
É fácil entender por que um faroeste de 30 anos atrás está fazendo sucesso hoje na Netflix — nesta quinta-feira (10), ocupa o segundo lugar entre os 10 filmes mais vistos —, assim como não é difícil entender por que Rápida e Mortal (The Quick and the Dead, 1995) foi um fracasso quando estreou.
Rápida e Mortal é dirigido por Sam Raimi, que na época era famoso somente entre os fãs de terror, graças à trilogia Uma Noite Alucinante (1981, 1987 e 1992) e a Darkman: Vingança Sem Rosto (1990). Depois, ele se tornaria um nome também associado aos super-heróis, por causa da trilogia do Homem-Aranha (2002, 2004 e 2007) e de Doutor Estranho no Multiverso da Loucura (2022).
Orçado em US$ 35 milhões, o filme faturou apenas US$ 47 milhões (ou seja, nem se pagou, já que a regra básica em Hollywood é gerar uma receita pelo menos duas vezes superior ao custo), não disputou nenhum prêmio importante e teve uma acolhida morna junto à crítica. Peter Travers, da Rolling Stone, escreveu que "Rápida e Mortal se comporta como uma compilação maluca de momentos marcantes de faroestes famosos. Raimi encontra o visual certo, mas erra o ritmo. Você sai do filme atordoado em vez de deslumbrado, como se um pistoleiro experiente tivesse sacado sua arma e dado um tiro no próprio pé".
O público de agora pode estar impulsionado por uma mistura paradoxal de nostalgia e contemporaneidade.

Além do eterno apelo do Velho Oeste — um tempo e um cenário marcados por histórias de heroísmo, mas também pela iminência da morte —, o filme dirigido por Sam Raimi nos transporta de volta à época em que Sharon Stone era um dos nomes mais quentes de Hollywood, enquanto Leonardo DiCaprio e Russell Crowe ainda davam seus primeiros passos rumo ao estrelato.
Stone, que tinha 36 anos quando Rápida e Mortal foi lançado, vivia o auge da fama — e o auge da beleza, vale acrescentar —, depois de se tornar musa dos thrillers eróticos graças a Instinto Selvagem (1992) e Invasão de Privacidade (1993). Naquele mesmo ano de 1995, brilharia em Cassino, de Martin Scorsese, filme pelo qual ela concorreu pela primeira e única vez ao Oscar, na categoria de melhor atriz.
DiCaprio mal havia completado 20 anos, mas já trazia no currículo uma indicação ao Oscar, como coadjuvante em Gilbert Grape: Aprendiz de Sonhador (1993). No entanto, o estúdio Sony Pictures estava hesitante quanto a sua escalação, achava-o muito inexperiente. Sharon Stone, que assina também como coprodutora do filme, se comprometeu em tirar do próprio bolso o dinheiro para pagar o salário do jovem que futuramente disputaria cinco vezes o troféu de melhor ator na Academia de Hollywood — venceu por O Regresso (2015) e competiu por O Aviador (2004), Diamante de Sangue (2006), O Lobo de Wall Street (2013) e Era uma Vez em... Hollywood (2019).

