
A Netflix lança nesta segunda-feira (14) Apocalipse nos Trópicos (2024), documentário da diretora mineira Petra Costa sobre o papel do movimento evangélico na ascensão de Jair Bolsonaro à presidência do Brasil. O fio condutor é o pastor Silas Malafaia. O atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, também tem protagonismo.
Apocalipse nos Trópicos é mais um filme de Petra, 41 anos, que nasce de uma inquietação particular — o que justifica a narração em primeira pessoa, ainda que por vezes a cineasta imprima a sua voz um tom meloso ou faça pausas dramáticas, adjetivos talvez estrangeiros no terreno dos documentários.
Em Elena (2012), Petra fez um inventário poético de um luto prolongado, recriando os passos da sua irmã mais velha — que foi morar em Nova York embalada pelo sonho de seguir carreira de atriz — para tentar compreender os caminhos, desvios e o atalho por ela tomados. O filme conquistou o prêmio da categoria no Festival de Havana e recebeu quatro Candangos no Festival de Brasília: melhor direção em documentário, melhor edição, melhor direção de arte e melhor documentário pelo júri popular.
Em Democracia em Vertigem (2019), Petra mesclou sua vida pessoal e as contradições de sua família à reconstituição da turbulência política do Brasil desde o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, até a eleição de Bolsonaro, em 2018. O filme concorreu ao Oscar de documentário e foi escolhido como um dos 10 melhores do ano pelo jornal The New York Times.
Sobre o que é "Apocalipse nos Trópicos"?

Exibido pela primeira vez no Festival de Veneza do ano passado, fora de competição, Apocalipse nos Trópicos começa com uma lembrança de Petra Costa de quando esteve em Brasília, em 2016, para documentar o processo de impeachment de Dilma. No Congresso Nacional, a cineasta flagrou funcionários abençoando as mesas dos parlamentares ("Em nome de Jesus", "Em nome de Jesus", "Em nome de Jesus") e o deputado e pastor Cabo Daciolo falando que "É Deus que decide" sobre os votos e que "está declarada a queda do governo ímpio".
— A nação brasileira está vivendo um momento novo — diz Daciolo. — Eles não conseguem entender o que está acontecendo, porque a guerra não é contra homens. A guerra é espiritual. Entrou Jesus.
Enquanto as imagens mostram uma oração fervorosa, Petra reflete:
— Neste parlamento, a casa do povo, a espécie humana sempre legislou. Pro bem... e pro mal. O Congresso, nessa sala, promulgou uma das Constituições mais progressistas do planeta. Afastou dois presidentes e votou para chancelar o início e, depois de 21 anos, o fim de uma brutal ditadura militar. Houve grandes conquistas... e erros colossais. Mas as ações sempre partiam de nós... humanos. Então, o que estava acontecendo aqui me parecia muito estranho. Eu estava assistindo a um apelo enfático, feito para que as rédeas do governo fossem entregues a uma entidade distinta.
Logo em seguida, o documentário apresenta cenas de um evento evangélico que acontecia pertinho do Congresso, na mesma época. As imagens de silhuetas de homens com o braço direito erguido e a mão espalmada e a trilha sonora dão contornos sinistros ao clamor de uma mulher: "Venha o Teu reino sobre os papéis executivo, legislativo e judiciário. Que a Tua vontade soberana, que é boa, perfeita e agradável, s estabeleça nesses poderes da República para remover a escória da nossa nação e lançá-la em seu destino profético".
Vemos a própria Petra Costa, com a câmera na mão, vemos Jair Bolsonaro e um de seus filhos, Eduardo Bolsonaro, vemos o pastor Silas Malafaia, uma das maiores lideranças evangélicas no país, que, ao microfone, grita a ponto de fraquejar a voz:
— Nós estamos aqui pra declarar: o Brasil esquerdopata não vai incendiar o Brasil, não! Aqui é lugar de paaaz!
Paz. O documentário faz a oposição desse substantivo feminino de que o mundo anda tão carente a uma cultura de guerra, a um discurso armamentista.
— Se eu chegar lá, no que depender de mim, todo cidadão vai ter uma arma de fogo dentro de casa. Não vai ter um centímetro demarcado pra reserva indígena ou pra quilombola — promete Bolsonaro em um palanque da campanha eleitoral de 2018. Em outro, provoca: — Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre!
Ainda no evento de 2016, Malafaia discursa:
— Nos chamam de fundamentalistas. Verdade. Nós temos fundamento. Somos contra o aborto. Temos fundamento. Somos a favor da vida. Somos contra a liberação de drogas. Temos fundamento. Nosso Deus e nosso Pai. Nós declaramos... O Brasil... É.. do Senhor... Jesus! Amém!
Aí, Petra Costa conta da sua inquietação pessoal que culminou na realização de Apocalipse nos Trópicos:
— Eu não entendi bem o que eu estava testemunhando. Agora, revendo essa cena, percebo que eles estavam profetizando. Ou melhor, planejando o futuro do país. (...) Antes de filmar aqueles pastores em Brasília, eu sabia pouco sobre a fé evangélica. Eu só sabia que em qualquer cidade do Brasil, onde não tem hospitais nem ruas pavimentadas, tem sempre uma igreja evangélica, oferecendo serviços sociais, um senso de comunidade e um sentido para a vida (segundo o documentário, nos últimos 40 anos os evangélicos cresceram de 5% para mais de 30% da população brasileira). A minha formação laica não estava me ajudando a decifrar os sinais no meu entorno. Eu sabia o que era a Revolução Russa e a fórmula do oxigênio, mas nada sobre Paulo, João de Patmos ou os Quatro Cavaleiros do Apocalipse. Era como se compartilhássemos a mesma terra, mas falássemos línguas completamente diferentes.
Lula e os evangélicos

