
Quantos filmes estão disponíveis na Netflix? Segundo dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine), a plataforma de streaming tem cerca de 4 mil títulos no seu catálogo.
Mas quantos desses valem mesmo o seu clique: mil, centenas, dezenas?
Bem, não faltam maravilhas no menu, como Taxi Driver (1976), Scarface (1983), Fogo Contra Fogo (1995), A Viagem de Chihiro (2001), Edifício Master (2002), Aftersun (2022), Nada de Novo no Front (2022) e RRR: Revolta, Rebelião e Revolução (2022).
Mas a ideia desta lista aqui é chamar a sua atenção para filmes que talvez não sejam tão conhecidos, que talvez tenham ficado fora do seu radar. Os quatro critérios de escolha foram:
- Não ter sido sucesso de bilheteria quando exibido nos cinemas — nem fenômeno de audiência na própria Netflix, o que eliminou, por exemplo, Joias Brutas (2018), O Poço (2019) e Crimes de Família (2020);
- Não ter concorrido ao Oscar, muito menos vencido, como Druk: Mais uma Rodada (2020) e o já citado Nada de Novo no Front, premiados na categoria de melhor filme internacional, nem ter representado o Brasil na briga por uma vaga, o que tirou da seleção O Ano em que meus Pais Saíram de Férias (2006), A Vida Invisível (2019) e Retratos Fantasmas (2023);
- Não ser o que chamamos de clássico, ou seja: estão fora todos os filmes do século 20, o que, infelizmente, excluiu a animação japonesa Túmulo dos Vagalumes (1988), do Studio Ghibli, e o drama argentino Cavalos Selvagens (1992);
- De preferência, não ter nomes famosos na direção ou no elenco (há uma ou outra exceção, até porque fama é algo mais subjetivo).
Dá para dar uma volta ao mundo: Brasil, Argentina, Chile, México, Estados Unidos, Canadá, Espanha, Escócia, França, Itália, Polônia, África do Sul, Senegal, Líbano, Irã, Índia, Coreia do Sul, Japão, Tailândia e Vietnã são alguns dos países visitados.
55 filmes que são tesouros escondidos na Netflix
A ordem dos filmes é apenas cronológica. Clique nos links se quiser saber mais. E te convido a responder na caixa de comentários: quantos você já viu?
1) A Família Rodante (2004)

De Pablo Trapero. A comédia dramática é baseada em experiências autobiográficas do diretor argentino e tem como personagens 12 pessoas de uma família que viaja pela Argentina a bordo de um velho trailer.
A pivô da grande aventura é a matriarca Emilia (Graciana Chironi), convidada para ser madrinha em um casamento na sua cidade natal, na fronteira com o Brasil. A estrada e a convivência serão cheias de tropeços, até o fim do caminho, onde há, na verdade, um recomeço: outra família dá a partida em sua história.
2) Elena (2012)

De Petra Costa. É o inventário poético de um luto prolongado. Ao recriar os passos da sua irmã mais velha, Elena, e tentar compreender os caminhos, desvios e o atalho por ela tomados, a diretora mineira revive uma dor que trazia entranhada desde os sete anos.
Em Nova York, onde a mana sonhava em seguir carreira de atriz, a documentarista percorre ruas e lugares guiada pelos relatos em fitas cassete enviados à família. O passado ressurge em filmes e vídeos caseiros que atestam a amorosa relação entre as duas irmãs. Cenas dramatizadas, como as de Petra e sua mãe boiando sobre a água, sublinham elementos elegíacos e etéreos.
3) Casa Grande (2014)

De Fellipe Barbosa. Pelo olhar de um adolescente de 17 anos (Thales Cavalcanti, cativante), acompanhamos a derrocada de uma família burguesa do Rio de Janeiro (Marcello Novaes tem belo desempenho como o pai).
No meio do caminho, o diretor aborda a desigualdade social e a política de cotas, a hipocrisia das elites e sua relação com os empregados domésticos (o título faz referência explícita ao livro Casa Grande & Senzala, lançado em 1933 pelo sociólogo Gilberto Freyre), o machismo estrutural e os anseios sexuais da faixa etária.
4) O Patrão: Radiografia de um Crime (2014)

De Sebastián Schindel. Baseado em uma história real, o filme ambientado em Buenos Aires traz Joaquín Furriel no papel do humilde e analfabeto Hermógenes, que assassinou Latuada (Luis Ziembrowski), dono do açougue do qual era, simultaneamente, gerente e escravizado.
Enquanto o advogado Di Giovanni (Guillermo Pfening) vai se inteirando do caso que pegou apenas para uma troca de favores com a assessora do juiz, conhecemos o cotidiano degradante de Hermógenes — que sequer tinha direito a sua identidade: o patrão resolveu chamá-lo de Santiago, como a cidadezinha de onde veio. De quebra, aprendemos sobre os legítimos podres do comércio de carnes, com seus truques sujos para repassar mercadoria estragada.
5) O Predestinado (2014)

De Michael Spierig e Peter Spierig. O filme começa com uma promissora narração em off, dessas que remetem ao cinema noir e que, de cara, estabelecem um dilema moral: "E se eu pudesse colocá-lo na sua frente? O homem que arruinou sua vida. Se eu pudesse garantir que você escaparia impune, você o mataria?". O personagem de Ethan Hawke (eu disse que haveria exceções quanto a nomes famosos) precisa voltar no tempo para impedir que um terrorista detone uma bomba em 1975, matando 10 mil pessoas em Nova York.
Os diretores não centram foco em cenas de ação ou efeitos visuais: o grande lance é o quebra-cabeças a ser montado. Este é um dos mais intrigantes títulos sobre as viagens temporais, seus paradoxos e suas consequências, as interligações entre passado, presente e futuro, os desvios possíveis e a inevitabilidade de alguns destinos. Você vai querer ver de novo. Talvez você precise ver de novo.
6) Invasão Zumbi (2016)

