
O aniversário de 15 anos de A Origem (Inception, 2010) é um ótimo motivo para revisitar este filmaço de Christopher Nolan que, atualmente, está disponível no Amazon Prime Video e na HBO Max.
A pré-estreia do filme foi no dia 8 de julho de 2010, no Odeon Leicester Square, em Londres, e o lançamento mundial nos cinemas ocorreu em 16 de julho daquele ano — no Brasil, A Origem chegou em 6 de agosto.
Premiado em quatro categorias do Oscar — melhor fotografia, por Wally Pfister, efeitos visuais, edição de som e mixagem de som — e indicado a outras quatro estatuetas (incluindo melhor filme e roteiro original, assinado por Nolan), A Origem conquistou, simultaneamente, bolsos e cabeças.
Este "filme de ação para psicanalistas" arrecadou US$ 839,3 milhões abordando temas como a interpretação dos sonhos, os arquivos secretos nos escaninhos da mente, as projeções que fazemos de quem nos cerca e de nós mesmos. Os pontos de fuga em um mundo interior, a engenharia da identidade, a tênue fronteira entre memória e imaginação. Os mecanismos de defesa do inconsciente, a culpa que atormenta a consciência, a realidade como uma construção mental.
As obsessões temáticas de Christopher Nolan

Britânico que comemora 55 anos no dia 30 de julho, Christopher Nolan é um craque em combinar o entretenimento com o convite à reflexão. Vide, por exemplo, Amnésia (2000), que discute de que são feitas e para que servem nossas lembranças, o quanto elas são reais ou interpretações.
Ou O Grande Truque (2006), que se debruça sobre a própria magia do cinema, a arquitetura do mistério, a arte de fazer o espectador prestar atenção em uma coisa enquanto o que realmente importa é outra coisa.
Ou Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008), que alterna cenas trepidantes com debates sobre temas perenes (o que é um herói e o que separa o Bem do Mal, por exemplo) e dilemas modernos (os riscos de combater o crime com extremismo).
E tem ainda Oppenheimer (2023), que, além de faturar sete prêmios no Oscar, incluindo melhor filme, direção e ator (Cillian Murphy), conseguiu alcançar quase US$ 1 bilhão nas bilheterias, mesmo tratando de um tema tão sério, a bomba atômica jogada em Hiroshima durante a Segunda Guerra Mundial.
A Origem sintetiza obsessões temáticas e estilísticas na filmografia do cineasta, como o quanto de nossas lembranças são fabricações e o lado sombrio de cada um. Nolan reflete sobre o poder da ilusão e da teatralidade, a exemplo de O Grande Truque, sobre a rivalidade entre dois mágicos, e de Batman Begins (2005), em que recontou a origem do super-herói meditando sobre seu próprio trabalho como diretor de cinema.
Também se faz presente a manipulação do tempo narrativo, algo que lhe deu fama no engenhoso Amnésia, contado de trás para frente, mas que já havia sido ensaiado na sua obra de estreia, Seguinte (Following, 1998), que, de forma não linear, apresenta uma mesma sequência em momentos diferentes.
Nolan aprimorou esse recurso em Dunkirk (2017), em que a oscarizada edição intercala três distintos arcos de tempo (uma semana, um dia e uma hora), que gradativamente vão convergindo para um clímax simultâneo, na Segunda Guerra Mundial. E testou os limites da compreensão do público com a "inversão temporal" de Tenet (2020).
Como a reforçar essa ideia de síntese da carreira, em A Origem Nolan também recrutou muitos de seus fiéis colaboradores, como o diretor de fotografia Wally Pfister (no total, sete filmes com ele), o editor Lee Smith (seis), o compositor Hans Zimmer (seis) e os atores Michael Caine (sete) e Cillian Murphy (seis).
O protagonista, no entanto, era novo no time. Na sua única parceria com o diretor, Leonardo DiCaprio vive um papel parecido com o que desempenhara em seu longa anterior, Ilha do Medo (2010). Tanto na obra de Martin Scorsese quanto na de Christopher Nolan, o ator estadunidense encarna um sujeito que transita em um mundo de limites borrados entre a realidade e a fantasia. Em ambos, é acossado por sonhos envolvendo sua mulher — aqui, apropriadamente chamada de Mal e interpretada pela francesa Marion Cotillard.
Qual é a trama de "A Origem"?