O contexto permite definir Apocalipse nos Trópicos como uma espécie de continuação de Democracia em Vertigem, mas o novo filme é muito mais abrangente e ambicioso.
Dividido em cinco capítulos, o documentário não se limita à política brasileira. Petra mergulha no Livro do Apocalipse, o último do Novo Testamento, e empreende uma viagem aos Estados Unidos de 1958 para recuperar um sermão do evangelista Billy Graham (1918-2018) sobre o embate entre cristianismo e comunismo.
No Brasil, a diretora também volta no tempo, até a construção de Brasília, ao mesmo passo em que relembra diversos momentos marcantes dos últimos anos: a prisão de Lula em 7 de abril de 2018, o atentado contra Bolsonaro em 6 de setembro de 2018, a eleição de Bolsonaro como presidente da República, em outubro de 2018, a libertação de Lula, em 7 de novembro de 2019, a tragédia da pandemia de covid-19, as abordagens policiais em estradas de acesso às zonas eleitorais no pleito de 2022, a votação que reconduziu Lula à Presidência, os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023... Entre uma coisa e outra, a cineasta visita cidadãos comuns e registra a devoção dos seguidores de Bolsonaro.

Essa amplitude tem prós e contras. Por um lado, é fascinante observar as amarrações que Petra Costa faz entre um assunto e outro, entre um personagem e outro. Às vezes, a diretora vai pelo caminho da contextualização, da explicação didática, embora jamais imparcial. Mas a documentarista também pode optar pelo contraste, pelo simbólico, pela justaposição de imagem e som. Por falar em imagem e som, outra habilidade de Petra é a de prestar atenção às cenas, observar o quadro por inteiro, ler nas entrelinhas.
Por outro lado, a abrangência cobra seu preço em um filme com tempo restrito — são menos de duas horas de duração. Às vezes, fica a sensação de que Apocalipse nos Trópicos se desvia do foco. Talvez o conteúdo ficasse mais rico e mais organizado em uma série com três episódios, por exemplo. Outras vozes poderiam encorpar a discussão proposta: não há entrevistas com sociólogos, cientistas políticos ou especialistas em religiões. Diante dessa ausência, cabe a Lula, durante a campanha eleitoral de 2022, responder o que faz as pessoas aderirem à fé evangélica:
— Eu conto sempre uma história, desde os tempos em que era dirigente sindical. Um trabalhador, ele tá desempregado, ele vai no sindicato e o sindicato fica dizendo "Olha, companheiro, é preciso se organizar dentro da fábrica, quando a gente estiver organizado, a gente vai ter que fazer greve, a gente vai ter que lutar, a gente vai ter que protestar, por que o capitalismo não sei das quantas". O cara vai falar: "Porra, eu vim aqui só porque eu perdi o emprego, o cara quer que eu faça uma revolução". Aí o cara sai do PT e vai na Igreja Católica. "É meu filho, você tem que sofrer na Terra pra ganhar o reino do Céu. A vida é assim mesma, o Céu é dos pobres, não sei das quantas." O cara fala: "Porra, eu vim aqui pra dizer que eu tô desempregado e o cara...". Aí o cara chega na Teologia da Prosperidade e tem duas palavras: "O problema é o Diabo e a solução é Jesus". É muito simples. "Você tá desempregado porque o Diabo entrou na tua vida, e a saída é Jesus." E o cara sai de lá confortado: "Porra, alguém me disse que eu tenho chance".