De Yeon Sang-ho. Adoro filmes de terror que conseguem provocar tanto medo quanto reflexão, que oferecem uma tensão desgraçada ao mesmo tempo em que permitem uma leitura sociopolítica.
Os agressivos mortos-vivos que se multiplicam em um trem para Busan, na Coreia do Sul, nos lembram que, a qualquer momento, as circunstâncias (políticas, econômicas, sanitárias etc) podem tornar irreconhecíveis as pessoas ao nosso redor. Estão sempre em xeque os laços sociais e afetivos que nos dão identidade e segurança.
7) À Sombra do Medo (2016)

De Babak Anvari. A história se passa quase toda em um edifício da Teerã da década de 1980, em meio à guerra entre o Irã e o Iraque. As personagens principais são uma mãe e sua filha pequena, Shideh (interpretada por Narges Rashidi) e Dorsa (Avin Manshadi). Quando a cidade começa a ser bombardeada, as duas também passam a ser perturbadas por eventos sobrenaturais.
De forma fluida e envolvente, Anvari consegue mesclar o terror de casa mal-assombrada com o drama político, mantendo o espectador tenso até a última cena.
8) Mom (2017)

De Ravi Udyawar. O pano de fundo deste filme de vingança é a cultura do estupro. A vítima é uma garota mais jovem, Arya (Sajal Ali), que, em uma festa, recusa primeiro a atenção de um colega de aula, Mohit, e, depois, a de um playboy marombado, Charles. Na companhia de mais dois homens e a bordo de uma SUV, eles raptam Arya, espancam-na, cometem violência sexual e depois a jogam na rua.
Os quatro agressores acabam presos, mas acabam inocentados. Quem resolve fazer justiça com as próprias mãos é sua madrasta, Devki, o 300º e último papel de Sridevi, considerada a primeira superestrela do cinema indiano, morta em 2018, aos 54 anos, vítima de afogamento acidental na banheira de um hotel.
9) Rastros de um Sequestro (2017)

De Jang Hang-jun. Quanto menos você souber, melhor. O que dá para dizer sem ser estraga-prazeres é que começa com a mudança de uma família — pai, mãe e dois filhos de 20 e poucos anos — para uma casa nova. Jin-seok (Kang Ha-neul), o caçula, é quem nos guia — e juntos tomaremos um susto que tão cedo não esqueceremos.
Em uma noite chuvosa, ele vê seu irmão, Yoo-seok (Kim Mu-yeol), ser sequestrado. Dias depois, Yoo-seok reaparece. Mas há algo de estranho no seu comportamento. Se parece que já contei muito, não se preocupe. Muita água ainda vai rolar neste filme que remete a Parasita (2019) em uma série de aspectos, como a fotografia e a ambientação, o tom trágico na transição dos gêneros e o peso avassalador das escolhas erradas.
10) Veronica (2017)

De Paco Plaza. Na Madri do início dos anos 1990, adolescente (Sandra Escacena) sobrecarregada de tarefas domésticas porque a mãe trabalha em um restaurante — é ela quem de fato cuida dos três irmãos mais novos, as gêmeas Irene e Lucia e o caçula Antoñito — compra um tabuleiro ouija para tentar contatar o pai falecido. Mas o episódio acaba desencadeando uma espiral de desgraça e danação.
Embora não economize em cenas assustadoras e jogue com as percepções do público — existe a ameaça sobrenatural? Ou são pesadelos? Ou Veronica está em surto psicótico? —, o diretor evita soluções fáceis e ainda consegue entabular uma dolorosa reflexão sobre a sempre complicada transição da adolescência para o mundo adulto.
11) Calibre (2018)

De Matt Palmer. Dois amigos de longa data partem para uma viagem de caça no interior da Escócia. Vaughn (Jack Lowden), o afável protagonista, está para ser pai e aparenta só estar fazendo esse programa em nome da amizade. Marcus (Martin McCann) é festeiro e impulsivo – na primeira noite, já arranja confusão ao paquerar uma garota local no bar frequentado pela comunidade.
Parece que veremos uma daquelas histórias em que a presença de um ou mais forasteiros gera uma turbulência na dinâmica de uma cidadezinha, mas o diretor e roteirista tem mais a nos oferecer. A soma da inexperiência com armas de Vaughn com a impetuosidade de Marcus vai colocá-los em uma terrível enrascada. É como se, na floresta onde foram caçar veados, entrassem em uma areia movediça do campo moral, dessas das quais carregamos marcas para o resto da vida.
12) Contornando a Morte (2018)

De Pailin Wedel. Trabalhando em um microcosmo, a diretora reflete sobre questões gigantescas. O drama de uma família tailandesa nos convida a pensar sobre ciência e fé, corpo e espírito, amor e o que muitos chamariam de loucura, sobre como lidamos ou não com a perda, com o luto.
O filme se concentra nos esforços do casal de cientistas Sahatorn e Nareerat Naovaratpong para dar sobrevida à filha caçula, Matheryn, também chamada de Einz (amor, em japonês). Aos dois anos, ela foi diagnosticada com um tipo raro de câncer cerebral. Pais de um adolescente batizado como Matrix, Sahatorn e a esposa decidiram, em 2015, tornar Einz a mais jovem pessoa a ser submetida à criogenia, na esperança de que, no futuro, haja uma forma de curar e ressuscitar.
13) Sementes Podres (2018)