Em A Origem, Leonardo DiCaprio encarna Dom Cobb, um ladrão de sonhos — um Extrator. É capaz de penetrar na mente das pessoas enquanto elas estão dormindo para roubar segredos industriais. Novamente, vale pensar em como o filme sintetiza a obra de Christopher Nolan: Cobb é o nome de um dos personagens principais de Seguinte, também um ladrão que invade não a mente, mas a casa de estranhos, onde rouba pequenos objetos pessoais e muda coisas de lugar, no intuito de que as vítimas percebam e passem a sentir falta do que perderam.
Para o bem de A Origem, a tecnologia que permite a invasão de sonhos não é bem esclarecida, algo que desviaria o foco do viés psicanalítico. Mas os personagens, ao longo do filme, dão muitas explicações a respeito da trama e de seus atos — talvez desnecessárias, talvez insuficientes. Esse universo onírico não é nada pacífico, pelo contrário. Há tiroteios, perseguições e explosões. Projeções tomam a forma de capangas armados, e um trem desgovernado simboliza o perigo do inconsciente.
O sucesso de Cobb exige um preço alto: ele se tornou um fugitivo internacional, um sujeito impedido de voltar para casa. Como em qualquer filme de bandido, o protagonista tem a chance de se redimir com "um último trabalho". Como em qualquer filme de bandido que pretende transcender o gênero, esse one last job é mais do que meramente um plano audacioso.

Cobb é recrutado não para um furto, mas para o oposto: uma inserção (a inception do título original), ou seja, plantar uma ideia na cabeça do herdeiro de uma megacorporação, Robert Fischer (Cillian Murphy). Precisa transformar uma emoção em uma decisão racional.
Para a missão, Cobb e seu parceiro Arthur (Joseph Gordon-Levitt) devem convocar uma equipe que inclui um Arquiteto, o responsável por fabricar o cenário onírico, que deve ser o mais labiríntico possível — quanto mais difícil o caminho de volta, mais a vítima custa a acordar.
A citação explícita é à obra do artista gráfico holandês M.C. Escher (1898-1972), autor de gravuras complexas que traem o olhar e propõem arranjos e movimentos que desafiam a lógica e a gravidade. E, em uma citação à mitologia grega, Nolan batizou essa personagem, vivida por Elliot Page, de Ariadne, aquela que ajudou Teseu a escapar do labirinto do Minotauro. (Há outras tantas referências e ecos em A Origem, do clássico filme O Ano Passado em Marienbad, de Alain Resnais, a, claro, Sigmund Freud, o pai da psicanálise.)
Ariadne também será, digamos, a projeção do espectador — fazendo as perguntas que gostaríamos de fazer — neste filme em que os personagens sonham dentro do sonho, neste filme que faz lembrar os versos de Raul Seixas: "Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade".
Filme foi fenômeno na internet

O êxito de A Origem não foi medido apenas pelas bilheterias, pelas oito indicações ao Oscar e pela recepção da crítica. Vale lembrar do barulho que o filme causou na internet, só comparado, à época, ao que houve em torno do seriado Lost (encerrado no mesmo ano de 2010). Multiplicaram-se teorias explicativas sobre o final do filme de Christopher Nolan, mapas mostrando os vários níveis de sonho pelos quais os personagens transitam, debates sobre os mais ínfimos — ou não — detalhes (como o pião e o anel de noivado de Cobb) e até experiências sonoras.
Internautas diminuíram a rotação da canção Non, je ne regrette rien, usada na trama para anunciar o despertar do estado de torpor para a realidade, até o ponto em que ela parece se fundir com a trilha incidental composta por Hans Zimmer, como a sugerir que a todo tempo os personagens estivessem para ser acordados.
Sobre a canção, aliás, vale citar que ela é interpretada por Édith Piaf, que, por sua vez, foi encarnada no cinema por Marion Cotillard, que, por sua vez, em A Origem é a esposa de Cobb, e ele, por sua vez, ao contrário do que diz a letra em francês, vive no arrependimento.
Espelho de como fazer cinema

Especulações de fãs e interpretações psicanalíticas à parte, A Origem espelha o próprio ofício de fazer cinema. Seu enredo é basicamente o mesmo que envolve a produção de um filme: precisa-se de uma equipe para construir um sonho e alcançar corações e mentes.
O personagem Dom Cobb é o diretor — e Leonardo DiCaprio tem um tipo físico semelhante ao de Christopher Nolan, com os mesmos cabelos dourados que, em A Origem, estão armados no mesmo topete do cineasta britânico.
Arthur, o seu braço-direito, desempenha funções que, no mundo do cinema, equivalem às do diretor de fotografia e do montador, o sujeito que dá ritmo aos filmes. É o personagem de Joseph Gordon-Levitt quem cuida do enquadramento e da sincronia dos sonhos.

Ariadne, a nova arquiteta, é quem projeta os cenários e decora o estúdio do inconsciente.
Yusuf (Dileep Rao), o químico, pode ser visto como o cara dos efeitos especiais: depende de sua mágica para que os espectadores possam sonhar.
Saito (Ken Watanabe) é o produtor, o homem que entra com a grana e, por isso, se sente no direito de também entrar em cena.
E Eames (Tom Hardy) é exatamente o ator, que encarna um papel para "traduzir a razão (o roteiro, digamos assim) em conceitos emocionais", para cativar a audiência e inserir em sua cabeça/seu coração uma ideia/um sentimento.
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