Lula também explana sua tese sobre o que levou o socialismo ao fracasso — "Foi a negação da religião" —, mas afirma que não vai pedir voto nas igrejas. Porém, diante de notícias falsas sobre ameaças de perseguição a cristãos e fechamento de igrejas, o candidato do PT escreveu uma carta aos evangélicos, prometendo, por exemplo, não mudar as leis sobre o aborto no Brasil e respeitar a liberdade religiosa. "Vinte anos antes", comenta Petra, "para se eleger, ele escreveu uma carta parecida, mas aos banqueiros".
Bolsonaro, o "escolhido de Deus"

É quando se concentra no pastor Silas Malafaia que Apocalipse nos Trópicos cresce. Petra Costa documenta palestras do carismático pastor, exibe imagens de arquivo, entrevista o carioca de 66 anos em sua casa. Ao lado do deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), presidente da Bancada Evangélica, na mesa do café da manhã, no seu escritório ou durante um programa de TV francês, Malafaia fala sobre seu papel como influenciador em Brasília ("Minha filha, qualquer senador hoje do voto majoritário ele quer o voto evangélico, e nós somos 30%") e sobre a relação entre religião e política — "Por que alguns podem transmitir as ideias de Marx se eu não poso transmitir as de Jesus?", pergunta o pastor. "É uma contradição para aqueles que pregam uma democracia plena."
Malafaia é um personagem com suas próprias contradições. Apoiou Lula na eleição de 2002, mas depois deu uma guinada à direita. Tornou-se um grande cabo eleitoral de Jair Messias Bolsonaro — Petra enfatiza o nome do meio —, "um candidato que defende os valores da família" e que "é contra essa bandidagem de erotizar criança em escola que toda a esquerda quer". O pastor estava com Bolsonaro no hospital enquanto ele se recuperava do ataque a faca sofrido em Juiz de Fora (MG), e, em um evento realizado dois dias após o pleito, recebeu o presidente recém eleito. No palco, Malafaia disse:
— Deus escolheu as coisas loucas para confundir as sábias. Deus escolheu as coisas fracas para confundir as fortes. Agora a coisa vai ser mais profunda: Deus escolheu as coisas vis, de pouco valor, as desprezíveis, que podem ser descartadas, as que não são, que ninguém dá importância, para confundir as que são, para que nenhuma carne se glorie diante Dele. É por isso (ele aponta para o peito de Bolsonaro) que Deus te escolheu.
Na narração em off, Petra Costa repete as palavras do pastor Silas Malafaia: as coisas loucas, fracas, vis e desprezíveis. A diretora argumenta: "Usando esses versos bíblicos, Malafaia inaugura um novo tipo de líder pro Brasil... Alguém cuja falta de capacidade é justamente o que lhe permite se tornar um instrumento de Deus."
A bronca de Silas Malafaia

Para Petra, Bolsonaro era como um instrumento de Malafaia. A diretora ilustra essa ideia ao rebobinar uma cena das manifestações de 7 de setembro de 2021, convocadas por Bolsonaro em meio à queda de sua popularidade. Vestidos com a camisa da Seleção Brasileira, seus eleitores pediam a destituição do Supremo Tribunal Federal (STF), a intervenção das Forças Armadas e uma "nova independência do Brasil". No palanque, é Malafaia quem passa o microfone para o então presidente, que discursa:
— Deus nunca disse para Israel: "Fique em casa que Eu luto por você". Ele sempre disse: "Vai à luta que Eu estou com você".
Petra Costa comenta:
— Aqui, Bolsonaro olha para Malafaia em busca de aprovação. E Malafaia parece saber exatamente o que o presidente vai falar.
Mas nem sempre Bolsonaro fez o que Malafaia desejava. Em um vídeo do período pós-eleição de Lula, o pastor conclamou o então presidente legal em exercício a convocar as Forças Armadas "pra botar ordem!".
— Presidente Bolsonaro, como é que o senhor vai passar para a História? Omisso, covarde ou alguém que usa o seu poder legal, garantido pela Constituição?
"Mas Bolsonaro foi embora para Orlando (dois dias antes do fim do seu mandato). Sem dizer nada", frisa a narração de Petra Costa.
Em entrevista à diretora, perto do epílogo de Apocalipse nos Trópicos, Malafaia dá um puxão de orelhas em Bolsonaro:
— Eu não concordei em ele ir embora para a América. Um líder fica, paga o preço. Vai pra cadeia ou não. Está aí o Lula. Tudo estava indicando que ele ia para a cadeia. Ele fugiu? Não. Postura de um líder. Então, para mim, o cara sair correndo daqui e ir pra América, não concordei. Não vou concordar nunca. Fica e encara. Aguenta o pau.
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