De Kheiron. Esta comédia dramática é escrita, dirigida e protagonizada pelo artista franco-iraniano Kheiron. Seu papel é o do trapaceiro Wael, que vive aplicando golpes na companhia de Monique (a sempre charmosa Catherine Deneuve).
Quando um desses golpes dá errado, Wael acaba incumbido de ser o mentor de adolescentes à beira de serem expulsos da escola. Entre risos e lágrimas, todos aprendem algo sobre si próprios.
14) Três Estranhos Idênticos (2018)

De Tim Wardle. A sinopse deste documentário é por si só fascinante: separados na maternidade, em 1961, trigêmeos se reencontram 19 anos depois.
Parece um conto de fadas — e é, pois a história dos carismáticos irmãos estadunidenses David Kellman, Edward Galland e Robert Shafran também está marcada pelo sinistro, pelo monstruoso, pelo macabro.
15) Atlantique (2019)

De Mati Diop. Ambientado no Senegal, mistura gêneros como romance e terror para contar a história de Ada (Mame Bineta Sane), jovem prometida ao rico Omar (Babacar Sylla), mas apaixonada pelo pobre Souleiman (Ibrahima Traoré), operário que sonha em migrar para a Europa.
O mar é um personagem tão importante quanto a forte protagonista de Atlantique. Suas ondas podem prenunciar o infortúnio ou trazer a esperança; sua imensidão simboliza o tamanho de um amor ou a extensão de um sistema opressor para com as mulheres; sua cor inspira a fotografia, com azuis e verdes predominando; seus sons acalmam, hipnotizam, seduzem.
16) Cascavel (2019)

De Zak Hilditch. Para salvar uma vida, você tiraria outra vida? Existe uma régua para medir se alguém merece morrer? Você teria a coragem — ou seria a covardia? Tomada essa decisão, como continuar vivendo com esse peso?
Esses são alguns dos dilemas propostos neste suspense sobre uma mãe solteira, Katrina (Carmen Ejogo), que está viajando de carro com a filha pequena, Clara, do Arizona para o Oklahoma, nos EUA. São mais de 14 horas de jornada. Por isso, enquanto atravessa o Texas, Katrina, diante de um engarrafamento, resolve pegar um desvio. Como é típico ao gênero, há um preço a pagar: o pneu fura no meio do deserto. Pior: Clara sai para brincar e acaba mordida por uma cascavel.
17) Diga Quem Sou (2019)

De Ed Perkins. Os ingleses Alex e Marcus Lewis são gêmeos univitelinos. Hoje cinquentões, não espelham mais um ao outro como acontecia na infância e na juventude. Mas a diferença fundamental não é física: aos 18 anos, Alex sofreu um acidente de moto e ficou amnésico. Não lembrava do pai nem da mãe, não sabia que tinha uma namorada, desaprendeu até a amarrar os sapatos. Só reconhecia o irmão. Marcus, então, passou a contar para ele sobre a família e sobre seu passado. Ou não.
Esse é um resumo sem spoilers do documentário que é, ao mesmo tempo, fascinante e revoltante. O filme mostra, na teoria e na prática, como as memórias são uma construção permanente, um mecanismo complexo e algo mágico, um labirinto em que podemos tentar esquecer episódios traumáticos.
18) Fúria Feminina (2019)

De Lê Van Kiet. No filme de ação vietnamita, Veronica Ngo interpreta Hai Phuong, uma cobradora de dívidas. Nesse trabalho, que é mal visto na cidadezinha onde mora, Phuong usa de frieza e força bruta. Ela é temida, mas não respeitada. E também perde pontos na reputação por ser mãe solteira de uma menina, May. Quando a guria é sequestrada (um problema real no Sudeste Asiático), a mãe fará de tudo para resgatá-la.
A narrativa emula a franquia Busca Implacável, a direção de fotografia trafega entre a exploração turística das belezas naturais do país e um olhar que perscruta suas mazelas, e os diálogos chegam a ser dispensáveis. Mas não faltam atrativos: uma sequência de artes marciais emprega frutas como armas! E a obstinação contagiante da personagem de Ngo faz jus à história de caçador que um personagem conta: não se mexe com tigresa que tenha cria.
19) M-8: Quando a Morte Socorre a Vida (2019)

De Jeferson De. Maurício (Juan Paiva) é o único negro na turma de Medicina de uma faculdade do Rio. Na aula de anatomia, ele fica intrigado pelo fato de todos os corpos serem de pessoas negras. Tem mais a ver com os mortos do que com os vivos, reflete o filho de uma auxiliar de enfermagem.
A partir de então, o protagonista passa a ter alucinações a respeito de um dos cadáveres, o M8 do título. O jovem não vai sossegar até encontrar a identidade daquele homem, como não sossegam as mães negras enquanto não encontram os corpos de seus filhos, tombados pela violência do tráfico ou da polícia.
20) The Perfection (2019)

