
O filme que a RBS TV exibe na Tela Quente desta segunda-feira (28), às 22h25min, é raro no Universo Cinematográfico Marvel (MCU, na sigla em inglês).
Dos 37 longas-metragens produzidos até agora, Viúva Negra (Black Widow, 2021) é o único que foi lançado simultaneamente nos cinemas e no streaming — por causa da pandemia de covid-19, que fechou salas de exibição e afugentou o público.
Além de ser um dos pouquíssimos com efetivo protagonismo feminino — duplo no caso, com Scarlett Johansson e Florence Pugh —, é um dos quatro únicos títulos assinados por uma diretora, a australiana Cate Shortland. Os outros são Capitã Marvel (2019), de Anna Boden e Ryan Fleck, Eternos (2021), de Chloé Zhao, e As Marvels (2023), de Nia DaCosta.
A exemplo do primeiro filme dessa lista enxuta, Viúva Negra é outra história de uma mulher que cai, mas se levanta, e que se define por si própria, não por quem ela beija ou deixa de beijar. E sua personagem principal é despida da sexualização de aparições anteriores — algumas poses da Viúva Negra se tornam inclusive alvo de deboche.
Viúva Negra também é uma rara aventura da Marvel situada no passado, embora recente — está ambientada entre os eventos dos filmes Capitão América: Guerra Civil (2016) e Vingadores: Guerra Infinita (2018). Vale dizer: saber o que o futuro reserva para a superespiã diminui a tensão pretendida nos momentos em que ela está sob perigo. O risco de morte não existe aqui.
A trama volta ainda mais no tempo para mostrar a infância da superespiã Natasha Romanoff (papel de Scarlett Johansson), menina russa criada nos Estados Unidos ao lado da irmã, Yelena (vivida na fase adulta por Florence Pugh), pelo casal de espiões Alexei (David Harbour, o Hopper do seriado Stranger Things), o Guardião Vermelho, e Melina (Rachel Weisz, ganhadora do Oscar de atriz coadjuvante por O Jardineiro Fiel).

Do alto de seu 1m62cm, Pugh impõe sua presença física, dando marretadas verbais com sua voz grave e atravessando a tela com seus grandes olhos verdes. Nascia ali a protagonista de Thunderbolts* (2025). Harbour também se destaca: Alexei é uma espécie de bonachão sanguinário, um vaidoso afetuoso.
Viúva Negra também destoa por não promover um show de superpoderes, martelos mágicos, raios de energia etc. Como filme de espionagem que se preza, há perseguições motorizadas e o combate é quase sempre corpo a corpo ou com armas de fogo e facas (talvez até espadas). Algumas brigas e alguns hematomas, a propósito, vão lembrar aquelas e aqueles de Charlize Theron em Atômica (2017), mas claro que sem a mesma brutalidade nem o mesmo derramamento de sangue.

Como filme de espiã, Viúva Negra presta homenagem ao ícone do subgênero, James Bond: Natasha aparece assistindo a 007 Contra o Foguete da Morte (1979), estrelado por Roger Moore. E, como Ethan Hunt, da franquia Missão: Impossível, e Jason Bourne, a personagem faz viagens pelo mundo: uma cidadezinha do Ohio, nos Estados Unidos, uma base aérea em Cuba, um bairro marroquino, o interior da Noruega, ruas e apartamentos de Budapeste...
Aliás, o compositor da trilha sonora, Lorne Balfe, é o mesmo da música de Missão: Impossível _ Efeito Fallout (2018). E Natasha guarda outra semelhança com Jason Bourne: treinada para ser uma assassina na temível Sala Vermelha comandada pelo general Dreykov (Ray Winstone), ela se rebelou e entrou para o time dos mocinhos.

No filme, contudo, a Viúva Negra está fugindo do governo estadunidense por causa dos acontecimentos de Guerra Civil. Ao ser atacada por um misterioso supervilão capaz de imitá-la — e, por consequência, antecipar os movimentos da heroína, o que rende duelos bacanas, bem coreografados —, Natasha acabará reencontrando a mana Yelena, que continua agindo como uma matadora de elite.
É a deixa para Viúva Negra abordar, ainda que sem muita profundidade, temas como laços e mentiras familiares, traumas e redenção, a manipulação masculina e a autonomia das mulheres — um monólogo de Dreykov sobre o "recurso natural mais abundante no planeta" tem uma gravidade surpreendente no universo Marvel.
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