
Estreia nesta sexta-feira (15) no Apple TV+ o nono e último episódio de Cortina de Fumaça (Smoke, 2025), forte candidata ao posto de melhor série policial do ano.
Uma rival à altura é Dept. Q, da Netflix, que deixa o espectador com vontade — ou necessidade — de assistir a seus nove capítulos um atrás do outro. Se não oferece um quebra-cabeças tão intrincado e intrigante, Cortina de Fumaça se mostra mais imprevisível, traz personagens mais complexos e investiga um tipo de crime mais raro nas produções do gênero: os incêndios criminosos.
As perguntas levantadas despertam mais curiosidade do que o habitual: quais são as motivações dos incendiários? Qual é o seu modus operandi? O que o fogo traz de recompensa?
Há um outro trunfo de Cortina de Fumaça, que tem a ver com o seu modo de distribuição. Inserido na cadeia de séries fast-food da Netflix, Dept. Q teve todos os seus episódios lançados de uma só vez, o que induz ao consumo imediato. A voracidade prejudica a digestão: não refletimos sobre o que estamos vendo. A sensação de saciedade acaba rapidamente também: daqui a alguns dias já nem lembramos mais do prato, ao contrário do que acontece com os seriados exibidos à moda antiga — o cardápio renovado a cada semana atiça nosso apetite.
Ao lançar um capítulo de Cortina de Fumaça por semana, o Apple TV+ dá mais vida útil à série: cada episódio é capaz de gerar repercussão e de engajar a conversa com os amigos. A plataforma de streaming convida o espectador a lidar com a frustração — o que é sempre saudável. Estimula o público a especular, a exercitar a fricção entre raciocínio e sentimento. E proporciona o prazer da expectativa: que gostoso passarmos sete dias saboreando os ingredientes misteriosos ou picantes que foram servidos, que delícia ficar uma semana inteira imaginando o que vai sair, na próxima vez, daquela panela cozinhada em fogo altíssimo ao final de cada capítulo.
A trama de "Cortina de Fumaça" (sem spoilers)

Com música composta por Thom Yorke, da banda Radiohead, nos créditos de abertura, Cortina de Fumaça é inspirada no podcast Firebug, sobre os crimes do incendiário John Leonard Orr, que atemorizou o sul da Califórnia, nos Estados Unidos, durante quase 10 anos (1984 a 1991).
A série foi criada e escrita por Dennis Lehane, autor de romances policiais que costumam ser adaptados para o cinema. Seus livros deram origem a filmes como Sobre Meninos e Lobos (2003), de Clint Eastwood, Medo da Verdade (2007) e A Lei da Noite (2016), ambos de Ben Affleck, Ilha do Medo (2010), de Martin Scorsese, e A Entrega (2014), de Michaël R. Roskam.
Em Cortina de Fumaça, Lehane repete a parceria com os atores Taron Egerton e Greg Kinnear — juntos, eles fizeram a ótima minissérie Black Bird (2022), também baseada em uma história real e também disponível no Apple TV+.

Joe Chappelle e Jim McKay dividem-se na direção da trama que se passa na fictícia cidade chamada Umberland, localizada em um Estado inventado, Orrington. Egerton interpreta Dave Gudsen, um investigador de incêndios criminosos que tem pretensões literárias e que atua sob o comando do chefe do Corpo de Bombeiros, Harvey Englehart (papel de Greg Kinnear).
A contragosto, Gudsen terá de formar uma dupla com a detetive Michelle Calderone (Jurnee Smollett), uma policial que carrega um pesadíssimo trauma familiar relacionado justamente a fogo. O objetivo é deter não apenas um, mas dois incendiários que vêm agindo na região, ora causando apenas danos materiais e prejuízos financeiros, ora provocando mortos e feridos.

Não cabe aqui avançar muito mais na sinopse (a propósito, ainda não sei o desfecho, pode ser até que haja uma segunda temporada), porque parte significativa do encanto de Cortina de Fumaça está na maneira como a história vai se desdobrando — o que inclui segredos, suspeitas e reviravoltas — e introduzindo novos personagens. Alguns atores coadjuvantes já são bem conhecidos, como John Leguizamo, Anna Chlumsky e Rafe Spall, mas um nome exótico se tornará inesquecível: Ntare Guma Mbaho Mwine (que, verdade seja dita, já havia aparecido na série O Poder e a Lei e está no elenco de Dexter: Ressurreição).
Filho de pais ugandenses e nascido nos EUA em 1967, Mwine assombra na pele de Freddy Fasano, chapista de um restaurante de frango frito. O desenho do personagem e o desempenho do ator tornam Freddy um tipo com o qual não sabemos como lidar: ele aterroriza ao mesmo tempo em que comove. Acabamos hipnotizados por cada olhar, cada expressão do seu rosto, cada movimento corporal, cada frase sussurrada — ora tristíssima, ora iludida, ora enraivecida.
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