De Richard Shepard. Charlotte (Allison Williams), uma jovem que era um prodígio do violoncelo, teve de abandonar a música quando sua mãe adoeceu. Anos depois, ela resolve procurar seu antigo mentor (Steven Weber), que agora tem uma nova pupila (Logan Browning).
A partir daí, o filme toma rumos inesperados, por vezes bizarros e violentos. Formalmente, The Perfection também fascina: o diretor aperta a tecla rewind para mostrar que as coisas não aconteceram do jeito que tínhamos entendido. Com o perdão do lugar-comum, em alguns momentos isso é de cair o queixo.
21) Viver Duas Vezes (2019)

De Maria Ripoll. Este filme eu já vi duas vezes. E chorei nas duas vezes.
Na trama desta comédia dramática, Emilio embarca com sua filha e sua neta em uma louca jornada pela Espanha para encontrar a sua paixão da juventude antes que ele sucumba ao Alzheimer. Mais uma atuação memorável de Oscar Martínez.
22) 18 Presentes (2020)

De Franco Amato. Grávida e com câncer terminal, futura mãe (Vittoria Puccini) deixa 18 presentes emocionantes para a filha que vai nascer. Um para cada aniversário, até que fique adulta (na pele de Benedetta Porcarola).
A sinopse do filme italiano promete um dramalhão. Saber que o roteiro é baseado em uma história real admite supor que os fatos serão edulcorados em nome de uma chuva de lágrimas. Mas, assim como um filme de terror que evita os sustos fáceis, 18 Presentes consegue se desviar da pieguice. E o diretor autoriza-se a embaralhar um pouco a narrativa, a investir na carpintaria cinematográfica, a fazer com que as imagens falem mais alto do que possíveis declarações embebidas no sentimentalismo barato.
23) O Declínio (2020)

De Patrice Laliberté. Todo encasacado e munido por uma lanterna, um pai acorda a filha pequena no meio da madrugada. Falando baixinho na penumbra da casa de dois andares, ele pergunta a ela sobre o cantil, as meias extras e o kit de sobrevivência. "E o Raphael?", acrescenta. Não temos tempo de saber quem é Raphael. Com a esposa na direção, o carro da família parte em alta velocidade. Ao fundo, ouve-se uma sirene, da polícia ou de ambulância. À beira de um rio, o veículo estaciona, e então o sujeito, com o celular na mão, diz: "Dezessete minutos e 53 segundos até sair da ilha. Dois minutos a menos do que na última vez!".
É aí que começamos a entender a proposta de O Declínio, filme canadense que antecipou dilemas impostos à sociedade pela pandemia de covid-19.
24) O Discípulo (2020)

De Chaitanya Tamhane. Ganhador do prêmio de roteiro no Festival de Veneza, é sobre o processo de autoaperfeiçoamento de um jovem cantor de ragas, elemento central e transcendental na música clássica indiana. O protagonista encarnado por Aditya Modak renunciou ao trabalho e postergou a vida amorosa para seguir as lições do pai já falecido e de uma mítica maestrina, Maai.
Mas o que fazer quando nossos sonhos esbarram em nossas limitações? A técnica pode compensar a falta de talento? Ao herdar ou assumir aspirações paternas e maternas, não estamos nos condenando a comparações e sufocando vocações? É possível fazer aquilo de que se gosta e, mais do que isso, ser reconhecido e recompensado?
25) O que Ficou para Trás (2020)

De Remi Weekes. O diretor e roteirista inglês Remi Weekes fez um filme de casa mal-assombrada, de fantasmas e de sustos, mas usa esses elementos clássicos para retratar um drama real e atual. É o dos refugiados, vindos de países em guerra ou onde sofrem perseguição política, religiosa, étnica etc.
Em cena, eles são encarnados pelos personagens de Sope Dirisu e Wunmi Mosaku, que escaparam do Sudão do Sul para experienciar o terror num subúrbio da Inglaterra.
26) Laço Materno (2020)

De Tatsushi Omori. Uma vez, escrevi que não pretendia voltar a ver este filme japonês, por causa de sua tristeza avassaladora e impregnante, que crava no nosso íntimo. Mas acho que encararia de novo a via-crúcis vivida por Shuhei (interpretado por Sho Gunji na infância e por Daiken Okudaira na adolescência), um menino que mora com a mãe, Akiko (Masami Nagasawa, em desempenho ao mesmo tempo cativante e revoltante).
Já nas cenas iniciais, percebemos a toxicidade daquela relação. Sim, Akiko é capaz de lamber o joelho esfolado do filho, mas logo fica claro que ela só tem olhos para o próprio prazer. O diretor aperta e machuca o coração do espectador sem precisar usar necessariamente as mãos — a violência é sobretudo psicológica. O laço materno é como a corda no pescoço do enforcado.
27) As Mortes de Dick Johnson (2020)

De Kirsten Johnson. Documentarista estadunidense, a filha do octogenário viúvo Dick Johnson resolveu homenageá-lo em vida, antes que a morte levasse seu corpo ou, no mínimo, sua memória ficasse gravemente comprometida pelo Alzheimer.
Neste filme bonito e estranho sobre um pai que, mais cedo ou mais tarde, vai morrer, a diretora fez também uma homenagem ao cinema, capaz de eternizar as coisas e as pessoas, e capaz também de matar sem matar. Você entenderá ao assistir a este documentário feito com muito amor e, surpreendentemente, humor.
28) Mosul (2020)

