
Você só tem mais sete oportunidades para ver no cinema um filmaço sobre como lidamos com a proximidade da morte: Uma Bela Vida (Le Dernier Souffle, 2024), do cineasta grego naturalizado francês Konstantinos Gavras, o Costa-Gavras, 92 anos.
A Sala Paulo Amorim da Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre, realiza nesta quarta-feira (20) a última exibição do filme no horário das 19h15min. A partir desta quinta (21) e até o dia 27, as sessões serão às 15h. O cinema não abre nas segundas-feiras.
Este é o 21º longa-metragem de Costa-Gavras, que se notabilizou por um cinema político, atacando ditaduras — de direita ou de esquerda, na Europa ou na América do Sul.
Com Z (1969), que reconstitui o caso do assassinato de um deputado de oposição na Grécia dos anos 1960 e o acobertamento do crime, recebeu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes (que também laureou o ator Yves Montand) e ganhou o Oscar internacional, representando a Argélia, e concorreu ao prêmio de direção. O título também venceu a categoria de edição e disputou as de melhor filme e roteiro adaptado.

A Confissão (1970), sobre a prisão e a tortura de um dissidente tcheco, acusado de trair o Partido Comunista, e Estado de Sítio (1972), sobre a ditadura militar no Uruguai, foram indicados ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro.
Desaparecido: Um Grande Mistério (1982), que narra a busca de um escritor estadunidense que desapareceu durante o golpe militar no Chile, em 1973, por sua esposa e seu pai, conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e o Oscar de roteiro adaptado, além de concorrer às estatuetas douradas de melhor filme, ator (Jack Lemmon, também premiado em Cannes) e atriz (Sissy Spacek).
A Segunda Guerra Mundial também foi um tema importante para Costa-Gavras.
Ele ganhou o troféu de melhor direção em Cannes por Sessão Especial de Justiça (1975), sobre o julgamento, na época da ocupação alemã na França, de seis pequenos criminosos responsabilizados pelo governo colaboracionista de Vichy pelo assassinato de um oficial nazista. Depois, mereceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim por Muito Mais que um Crime (1989), em que uma advogada dos EUA (Jessica Lange, indicada ao Oscar de melhor atriz) é convencida pelo pai, um imigrante húngaro, a defendê-lo da acusação de crimes de guerra. Em Amém (2002), o cineasta denunciou o silêncio e a omissão do Papa Pio XII diante do extermínio de judeus.
Na comparação com esse currículo, alguém pode achar um corpo estranho a presença de Uma Bela Vida — uma impressão reforçada pelo equivocado título brasileiro. Parece o de uma comédia dramática genérica ou o de um dramalhão edulcorado. O nome original, Le Dernier Souffle, quer dizer O Último Suspiro e vem do livro homônimo escrito pelo filósofo francês Regis Debray (que acompanhou Che Guevara na guerrilha, na década de 1960), 84 anos, com o médico Claude Grande. Se fosse para adotar liberdade poética na tradução, melhor seria rebatizar o filme como Uma Bela Morte.

Seja como for chamado, Uma Bela Vida não deixa de ser um filme político.
A ditadura que Costa-Gavras retrata agora ataca à direita, à esquerda e ao centro e é ainda mais implacável: a morte chega para todos.
A denúncia que Costa-Gavras faz agora é: os governos, a classe médica e a sociedade estão preparados para lidar com o envelhecimento em ritmo acelerado da população, o que, naturalmente, aumenta o contingente de pessoas próximas da morte? O que estamos fazendo para tornar essa despedida da vida a mais digna possível, com o mínimo de sofrimento? Será que alguns remédios, como bem observou o crítico Inácio Araújo na Folha de S. Paulo, não servem mais às farmacêuticas que os produzem do que aos pacientes, que têm alimentadas falsas esperanças?
A guerra que Costa-Gavras examina agora é travada em um âmbito particular. O conflito é do indivíduo contra o inevitável, de planos e sonhos contra medos e certezas. Às vezes, o "inimigo" está nas trincheiras: a pessoa quer morrer, mas a família reluta.
— Estou chegando a uma idade em que o fim da vida se aproxima — declarou Costa-Gavras à AFP. — Eu gostaria que o final fosse bom. Sem dor, sem drama, sem agonia permanente. Em nossa sociedade, nem todos os meios estão disponíveis para que as pessoas tenham um bom fim. A morte nos assusta terrivelmente desde que somos pequenos e não queremos falar sobre isso. Não: temos que falar sobre isso e nos preparar! É por isso que fiz esse filme, para mim.
Qual é a trama de "Uma Bela Vida"?

Os temas e as situações de Uma Bela Vida alinham o filme a títulos como Mar Adentro (2004) e O Quarto ao Lado (2024) — e também ao livro O Dia em que Eva Decidiu Morrer: Uma Reflexão sobre Autodeterminação e Direitos de Fim de Vida (2025), em que o jornalista e escritor porto-alegrense Adriano Silva defende a morte voluntária assistida. Na trama elaborada por Costa-Gavras, o ator Denis Podalydés interpreta Fabrice Toussaint, um renomado e sexagenário filósofo francês que diz preferir a verdade, mesmo que seja brutal. Durante exames de check-up, ele descobre a possibilidade de um câncer — com o risco de uma evolução fulminante.
— Não nos abalamos com carnificinas, massacres de guerra. É diante da unidade de uma morte que entramos em pânico — comenta o personagem a certa altura.
O pavor provoca um bloqueio criativo em Fabrice leva o filósofo a conhecer o médico Augustin Masset (papel de Kad Merad), especializado em cuidados paliativos — que buscam oferecer conforto e alívio a, por exemplo, pacientes terminais. Augustin afirma que, nas faculdades, "só se fala de cura" — a morte é sempre vista como um fracasso, mesmo que seja infalível.

O médico também vai contar histórias de pacientes — que são vistas em flashbacks — como Sidonie (encarnada por Charlotte Rampling, 79 anos) e introduzir Fabrice no cotidiano da unidade de cuidados paliativos administrada por ele. Entre os personagens, estão o senhor Broquet (Alain Libolt), que deseja a visita de seu cachorro, Léa (Agathe Bonitzer), uma jovem que não aceita o desfecho de sua doença, e Madame Léonie (Françoise Lebrun), que está menos interessada no "paraíso da morfina" do que nos "sonhos de vida" que tem quando consegue dormir. Há quem queira reatar laços familiares, há quem queira poupar a família do luto antecipado.
Com mais doçura e luminosidade do que se poderia imaginar, a coleção de casos descritos em Uma Bela Vida ilustra os dilemas que envolvem o processo de humanização do fim da vida e os sentimentos de quem está prestes a fazer sua derradeira travessia. Costa-Gavras nos convida a refletir sobre como queremos partir, sobre o que seria uma bela morte, e termina com uma lufada de esperança e otimismo — a última frase dita é "Vamos falar do futuro?". Mas, ao mesmo tempo, o filme nos lembra: por mais que estejamos preparados para receber a notícia, seja como paciente, seja como familiar, por mais que estejamos preparados para ouvir essa sentença, nunca estaremos preparados.
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