
Para marcar os 80 anos, nesta sexta-feira (18), do retorno do primeiro escalão da Força Expedicionária Brasileira (FEB) que lutou na Segunda Guerra Mundial, a dica é ler uma história em quadrinhos publicada em 2019 pela editora porto-alegrense AVEC. Escrita e desenhada pelo paulista Renato Dalmaso, O Elísio: Uma Jornada ao Inferno (96 páginas, preço variando entre R$ 57,90 e R$ 79,90) retrata o drama vivido pelo pracinha Eliseu de Oliveira (1922-2012) na Itália e na Alemanha.
O Elísio alinha-se a documentários e filmes de ficção que abordaram a participação do Brasil na Segunda Guerra, como Senta a Pua! (1999), A Cobra Fumou (2002), A Estrada 47 (2013) e Navalha: Um Batalhão Brasileiro na Linha Gótica (2016). Não são muitos os títulos, especialmente os ficcionais, e Dalmaso arrisca uma explicação.
— Acredito que, após o retorno vitorioso da FEB da Europa, onde os pracinhas lutaram por democracia, houve, por parte do governo Getúlio Vargas, uma ditadura e uma campanha para que a Força fosse extinguida e desvalorizada — contou o autor em entrevista para mim em 2019. — Depois, veio o golpe militar de 1964. O militarismo passou a ser visto como algo extremamente negativo no país. Com isso, o tema acabou sendo pouco explorado no meio artístico. Existem tantas histórias maravilhosas e reais sobre a passagem do Brasil na Segunda Guerra, tantas histórias de humanidade, de bondade, de compaixão, de aventura e de drama que poderiam virar filmes, séries, quadrinhos e livros e que, infelizmente, quase ninguém se interessa.
Antes de se tornar quadrinista, Dalmaso trabalhava como gerente de loja em empresas como Claro, TIM e Marisa. Aficionado pelos relatos dos mais velhos sobre parentes ou conhecidos que haviam lutado no maior conflito armado do século 20, e um ávido consumidor da ficção e dos documentários de guerra, ele resolveu pesquisar sobre a FEB para encontrar uma história a ser contada. Encontrou a do ex-soldado Eliseu de Oliveira, que, ainda em 1945, narrara sua angustiante experiência na Itália e na Alemanha ao jornalista Altino Bondesan — dando origem ao livro Um Pracinha Paulista no Inferno de Hitler.
O título da obra faz referência a um dos significados do nome Eliseu, "do Elísio", e à mitologia grega: os Campos Elísios eram um paraíso para onde os heróis, os santos, os poetas e os deuses iam depois da morte.

Conforme avisa na abertura, O Elísio toma liberdades artísticas, mas Dalmaso, inspirado em mestres como Hal Foster, George Pratt e Alex Ross, adota um estilo realista que constitui um dos trunfos da HQ (ainda que seja difícil distinguir alguns personagens). Através de suas aquarelas pintadas com cores sóbrias, podemos testemunhar o horror da guerra, o caos que um bombardeio instala, a aflição reinante em um campo de prisioneiros.
Para tanto, contribui a decisão de não traduzir muitos dos diálogos em italiano ou alemão.
— Queria que o leitor sentisse as mesmas dificuldades de comunicação que os pracinhas tiveram na época — explica Dalmaso. — No caso do italiano, é uma mistura com o português, que era o que acontecia na época, dois povos se esforçando para se fazer entender. Nada do que está em outra língua é tão essencial para a história, mas fica como curiosidade, uma cereja no bolo do leitor que se interessar e buscar a tradução.

O Elísio também nos convida a entrar na mente de Eliseu, compartilhar de seus temores, seu estranhamento com a recepção pelos italianos ("De início, fomos xingados e apedrejados, agora nos aplaudem e imploram por comida"), suas aventuras amorosas com as ragazzas — momentos de alívio em meio a uma melancolia crescente, a um sentimento de desamparo que não tarda a se transformar em desespero.
Aí está outro trunfo da obra: seu protagonista não é o herói típico do gênero. Ele é capaz de atos de nobreza e coragem, mas também se deixa assaltar pela dúvida, pela saudade, pelo nojo, pelo medo.
O Elísio é a história de um homem comum apanhado pelo turbilhão da Segunda Guerra, mas Eliseu não é um personagem comum. Suas reflexões sobre o ônus da vitória dos Aliados (o estupro das alemãs provoca náuseas às quais não tem força para combater) enriquecem o quadrinho com um humanismo comovente: "Por seis meses, vivi nas garras de Hitler. Passei fome, sede, frio e tantas outras privações. No entanto, ao sobrevoar a Alemanha pela derradeira vez, suplico ao Criador que tenha misericórdia dessa gente".
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