De Matthew Michael Carnahan. É um filme de guerra hollywoodiano incomum. O conflito contra o Estado Islâmico, no Oriente Médio, é visto pela perspectiva dos iraquianos. Visto e falado: recrutados sobretudo na Ásia e na África, os atores travam combates e diálogos exclusivamente no idioma árabe. Em uma dessas conversas, até se critica o modus operandi das forças militares dos EUA, interessadas na destruição dos alvos, mas não na reconstrução de um país.
Mosul é baseado em reportagem da revista The New Yorker sobre um batalhão de elite do Iraque, a Swat de Nínive. O ator francês de origem árabe Adam Bessa encarna Kawa, um policial acuado, com outro colega, por soldados do EI. Acabam salvos pela equipe do major Jassem (o iraquiano Suhail Dabbach), que inclui Waleed (o jordaniano Is'haq Elias), sempre com um cigarro na boca. Kawa junta-se ao pelotão, apesar de provocar desconfiança. Imperam a imprevisibilidade e, por consequência, o nervosismo.
29) Ninguém Sabe que Estou Aqui (2020)

De Gaspar Antillo. O ator Jorge Garcia, o Hurley da série Lost, interpreta Memo, sujeito que é praticamente um ermitão, isolado em algum lugar ao sul do Chile frio e desprovido de luxos. Arredio, mal se comunica com o tio Braulio (Luis Gnecco), a quem auxilia no manejo e na tosquia do rebanho ovino.
Memo leva vida dupla. Às escondidas, embrenha-se na floresta, levando seus fones de ouvido e uma capa coberta por lantejoulas. As mesmas mãos que se sujam com o sangue das ovelhas revelam unhas pintadas de azul. Memo é um sonhador, que teve de sufocar mas nunca esqueceu o brilhante futuro que sua voz prometia. Memo é um solitário, mas que anseia pelo calor de uma plateia que imagina quando está se apresentando no meio das árvores.
30) Rede de Ódio (2020)

De Jan Komasa. O diretor polonês aborda temas como temas como haters, milícias digitais, fake news e a influência das mídias sociais no crescimento do extremismo político.
Na trama, um jovem interpretado de forma assombrosa por Maciej Musialowski vai trabalhar em uma empresa de monitoramento das redes sociais, fachada para um escritório de difamação, de onde ataca primeiro uma influenciadora digital da área de fitness e depois um candidato a prefeito de Varsóvia.
31) Tempo de Caça (2020)

De Yoon Sung-hyun. O filme se passa em um futuro próximo, em que a crise financeira derrubou a Coreia do Sul: os cenários são zonas industriais decadentes, favelas e ocupações. O protagonista, Jun Seok (Lee Je-hoon), é um jovem que, após três anos de prisão, reencontra os amigos Ki Hoon (Choi Woo-shik, o filho pobre de Parasita) e Jang Ho (Ahn Jae-hong) e elabora um plano: assaltar um cassino clandestino e fugirem todos para um local tipo o Havaí, mais caloroso e colorido. Mas eles acabam entrando na mira de um assassino impiedoso (Park Hae-soo) — que pode ser encarado como a consciência de Jun Seok de que o sistema não permite ascensão.
A estética e o ritmo narrativo são personagens à parte. Em uma cenografia inóspita, com um jogo de luzes que traduz o "sentimento" da cena e uma sonorização opressiva (cada toque no corpo se faz ouvir), a trama, em seu início, é conduzida lentamente. Há um propósito: os laços entre os "ladrões por sobrevivência" precisam estar bem constituídos, porque é isso o que pode sustentá-los quando a noite cair sobre eles.
32) Você nem Imagina (2020)

De Alice Wu. Chinesa que mora em uma cidadezinha nos EUA, Ellie Chu (Leah Lewis) é apaixonada por Aster Flores (Alexxis Lemire), uma garota que namora, mas meio que por inércia, o cara mais popular do colégio. Inteligente e habilidosa com as palavras, Ellie é contratada por um colega, Paul Munsky (Daniel Diemer), para escrever uma carta de amor justamente para Aster.
Apesar da sinopse sugerir o contrário, esta comédia dramática adolescente foge dos lugares-comuns do gênero.
33) Bo Burnham: Inside (2021)

De Bo Burnham. É um filme? É um especial de comédia? É um musical? É um monólogo? É um registro documental sobre a vida durante a pandemia? É um relato inovador sobre uma crise existencial? É uma reflexão sobre como as redes sociais podem aproximar e estimular o conhecimento, mas também fomentar o ódio e valorizar a futilidade?
Parafraseando uma das canções do comediante estadunidense, que filmou e editou tudo sozinho em sua casa, durante o isolamento imposto pela covid-19, Inside é um pouco de tudo o tempo todo. Legou pelo menos um clássico: White Woman's Instagram.
34) No Caminho da Cura (2021)

De Robert Greene. É um documentário sobre seis homens que, na infância, foram abusados sexualmente por padres. Vale enfatizar o plural: os depoimentos evidenciam que não havia apenas uma maçã podre na Igreja Católica dos Estados Unidos, mas uma rede de pedofilia. Em jogos de beisebol ou passeios em lagos, os clérigos exibiam uns aos outros os meninos que estupravam.
No presente, enquanto lutam por uma Justiça bastante tardia — quando não ausente —, os seis sobreviventes são convidados pelo diretor e por uma dramaterapeuta para criar e protagonizar pequenos filmes sobre seus próprios traumas. É o processo ao qual se refere o título original de No Caminho da Cura, Procession.
35) O Destino de Haffmann (2021)