Rápida e Mortal marcou a estreia em Hollywood do neozelandês Russell Crowe, então com 30 anos. Seu nome também foi uma aposta de Stone. "Quando vi Skinheads: A Força Branca (Romper Stomper, 1992), achei Russell não apenas carismático, atraente e talentoso, mas também destemido", argumentou a atriz. Dali em diante, Crowe emendou filmes que ganharam ou concorreram ao Oscar: Los Angeles: Cidade Proibida (1997), O Informante (1999), Gladiador (2000), Uma Mente Brilhante (2001), Mestre dos Mares: O Lado Mais Distante do Mundo (2003), A Luta pela Esperança (2006) e O Gângster (2007). Ganhou a estatueta dourada de melhor ator por Gladiador e foi indicado por O Informante e por Uma Mente Brilhante.
O elenco do faroeste ainda tem Gene Hackman (1930-2025), vencedor do Oscar de melhor ator por Operação França (1971) e de coadjuvante por Os Imperdoáveis (1992), Gary Sinise, indicado ao prêmio de coadjuvante por Forrest Gump (1994), e Lance Henriksen, rosto conhecido dos apreciadores de ficção científica devido a seus trabalhos em O Exterminador do Futuro (1984), Aliens: O Resgate (1986).
A mesma contemporaneidade que contribui para o êxito atual ajuda a explicar a má recepção inicial.
Embora o faroeste estivesse vivendo um renascimento graças a títulos como Dança com Lobos (1990), Os Imperdoáveis (1992) _ ambos ganhadores do Oscar —, Tombstone: A Justiça Está Chegando (1993) e Maverick (1994), talvez Rápida e Mortal fosse muito disruptivo para aqueles tempos. Afinal, ainda eram raríssimas as protagonistas femininas em um gênero tão masculino, o dos filmes de ação. Só recentemente as mulheres puderam se consolidar nesse território — vide Jennifer Lawrence na saga Jogos Vorazes (2012-2015), Scarlett Johansson como a Viúva Negra nas aventuras da Marvel, Charlize Theron em Mad Max: Estrada da Fúria (2015) e Atômica (2017).
Na trama de Rápida e Mortal, ambientada em 1881, a personagem de Sharon Stone é uma pistoleira misteriosa que chega à cidadezinha de Redemption não em busca de redenção, mas de vingança — o motivo será revelado gradativamente por meio de flashbacks. O alvo de The Lady, como ela passa a ser chamada, é John Herod (Gene Hackman, saboreando a malvadeza), um bandido que virou prefeito pela força e pela forca.

Os planos de revanche se mesclam à realização de um torneio de duelos à mão armada patrocinado por Herod, com um grande prêmio em dinheiro para quem provar ser o mais rápido no gatilho. As regras estipulam que cada competidor pode desafiar qualquer outro; nenhum desafio pode ser recusado; os participantes só podem duelar uma vez por dia, em horário a ser sorteado no bar de Horace Pinnick (Pat Hingle); e a disputa continua até que um pistoleiro desista ou morra.
Entre os atiradores, estão, além do próprio prefeito, Ace Hanlon (Lance Henriksen), que talvez seja mais falastrão do que realmente exímio; The Kid (Leonardo DiCaprio), um jovem impetuoso que acredita ser filho de Herod e espera ganhar o torneio para conquistar seu respeito; e Cort (Russell Crowe), um ex-capanga do vilão que jurou nunca mais apontar para alguém e se transformou em um pastor.
A cada rodada, os duelos vão ficando mais brutais. Enquanto isso, Sam Raimi vai brincando de encontrar formas sempre diferentes de filmar uma mesma situação: experimenta ângulos sob a direção de fotografia do italiano Dante Spinotti, dilata o tempo com a montagem criativa e cuidadosa do também italiano Pietro Scalia, oscarizado por JFK: A Pergunta que Não Quer Calar (1991) e, depois, por Falcão Negro em Perigo (2002), emprega o zoom para emular a trajetória veloz da bala que sai do revólver, faz do som um personagem à parte.

A violência estilizada não era novidade no gênero do faroeste — vide os bangue-bangues dirigidos por Sergio Leone, como Por um Punhado de Dólares (1964), Três Homens em Conflito (1966) e Era uma Vez no Oeste (1969), ou Meu Ódio Será sua Herança (1969), de Sam Peckinpah. Mas Raimi contrabandeou do horror ingredientes que podem ter sido reprovados por olhares mais sensíveis ou conservadores. Em uma cena icônica de Rápida e Mortal, a câmera está posicionada às costas de um sujeito que acabou de ter a cabeça atravessada por um tiro — pelo enorme buraco em seu crânio vê-se, ao fundo, o homem que disparou.
Os espectadores mais acostumados com a construção clássica do western, na qual o duelo ocupa a condição de clímax, também devem ter torcido o nariz diante de um filme em que os duelos se sucedem um atrás do outro. O enredo típico de vingança escrito por Simon Moore é somente um pretexto para Sam Raimi se concentrar naquilo que realmente o interessava: o campeonato de duelos, onde as regras são reformuladas a cada rodada.
Ou seja, Rápida e Mortal foi um filme à frente de seu tempo — já estava alinhado à gamificação de Hollywood, onde os roteiros de muitas produções se assemelham ao de um jogo, com desafios a serem cumpridos para a passagem dos personagens à próxima fase. O faroeste de Sam Raimi foi uma espécie de precursor de Round 6 (2021-2025), a série sul-coreana que se tornou um fenômeno de audiência ao retratar, também com esmero visual, duelos de sobrevivência.
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