
O cinema permite o que é impossível: o diálogo com a morte, a visita ao mundo dos mortos — ou das almas que ainda não encarnaram —, o prolongamento da existência no além. De O Sétimo Selo (1957), do sueco Ingmar Bergman, a Nove Dias (2020), do nipo-brasileiro Edson Oda, há uma coleção de filmes que dissipam as fronteiras com o outro lado, usando o sobrenatural para refletir sobre o humano. Por que estamos aqui? Qual é o sentido de viver? Que emoções nos definem? Como queremos ser lembrados? E o que gostaríamos de levar desta vida?
Essa última pergunta rege a ação do filme mais bonito sobre a morte, que acaba de ser ressuscitado no streaming, após ficar muitos anos no limbo digital: Depois da Vida (Wandafuru Raifu, 1998).
Dirigido pelo japonês Hirokazu Kore-eda, o mesmo de Ninguém Pode Saber (2004), Assunto de Família (2018), ganhador do Palma de Ouro no Festival de Cannes, e Monster (2023), o título está disponível na Reserva Imovision, plataforma que pode ser acessada via Amazon Prime Video.
O início da trama mostra, em uma segunda-feira qualquer, a chegada ao serviço de funcionários do que parece ser uma repartição pública — cenários e figurinos são retrô e têm cores sóbrias. O chefe é o senhor Nakamura (interpretado por Kei Tani), e entre os empregados estão Takashi Mochizuki (Arata Iura), Satoru Kawashima (Susumu Terajima) e a trainee Shiori Satonaka (Erika Oda, que encerrou a carreira de atriz 10 anos depois).
Quando eles começam a atender as pessoas que aguardam na sala de espera, descobrimos que o tal departamento é na verdade um entreposto entre a vida e a morte, onde os recém-falecidos devem ficar por uma semana.

Os burocratas pedem a 22 almas de diferentes idades e personalidades que revejam suas vidas e escolham uma única lembrança, que será reencenada, filmada por uma equipe e assistida em uma sala de cinema, se transformando na única memória que eles levarão para o além. Todo o resto de suas existências será esquecido, somente essa bagagem, um filme com dois ou três minutos de duração, é permitida na derradeira travessia. Os mortos passarão a eternidade na companhia da sua recordação mais feliz.
Mas como escolher se você acumula tantas lembranças felizes? O que fazer se só tiver más recordações? E como fica a situação dos jovens, que pensam apenas no agora e no futuro?

Os dilemas são envolventes, e as memórias eleitas sempre surpreendem, sempre comovem, seja pela singularidade, seja pela delicadeza, seja pela capacidade de convidar o espectador a passear pelos labirintos da sua própria memória.
Um aviador quer voltar a estar cercado pelas nuvens, uma senhorinha quer sentir de novo as flores de cerejeira caindo sobre seu corpo. Uma prostituta se recorda de um cliente que foi gentil. Um homem se lembra da brisa no rosto quando ia de bonde para a escola.
O processo de produção adotado por Hirokazu Kore-eda contribuiu muito para o espanto agradável e a autenticidade desconcertante de Depois da Vida. Ao desenvolver o roteiro, o cineasta japonês entrevistou mais de 500 pessoas de diversas origens sociais, solicitando que compartilhassem a lembrança que guardariam. Algumas dessas conversas foram filmadas para serem usadas no longa-metragem, que também conta com cenas baseadas na improvisação.

Depois da Vida não é belo somente por tratar da morte, mas também por celebrar o cinema como a arte que eterniza. É como diz a personagem da atriz Jean Smart no filme Babilônia (2022), de Damien Chazelle: "Daqui a cem anos, quando você e eu já tivermos partido, toda vez que alguém colocar uma imagem sua na tela, você estará vivo novamente. (...) Seu tempo de hoje acabou, mas você passará a eternidade com anjos e fantasmas".
O que se torna eterno, contudo, não necessariamente é o que aconteceu de verdade na vida dos personagens de Depois da Vida. O cinema é muitas vezes associado a documento, por seu poder de registrar um fato, capturar um momento, retratar a história. Mas há sempre alguém por trás da câmera: o olhar do narrador pode exagerar, falsear, iludir.
No caso do filme japonês, a responsabilidade é compartilhada. Ao reencenarem em um estúdio suas lembranças, os personagens revisam, aprimoram e até alteram suas recordações. É um atestado do fascínio que temos pelo cinema e da força das imagens fabricadas na construção do que chamamos de memória e realidade.
Hirokazu Kore-eda, que começou como documentarista, refletiu sobre a natureza ambígua da memória:
— As emoções humanas são as faíscas que voam quando "verdade" e "ficção" colidem. Neste filme, eu queria explorar as consequências dessa colisão, investigando a área incerta entre "registro objetivo" e "recordação". Embora as memórias em Depois da Vida sejam apresentadas como experiências reais que são posteriormente reconstruídas como filme, não é possível distinguir as histórias que os personagens contam como "verdade" e as recriações como "ficção". Elas se entrelaçam com grande complexidade. Nossas memórias não são fixas ou estáticas. Elas são dinâmicas, refletindo eus em constante mudança. Portanto, o ato de lembrar, de olhar para o passado, não é de forma alguma redundante ou negativo. Pelo contrário, nos desafia a evoluir e amadurecer.
A felicidade estocada em pequenos frascos

A psicanalista e escritora Diana Corso escreveu sobre o filme Depois da Vida em texto publicado em Zero Hora em fevereiro de 2005. Vale a pena ler alguns trechos:
"A morte é tratada com uma rara delicadeza, todo cuidado é pouco no parto dessas lembranças, e os funcionários são solícitos e respeitosos, dando um valor transcendental às ninharias de cada um, já que os filmes devem ser fidedignos.
A princípio, o mais cruel dessa história parece-me ser a necessidade da escolha. Como ficar só com uma colherada, se a vida nos foi servida em tonéis? Nenhum instante seria capaz de representar o todo, nem que encontrássemos uma cena na qual muitos daqueles que amamos se amontoassem, como numa foto de time de futebol.

A provocação do cineasta convoca em cada espectador o desafio de escolher sua cena, resignar-se à parte em detrimento do todo. Para executar essa improvável tarefa há dois caminhos.
No primeiro, buscamos alguma lembrança que faça a melhor síntese do que fomos (ou do que temos sido, já que continuamos vivos), capaz de nos representar e bem.
No segundo, entregamo-nos sem preocupações à fruição de um determinado instante.
Esse último pode ser marcado pela beleza visual, por cheiros, uma luminosidade ou um certo vento. São cenas compostas de toques minimalistas como uma cor, um gesto, um som ou um olhar.
Se escolhermos o primeiro tipo de memória, ou seja, aquela que melhor traduza a obra que nossa vida foi, estaremos mais preocupados com a obra do que com a vida. Afinal, quem quer passar a eternidade em companhia daquela cerimônia chatíssima, na qual se recebeu um almejado prêmio?
Os mortos do filme de Kore-eda escolheram lembranças do segundo tipo. São cenas de um gênero aparentemente efêmero, as quais, em geral, tão toscos que somos, nem damos o devido valor quando as estamos vivendo. Sabe aquela ocasião em que você estava deitado numa rede e a pessoa amada lhe alcançou um copo de suco, interrompendo seu devaneio ou sua leitura com esse gesto atencioso? (...)
São situações imprevisíveis, que só revelam seu valor quando recebem a devida moldura que valoriza a cena. A felicidade parece estar estocada em pequenos frascos. Talvez momentos sutis sejam do tipo que vale a pena levar para sempre. O melhor seria poder perceber seu encanto enquanto ainda estamos vivos".
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