De Fred Cavayé. É um pequeno grande filme sobre como os homens de bem podem se corromper, especialmente sob certas circunstâncias. No caso, a ocupação nazista em Paris durante a Segunda Guerra Mundial. Mas poderia ser uma pandemia, uma catástrofe natural, um ambiente de polarização política...
A trama ambientada em 1941 se passa quase toda dentro do mesmo cenário (ou pelo menos dentro da mesma casa) e não tem mais do que cinco ou seis atores com falas. François Mercier (interpretado por Gilles Lellouche) é um homem comum que sonha em ter um filho com a esposa, Blanche (Sara Giraudeau). Ele trabalha para um talentoso joalheiro, o Sr. Haffmann (Daniel Auteuil) — que é judeu. O recrudescimento da perseguição alemã força a partida da família de Haffmann e um rearranjo das relações de poder na joalheria.
36) Identidade (2021)

De Rebecca Hall. Baseado em romance de Nella Larsen, o filme é ambientado na Nova York dos anos 1920. Lá, se reencontram Irene (Tessa Thompson), que se identifica como negra e está casada com um médico negro (que sonha em se mudar para o Brasil, um país onde, segundo ele, não há racismo), e Clare (Ruth Negga), que se passa por branca e tem um marido rico e preconceituoso.
Amparada pela belíssima fotografia em preto e branco e por uma melancólica trilha sonora, a atriz e diretora Rebecca Hall conduz a trama de Identidade com uma delicadeza que não esconde as turbulências.
37) A Noite do Fogo (2021)

De Tatiana Huezo. A cineasta observa o cotidiano de um povoado do México violentado pelo narcotráfico pelos olhos de três meninas: Ana (vivida por Ana Cristina Ordóñez González na infância e por Marya Membreño na adolescência), Maria (Blanca Itzel Pérez/Giselle Barrera Sánchez) e Paula (Camila Gaal/Alejandra Camacho).
O perigo e a morte estão sempre nas redondezas, o silêncio e a fuga são aliados vitais, o medo dita os passos — sobretudo os das mães e os das filhas, como enfatiza o título brasileiro do romance em que A Noite do Fogo se baseia: Reze pelas Mulheres Roubadas.
38) Passageiro Acidental (2021)

De Joen Penna. Se você curte filmes que nos jogam contra a parede e perguntam "o que você faria?", convido a tomar assento no voo dirigido por este brasileiro radicado nos EUA.
Toni Collette, Daniel Dae Kim e Anna Kendrick interpretam três astronautas que descobrem um intruso em meio a uma viagem de dois anos rumo a Marte. Trata-se de um problema muito sério: não há oxigênio para quatro pessoas a bordo.
39) O Tigre Branco (2021)

De Ramin Bahrani. Este filme ambientado na Índia foi indicado ao Oscar, mas apenas na categoria de melhor roteiro adaptado (baseado no romance homônimo de Aravind Adiga), então vou abrir uma exceção nas regras.
O Tigre Branco retrata o o abismo profundo entre os ricos e os pobres — e o sistema de castas indiano torna ainda mais cruel e desesperadora a desigualdade social. Na trama, o jovem Balram (em uma interpretação extraordinária de Adarsh Gourav vê uma rara chance de ascensão e a agarra com todos os dentes. E sem pudores.
40) Boa Sorte, Leo Grande (2022)

De Sophie Hyde. Nancy (papel de Emma Thompson) é uma viúva de 55 anos que decide, uma vez na vida, ter a experiência do bom sexo. Para isso, ela contrata um profissional, Leo Grande (Daryl McCormack), com quem se encontra em um hotel de Londres.
A atriz inglesa considera o filme revolucionário: "Vamos falar a verdade, o prazer feminino nunca esteve no topo da lista de afazeres nos sistemas presentes". A diretora acrescenta: "Carregamos muita vergonha nos nossos corpos. Fomos ensinados assim. Isso influencia nossas ideias de sexualidade e de sexo e limita nossa interação com outras pessoas". Boa Sorte, Leo Grande equilibra com muita delicadeza romance, comédia, sensualidade e amargura.
41) O Desconhecido (2022)

De Thomas M. Wright. Estrelado pelos ótimos Joel Edgerton e Sean Harris, este policial é baseado em uma história real ocorrida na Austrália, mas não vou falar sobre a trama. Ou melhor: não se falará quase nada, pois quanto menos soubermos, melhor.
Não é que o filme seja uma montanha-russa repleta de reviravoltas. Antes pelo contrário: O Desconhecido é como um quebra-cabeças do qual a gente consegue intuir qual vai ser o quadro final, mas que é montado com muita paciência pelo diretor. Com paciência e com engenhosidade: Wright embaralha um pouco a cronologia dos fatos, mistura imagem e som de maneira não muito convencional, corta de um personagem para outro sem avisar. A ideia é construir um suspense atmosférico e hipnotizante.
42) Emily, a Criminosa (2022)

De John Patton Ford. Mais conhecida por seus papéis cômicos, Aubrey Plaza dá um show neste filme que não é exatamente sobre uma golpista, mas sobre uma pessoa que chega a um limite na luta pela sobrevivência diante do sistema econômico que rege os EUA.
Sua personagem é uma mulher excluída do mercado de trabalho e afundada em dívidas por causa de um curso universitário que nem conseguiu. De repente, surge a possibilidade de ganhar em um dia o que levaria três meses para obter. Então, Emily começa a aplicar golpes de cartão de crédito, mas logo o que parece uma barbada se revela uma enrascada.
43) The House (2022)

