mínimo.
— O desenho existia em função da piada. Era um desenho muito rudimentar. Eu só precisava de alguém, ou de alguma coisa, fácil de desenhar, que agisse e falasse nos quadrinhos sem a necessidade de muitos detalhes — contou LFV em entrevista para mim, publicada no jornal Zero Hora em setembro de 2010, época do lançamento de As Cobras: Antologia Definitiva (Editora Objetiva). — Acabou sendo cobra. Cobra é só pescoço.

Em vez de constituir um ponto fraco, o estilo adotado mostrou-se uma virtude da tira, como atestaram depoimentos de outros quadrinistas: "As Cobras: quando menos é mais.
Verissimo ali está perfeito, sintético", elogiou Iotti, o criador do Radicci. "O traço econômico acelera ainda mais a força das piadas", disse Fernando Gonsales, pai do Níquel Náusea. "É a junção do texto genial do LFV com o desenho rápido e caligráfico, no qual só tem o essencial", afirmou Allan Sieber.
Ironicamente, a tira nasceu no Dia de Finados, em 1975. As Cobras morreram em 16 de fevereiro de 1999, após quase 25 anos inoculando humor inteligente pelas páginas de Zero Hora. (Mais tarde, em 1988, com a mesma economia artística, mas com a mesma riqueza humorística, Verissimo deu vida a As Aventuras da Família Brasil, tira que durante quase três décadas — foi encerrada em 2017 — retratou o universo da classe média do país, desafiada pela crise financeira, pelo choque de gerações, por dilemas éticos, pelo mercado de trabalho, pelo aumento da prole...)
Desde então, com uma breve, brevíssima ressurreição em 2006, As Cobras descansam em paz, ao lado de alguns clássicos dos quadrinhos que ganharam de seus autores o direito de morrer, como a Mafalda, de Quino, Calvin & Haroldo, de Bill Watterson, e Rê Bordosa, de Angeli.
— Eu parei de fazer As Cobras, em parte, porque achei que não ficava bem um homem de 60 anos ficar desenhando cobrinhas — brincou Verissimo.

A fauna de personagens inclui Queromeu, o corrupião corrupto, Alves Cruz, o avestruz candidato, as traças Leno e Lilian, a pulga Sulamita e os caracóis Flecha e Shirlei, que vivem às turras por causa do narcisismo do primeiro: "Você só pensa em si mesmo", reclama Shirlei. "Todos precisam de ídolos", justifica Flecha. (A propósito, imbuído da imodéstia do molusco citado, o autor deste texto se permite imaginar outros personagens que LFV poderia ter desenhado caso tivesse continuado: a cobra carnavalesca, Serpentina, rainha de bateria da Escola de Samba Ofídios do Amor, que de fato existiu nas HQs produzidas entre 1975 e 1999; a cobra cantora, Coral; a cobra portuguesa metida a poeta, Fernando Peçonha.)
Outros tipos célebres são Dudu, o Alarmista, o Chef Rienamangê e Mark Eting, o consultor de candidatos. Verissimo não tinha um personagem favorito, mas gostava das cobras recém-nascidas, que saíam da casca cheias de indagações e preocupações sobre o Brasil e o mundo: "Como a que nasceu trazendo um habeas corpus preventivo, por via das dúvidas", exemplificou o autor.
Com 200 páginas e 470 tiras, a tal antologia definitiva está dividida em 10 capítulos. O maior deles é dedicado às piadas sobre o poder, sobre crises econômicas, corruptos de plantão, pesquisas eleitorais e candidatos cosmetizados — piadas que, para o bem ou para o mal, não ficaram datadas. Convém lembrar: surgidas no regime militar, As Cobras foram uma tira eminentemente política.
— As Cobras marca um momento importante: é quando o Verissimo assume com regularidade seu lado cartunista e usa a linguagem do humor gráfico, indispensável para popularizar, naqueles tempos, a briga contra a ditadura e pela democracia no país — disse em 2010 Edgar Vasques, artista gaúcho que, uns anos antes de LFV, criou outro personagem célebre do quadrinho político, o pobre e faminto Rango.
Verissimo elogiou Rango ("Era mais contundente, e continua sendo admirável, com sua mistura de indignação e crítica social sem nunca perder a graça") e disse que não chegou a ter problemas com a censura durante o regime militar:
— Acho que, como o desenho tem essa conotação de coisa lúdica, infantil, o humor gráfico era mais tolerado do que o escrito. Não por acaso a grande revelação do humor brasileiro na época da ditadura foi o Henfil, com seu traço malcriado. Ou então os censores não entendiam os desenhos que viam.

Mas Verissimo tinha uma versatilidade invejável. Assim como podia escrever sobre tudo — da política internacional à política do Internacional, da teoria da evolução à evolução na prática (ou seja, alguma de suas musas, como foram as atrizes Patricia Pillar e Luana Piovani) —, ele também era craque em desenhar tudo.
Quer piadas existencialistas, como aquelas das cobras mirando o universo ou tentando falar com Deus? Tem. Quer piadas sobre sofridos técnicos de futebol e jogadores sofríveis? Tem. Quer paródias sobre a história do mundo, a Bíblia e outras grandes obras? Tem. Quer cobras, hã, lagarteando na praia? Tem.
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