
Difícil dizer qual é o filme mais genial escrito ou dirigido pelo cineasta nova-iorquino Charlie Kaufman, 66 anos, mas o posto de maior sucesso, tendo como critérios prêmios e bilheteria, pertence a Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004).
O título dirigido por Michel Gondry será exibido neste domingo (27), às 14h, na Sessão Nostalgia da Sala Paulo Amorim, na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre. Os ingressos custam apenas R$ 10.
As obras de Kaufman costumam ser desafiadoras. Propõem um passeio pelos labirintos da memória ou pelos limites entre o sonho, a ficção e a realidade; refletem sobre como o conceito de identidade é instável e sobre como, não raro, agimos como personagens; lançam um olhar surreal para coisas cotidianas; usam digressões e artificialismos para revelar o íntimo e a, digamos, verdade; pintam os relacionamentos com uma mistura inusitada de comédia romântica e terror.

Charlie Kaufman começou a carreira escrevendo episódios para séries de comédia como Get a Life (1990-1992), The Edge (1992-1993) e Ned and Stacey (1996-1997). Seu nome despontou já na estreia cinematográfica: por Quero Ser John Malkovich (1999), recebeu sua primeira indicação ao Oscar, na categoria de melhor roteiro original — o diretor Spike Jonze e a atriz coadjuvante Catherine Keener também concorreram. Kaufman ganhou o Bafta, da Academia Britânica, e disputou o Globo de Ouro.
Na trama, um titereiro (John Cusack) descobre no escritório onde trabalha um portal que dá acesso ao cérebro do ator John Malkovich (vivido por ele próprio). "Ao propor o literal mergulho dentro da cabeça de outra pessoa", escreveu em Zero Hora o crítico Roger Lerina, "o filme levanta dezenas de questionamentos existenciais, que se entrechocam com piadas e situações bizarras, numa alternância curiosa entre introspecção e besteirol. O que é a individualidade? Onde termina o eu e começa a máscara? Por que o desejo nunca pode ser saciado?".

O roteiro seguinte foi o de A Natureza Quase Humana (2001), primeira parceria com o diretor Michel Gondry. O ator Rhys Ifans encarna Puff, sujeito nascido e criado entre os selvagens que é capturado por um cientista (Tim Robbins) interessado em domesticá-lo. Enquanto isso, a esposa do pesquisador (Patricia Arquette) — que também tem o seu lado macaco, com pelos por todo o corpo — luta para preservar a pureza e a simplicidade de Puff.
Kaufman voltou a se reunir com Jonze e voltou a competir no Oscar com Adaptação (2002). Concorreu ao prêmio de roteiro adaptado — o filme venceu na categoria de ator coadjuvante (Chris Cooper) e foi indicado na de melhor ator (Nicolas Cage) e na de atriz coadjuvante (Meryl Streep).

Em Adaptação, o personagem principal se desdobra literalmente em outro: no filme, o roteirista Charlie Kaufman (homônimo do autor da trama) tem um irmão gêmeo, Donald, ambos interpretados por Nicolas Cage. Invenção e realidade se misturam: Charlie, o da ficção, foi inspirado no bloqueio criativo que Charlie, o de verdade, sofreu ao tentar escrever um roteiro baseado no best-seller O Ladrão de Orquídeas, da jornalista Susan Orlean.
Primeiro longa-metragem dirigido por George Clooney, Confissões de uma Mente Perigosa (2002) valeu a Sam Rockwell o Urso de Prata de melhor ator no Festival de Berlim. Ele interpreta Chuck Barris (1929-2017), apresentador e produtor de TV que também teria sido um assassino a serviço da CIA. Essa cinebiografia de um personagem por si só excêntrico e incongruente é contada de maneira absolutamente não-convencional.

Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (2004) foi o ápice da trajetória de Charlie Kaufman. Ele conquistou o Oscar de melhor roteiro original, o Bafta e o prêmio do Sindicato dos Roteiristas dos EUA. O filme dirigido por Michel Gondry também foi um sucesso comercial: custou US$ 20 milhões e arrecadou US$ 73,3 milhões (contra os US$ 32,8 milhões de Adaptação).
A trama acompanha uma espécie de gincana pelos descaminhos da mente de um sujeito, Joel (Jim Carrey), que se arrepende de apagar a ex-namorada, Clementine (Kate Winslet, indicada ao Oscar de melhor atriz), de sua memória, como ela fez com ele. A ideia de deletar alguém de suas lembranças tem a ver com as fantasias típicas da ficção científica, mas, como apontou o crítico Daniel Feix em Zero Hora, serve de retrato das gerações reais de jovens obcecados pelo tempo presente que demonstram incapacidade de lidar com as dificuldades da vida adulta.

Depois de Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, Kaufman passou a dirigir ele próprio seus roteiros.
Em Sinédoque, Nova York (2008), que disputou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, o personagem de Philip Seymour Hoffman é um homem branco de meia-idade que não consegue suportar a sua realidade. Trata-se de um diretor de teatro que chegou ao fundo do poço e fica cada vez mais alienado. Então, ele cria uma peça para imitar sua vida e encontrar soluções para seus problemas verdadeiros. Quanto mais ele se dedica a esse projeto, mais fundo ele cava um buraco para si mesmo.

Codirigido por Duke Johnson, Anomalisa (2015) valeu a Kaufman um prêmio especial do júri no Festival de Veneza e sua última indicação ao Oscar, na categoria de melhor longa-metragem de animação. Neste filme em stop-motion, Michael Stone (voz de David Thewlis) é um palestrante motivacional que vive um dilema: quanto mais ele ajuda as pessoas, mais monótona e entediante sua vida se torna. Em sua cabeça, todas as pessoas parecem iguais, mas tudo muda quando ele conhece Lisa (dublada por Jennifer Jason Leigh).
Brincadeira com o nome Lisa e a palavra anomalia, o título também pode ser lido como um anagrama: "a Mona Lisa". Assim escreveu Roger Lerina: "Uma Mona Lisa é justamente o que Michael procura em vão — uma eterna busca, inevitavelmente fadada ao fracasso e compartilhada por todos nós, por alguém que nos salve dessa vida ordinária".

Em Estou Pensando em Acabar com Tudo (2020), que é baseado em um romance homônimo escrito pelo canadense Iain Reid, Lucy (Jessie Buckley) está viajando de carro com o namorado, Jake (Jesse Plemons), para uma zona rural coberta de neve, onde conhecerá os pais dele (encarnados por David Thewlis e Toni Collette). A viagem verborrágica convida o público a desvendar um quebra-cabeças sobre memórias reinventadas, afetos partidos e relacionamentos abusivos.
O mais recente trabalho de Charlie Kaufman foi a adaptação do livro infantil Orion e o Escuro, de Emma Yarlett, para o filme de animação dirigido por Sean Charmatz e lançado em 2024.
Segundo o site IMDb, atualmente Kaufman está na pré-produção de Later the War, filme estrelado por Eddie Redmayne, Tessa Thompson e Patsy Ferran classificado como uma comédia sobre um fabricante de sonhos que começa a criar pesadelos para as pessoas.
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