De Emma De Swaef e Marc James Roels, Niki Lindroth von Bahr e Paloma Baeza. Se você curte animações sombrias e esquisitas, com um senso de humor mórbido, a dica é assistir a esta antologia britânica feita com a técnica stop-motion. Seus três episódios giram em torno da casa citada no título. São três fábulas que falam sobre cobiça, integridade, a fragilidade das aparências, a natureza destruidora do ser humano, adaptação e laços afetivos.
Na história de abertura, em 1800, Raymond (voz de Matthew Goode), um decadente pai de família, recebe, de um misterioso benfeitor, uma oferta irrecusável, a de se mudar para uma mansão — parece um típico pacto com o diabo, cheio de momentos aterradores. A segunda trama se passa nos dias de hoje e tem um rato antropomorfizado (Jarvis Cocker) reformando a tal residência para tentar vendê-la por um preço alto. Na última, com vozes de Helena Bonham Carter, Paul Kaye e Will Sharpe, a gata Rosa, que sonha em restaurar a propriedade, vive em atrito com o pescador Elias e a hippie Jen.
44) Perfeitos Desconhecidos (2022)

De Wissam Smarya. Trata-se de uma das muitas versões internacionais da homônima comédia dramática italiana lançada em 2016 pelo cineasta Paolo Genovese. Já houve adaptações na Alemanha, na China, na Espanha, na Grécia, na República Tcheca... Ambientado no Líbano, o filme tem no elenco Nadine Labaki e a estrela egípcia Mona Zaki.
Perfeitos Desconhecidos acompanha um grupo de sete amigos (incluindo três casais) que, durante um jantar, concorda em participar de um jogo perigoso: eles deixam os celulares desbloqueados na mesa, expondo-se ao risco de ligações e mensagens revelarem segredos, traições e quetais. O filme consegue equilibrar bem as doses de humor e de drama, fazendo um retrato do carinho e da hipocrisia que podem coexistir em um relacionamento.
45) Propriedade (2022)

De Daniel Bandeira. Em Recife, a rica estilista Teresa (Malu Galli, em ótima atuação, calcada no olhar e no físico) ainda se recupera de um episódio de violência urbana. Seu marido propõe passar uns dias na fazenda da família, para onde vão a bordo de um carro novo, todo blindado.
Chegando lá, o casal depara com uma revolta dos empregados, que trabalham sob condições análogas à escravidão e agora correm o risco de serem despejados. O único refúgio para a protagonista é o interior do veículo, onde o vidro separa dois mundos.
46) Campeões (2023)

De Bobby Farrelly. Trata-se da versão hollywoodiana da comédia espanhola Campeones (2018), sobre um auxiliar técnico de basquete (papel de Woody Harrelson) que, após bater em um carro da polícia ao dirigir embriagado, é condenado a um serviço comunitário: por 90 dias, terá de treinar um time de jogadores com deficiência intelectual.
Evidentemente, ele precisará desconstruir seus preconceitos e se reconstruir como um especialista em tática que também sabe lidar com o emocional dos seus comandados. Evidentemente, haverá idas e voltas na sua relação com a equipe. E, evidentemente, o lance característico de um atleta será crucial no clímax do filme. É uma fórmula conhecida, mas imbatível se o espectador estiver precisando apenas se sentir bem, apenas sentir um quentinho no coração.
47) Entrevista com o Demônio (2023)

De Cameron Cairnes e Colin Cairnes. Na abertura do filme ambientado nos EUA de 1977, uma reportagem televisiva de mentirinha mostra a ascensão e a queda de Jack Delroy, um fictício apresentador de talk show encarnado com assombro por David Dastmalchian. Ele luta para fazer frente à popularidade de Johnny Carson e seu The Tonight Show, ao mesmo tempo em que lida com o luto pela morte de sua esposa, Madeleine, vítima de câncer.
Para recuperar o prestígio, o apresentador aposta tudo em um especial de Halloween, que terá como ápice a entrevista com a parapsicóloga June (Laura Gordon) e sua pupila adolescente Lilly (Ingrid Torelli), uma ex-refém de culto satânico que estaria hospedando um demônio. Os diretores gêmeos australianos contam essa história como se fosse um falso documentário, apostando tudo na construção de uma atmosfera sinistra — não espere tantos sustos.
48) Fome de Sucesso (2023)

De Sittisiri Mongkolsiri. O filme tailandês serve um prato requentado e demorado (são 145 minutos de duração), mas nutritivo e bonito — se a comida daquele país asiático já é apetitosa por si só, imagine quando realçada por técnicas cinematográficas como a direção de fotografia, a câmera lenta e a montagem.
A jovem e talentosa Aoy (Chutimon Chuengcharoensukying), que cuida do restaurante de bairro de sua família, é convidada para trabalhar na equipe do prestigiado chef Paul (Nopachai Chaiyanam), que comanda sua cozinha com mão de ferro e conduz banquetes privados para generais, milionários e artistas. Será um choque não apenas entre dois mundos, mas entre dois modos de ver o ato de cozinhar: Aoy faz isso com amor, preparando pratos como o Macarrão Manhoso, e Paul, por motivos negativos.
49) Jogo Justo (2023)

