
O primeiro filme exibido na mostra competitiva de longas-metragens brasileiros do 53º Festival de Cinema de Gramado estabeleceu uma régua altíssima para uma categoria da premiação que será realizada em 23 de agosto. Por seu desempenho em Nó, produção paranaense dirigida por Laís Melo que abriu a sessão deste sábado (16) no Palácio dos Festivais, Saravy já surge como favorita ao Kikito de melhor atriz. A conquista combinaria com o nome da sua personagem: Glória.
Trata-se do longa de estreia de Laís, diretora dos curtas-metragens Tentei (2017) — que recebeu três Candangos no Festival de Brasília: melhor curta, atriz (a mesma Saravy) e direção de fotografia — e Me Deixei Ali (2020), também protagonizado por Saravy.
O roteiro de Nó foi escrito por Laís com Saravy, e as duas estavam à frente do batalhão que subiu ao palco do Palácio dos Festivais para apresentar o filme. Foram 30 pessoas, incluindo gente do elenco e de diversos setores da parte técnica — segunda assistente de câmera, colorista etc. Havia até um nenê, filho de um dos produtores.

Nos discursos, uma reflexão saltou aos ouvidos por causa de sua pertinência e de sua transcendência: como a gente filma o violento sem violentar de novo nossos corpos? É uma pergunta válida para qualquer filme que se proponha a abordar a violência, seja física, psicológica ou social.
A trama flagra Glória em um momento delicado na sua família, no trabalho e na vida pessoal. Depois de um divórcio conturbado, a protagonista mudou-se para um apartamento alugado no centro de Curitiba com as três filhas: as adolescentes Sabrina (Sali Cimi, desde já uma candidata ao Kikito de atriz coadjuvante) e Mita (Antonia Saravy) e a menina Thayná (Clarice Carvalho).
Quando Airton, o ex-marido, resolve pedir a guarda integral das filhas, Glória vê-se obrigada a disputar com a melhor amiga, Maga (a atriz trans Fernanda Silva), e outros três colegas a vaga de supervisora na fábrica de pipoca doce onde trabalha duro e muito. A promoção significaria o dobro do salário e mais horas de convívio com a família.
Entrementes, Glória descobre um caroço em suas costas que esconde de todo mundo. Pode ser um câncer, por exemplo, ou uma espécie de representação física das suas angústias.
Nó tem um começo claudicante e termina com um diálogo militante que soa artificial em mais de um aspecto (tanto nas interpretações quanto no cotejo com a trajetória da protagonista) e com uma cena de realismo mágico que pareceu deslocada (em relação ao naturalismo adotado ao longo de todo o filme) e não tão bem executada. Mas entre uma coisa e outra atinge o sublime. Fiquei com lágrima nos olhos em pelo menos um par de cenas.
Protagonista de A Felicidade das Coisas (2021), Saravy tem em Nó uma atuação nuançada e emocionante. Transmite tanto seu amor de leoa pelas filhas quanto sua exaustão por causa de uma vida de trabalho puxado e cobertor curto. Permite-se também a fuga, a raiva e a serenidade. Seu monólogo na audiência sobre a guarda é antológico. Com a câmera parada em seu rosto, sem cortes, Glória desabafa sobre uma aflição comum a muitas mães: "Nos dias das minhas filhas com o pai eu não sei absolutamente nada delas"; explica que ela e as meninas já se organizaram: "A escola fica perto, a gente tem rotina e elas têm sonhos"; e conclui com sinceridade e esperança: "Eu erro, sim, mas é para acertar depois".

Filmadas com atenção ao gestos mínimos e editadas sem pressa, as cenas de interação entre Glória, Sabrina, Mita e Thayná transformam o corriqueiro em mesmerizante. É tão bonito ver a cumplicidade e o carinho entre a mãe e as filhas — e para isso contribuiu a escalação de Antonia Saravy e Clarice Carvalho, que são filhas de Saravy na vida real. Claro que há precariedade financeira, estresse, uma bronca materna mais forte, alfinetadas entre irmãs; mas os alicerces daquela casa são o afeto, o cuidado e o ato de compartilhar.
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