De Chloe Dhomont. O longa-metragem de estreia da diretora estadunidense é muito mais do que o thriller erótico sugerido por seu cartaz. Estrelado por Phoebe Dynevor e Alden Ehrenreich, trata-se de um retrato tenso e aflitivo do conflito entre o empoderamento feminino e a fragilidade masculina nos ambientes de trabalho.
Em Jogo Justo, os dois atores interpretam os apaixonados Luke e Emily, que precisam manter às escondidas o romance e o noivado: as regras da empresa de investimentos onde trabalham não permitem que empregados se envolvam amorosamente. Quando fica vago um cargo de analista sênior, Emily ouve um rumor de que Luke será promovido, os dois chegam a comemorar e fazer planos, mas é ela que acaba escolhida pelo chefe, Campbell (Eddie Marsan, deliciosamente cínico e implacável).
50) O Mal que nos Habita (2023)

De Demián Rugna. Em um vilarejo argentino, os irmãos Pedro (em atuação magnetizante de Ezequiel Rodríguez) e Jimi (Demián Salomon) eles deparam com um embichado, um infectado, um homem aparentemente possuído por um demônio e prestes a, digamos, dar à luz.
Neste filme que tem uma das cenas mais chocantes dos últimos anos, o embichado existe em carne e osso (e gordura e pus), mas também pode ser encarado como uma visão alegórica. Pode representar, por exemplo, a omissão do Estado. E funciona como um alvo de preconceitos típicos da sociedade.
51) Reality (2023)

De Tina Satter. Hoje, Sydney Sweeney é uma das atrizes mais famosas de Hollywood, mas certamente não foi por causa deste filme que teve um lançamento restrito nos cinemas, onde fez uma bilheteria mísera (menos de US$ 1,5 milhão). Trata-se da reconstituição de uma história real — e os diálogos foram todos tirados da transcrição do interrogatório conduzido pelos agentes do FBI Taylor (Marchánt Davis) e Garrick (Josh Hamilton) no dia 3 de junho de 2017.
Sweeney encarna Reality Winner, uma veterana da Força Aérea dos EUA e ex-tradutora da Agência de Segurança Nacional que trabalhava como funcionária terceirizada do governo federal. Ao voltar do supermercado, ela é abordada pelos policiais, que explicam ter um mandado para revistar sua casa e seus pertences. Reality é suspeita de vazar informações confidenciais. O filme é hábil em construir tensão sem recorrer a pirotecnicas, procurando o máximo de fidelidade aos fatos. Ao mesmo tempo, deixa somente com o espectador a tarefa de se posicionar sobre a intervenção estatal na atitude de cidadãos e a política estadunidense de considerar divergências como terrorismo doméstico.
52) De Tirar o Fôlego (2023)

De Laura McGann. É um documentário que faz jus ao título e ao tema — o mundo do mergulho livre. O espectador pode realmente ficar sem ar ao acompanhar a história de Alessia Zecchini e Stephen Keenan, contada pela diretora e roteirista irlandesa com técnicas do suspense. Por isso, tanto melhor será a sua experiência se, como os praticantes desse esporte, você decidir submergir sem equipamento, ou seja, sem muitas informações.
Mas algumas coisas podem e devem ser ditas sobre De Tirar o Fôlego para atiçar sua curiosidade. Por exemplo: um dos cenários é o Blue Hole (buraco azul, em inglês), em Dahab, no Egito. Perigosíssimo, matou mais gente do que o Monte Everest. O sumidouro chega a ter 120 metros de profundidade e uma estrutura claustrofóbica e desorientadora, batizada de O Arco.
53) As Três Filhas (2023)

De Azazel Jacobs. A trama deste belo filme se passa quase toda dentro de um apartamento em Nova York. Lá, três irmãs distantes e com personalidades contrastantes reúnem-se para cuidar do pai, Vincent, que está perdendo a batalha para o câncer.
O pai já é uma figura fantasmagórica: nunca o vemos nem ouvimos, e a câmera jamais entra no quarto do moribundo. Uma das filhas também não consegue cruzar a porta: justamente Rachel (Natasha Lyonne), a futura dona do apartamento, que sofre diante da morte iminente. Seu alívio é fumar maconha, o que gera reprimenda da irmã mais velha, a autoritária e ríspida Katie (Carrie Coon). A terceira irmã, Christina (Elizabeth Olsen), é a mais emotiva e a mais solar, procurando servir como ponte entre as outras duas — a propósito, repare que as três personagens raramente são vistas juntas na mesma cena, tradução visual de sua desunião e de suas desavenças.
54) Um Fiasco de Férias (2024)

De Rethabile Ramaphakela. Esta comédia sul-africana à la Férias Frustradas foi uma grata surpresa. Rimos muito lá em casa dos imprevistos, das confusões e das piadas de humor físico, mas também curtimos a mensagem sobre união familiar e sobre o que é importante na vida.
A trama acompanha Joseph Ngema (interpretado por Kenneth Nkosi), um pai workaholic que, para tentar se reconectar com os filhos, que vivem com sua ex-esposa, planeja uma viagem de férias, na companhia de sua atual mulher. Obviamente, as coisas rapidamente saem do controle. Em vez de um exótico paraíso em Zanzibar, o que ele oferece é uma excursão improvisada para Durban, onde precisa lidar com as obrigações profissionais.
55) Filhas (2024)

De Angela Patton e Natalie Rae. O documentário acompanha a jornada de presidiários de Washington, D.C. — todos negros — que têm a oportunidade ímpar de encontrar suas filhas (algumas bem pequenas, outras adolescentes) em um baile.
Eu me lavei chorando no clímax do filme que, inexplicavelmente, ficou de fora dos indicados ao Oscar de melhor documentário.
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