
Não é todo dia que se pode entrevistar sete atores de uma superprodução internacional que inclui um astro de Hollywood: Jason Momoa, o eterno Khal Drogo da série Game of Thrones (2011-2019) e o protagonista de Aquaman (2018), que arrecadou US$ 1,15 bilhão. Seu currículo conta com outros sucessos de bilheteria, como Velozes e Furiosos 10 (2023) e Um Filme Minecraft (2025). E ele faz um coadjuvante importante na trilogia Duna (2021-2026), que já recebeu oito prêmios no Oscar.
Momoa encabeça o elenco da série Chefe de Guerra (Chief of War, 2025), épico sobre a unificação do Havaí (hoje um Estado dos EUA), na virada do século 18 para o 19, antes da colonização ocidental do arquipélago no Oceano Pacífico. Os dois primeiros episódios estreiam nesta sexta-feira (1º) no Apple TV+ — os outros sete serão lançados pela plataforma de streaming um a cada semana, até 19 de setembro. O ator estadunidense também assina como cocriador, ao lado de Thomas Pa'a Sibbett — seu parceiro nos filmes Perigo na Montanha (2018) e A Última Caçada (2022) —, roteirista, produtor executivo e diretor do último capítulo.
Tamanho envolvimento foi justificado por Momoa na entrevista via Zoom realizada em 17 de julho. A convite do Apple TV+, GZH foi o único veículo de imprensa brasileiro nessa coletiva — havia também jornalistas da Argentina, da Austrália, do Canadá, da Holanda, da Itália, do México e da Suécia.
— Dança com Lobos (1990), O Último dos Moicanos (1992) e Coração Valente (1995) são os meus filmes favoritos da infância e da adolescência. São histórias épicas. Eu adoraria ter visto algo semelhante sobre a a cultura havaiana, ter visto filmes sobre nossos próprios reis e nossas próprias histórias — disse o ator nascido em Honolulu, no Havaí, mas criado pela mãe de ascendência alemã e irlandesa no Estado do Iowa. — Então, quis criar uma história grande, bonita e épica — completou Momoa, que comemora 46 anos justamente no dia da estreia de Chefe de Guerra.
Pa'a Sibbett acrescentou:
— Essas são as histórias que contamos nos acampamentos, em volta das fogueiras. Crescemos ouvindo de nossos avós, nossas tias. Todo mundo ama o Havaí, mas ninguém sabe muito sobre sua história.

A minissérie foi filmada nos cenários do Havaí e da Nova Zelândia, tem elenco majoritariamente polinésio e é predominantemente falada na língua havaiana (a música de abertura, porém, foi composta pelo suíço Hans Zimmer). Jason Momoa interpreta um personagem real, o guerreiro Ka'iana.
Quando a trama começa, o protagonista está curtindo a vida em família e pensando em ter filhos com a esposa, Kupuohi (papel de Te Ao o Hiniphinga). Mas acaba persuadido pelo rei da ilha Maui, Kahekili (encarnado por Temuera Morrison), a participar de uma campanha militar, por causa de uma profecia sobre a unificação do arquipélago.

Chefe de Guerra combina paisagens exuberantes, cultura polinésia (o que inclui doses de espiritualidade e misticismo), maquinações políticas (há vários reis e aspirantes ao trono) e muitas cenas de ação, que têm como outra inspiração o filme Apocalypto (2006). A violência coreografada parece ainda mais brutal porque investe bastante no combate corpo a corpo de personagens seminus que empunham armas como o leiomano (um porrete com dentes de tubarão), a ihe (uma lança) e o pahoa (um punhal).
— No trailer, dá para ver um momento em que eu estou com tanta dor, tanta dor — comentou Momoa. — Eu não digo que é a melhor cena que já fiz, mas é definitivamente a mais poderosa. E eu nunca vou esquecer os sons que saíram do meu corpo quando estávamos gravando.

Por outro lado, o figurino de Chefe de Guerra permitiu a Jason Momoa uma experiência "libertadora e bonita". Durante boa parte dos primeiros episódios, o ator corre, nada e luta usando mais tatuagens do que roupas sobre o corpo. A exceção é basicamente o malo, a típica tanga havaiana.
— Acho que foi a experiência mais libertadora que já tive. Sabe, usar uma roupa de super-herói de 18 quilos (como nos filmes do Aquaman) e sentar no seu próprio suor o dia todo é nojento, brutal e duro para o corpo — disse o astro havaiano e hollywoodiano. — Não acho que exista alguma calça de ioga elástica que seja mais libertadora do que um malo. Poder me mover e lutar sem ser restringido por nada era lindo. E devo dizer que usaria um malo todos os dias da minha vida se não fosse virar alvo de olhares e atenção constantemente.
Bate-papo com o elenco de "Chefe de Guerra"

Além de Jason Momoa e de Thomas Pa'a Sibbett, participaram das entrevistas coletivas mais seis integrantes de Chefe de Guerra. Em uma das rodadas, estavam dois dos rostos mais famosos da Oceania.
Temuera Morrison, 64 anos, nascido na Nova Zelândia e de ascendência maori, chamou a atenção em O Amor e a Fúria (1994) e depois se tornou figurinha carimbada (ou pelo menos voz conhecida) na saga Star Wars — foi o Jango Fett em Ataque dos Clones (2002), o comandante Cody em A Vingança dos Sith (2005), o protagonista da minissérie O Livro de Bobba Fett (2021-2022) e coadjuvante em The Mandalorian (2020-2023). Ele também fez o pai do personagem de Jason Momoa nas duas aventuras solo do Aquaman. Em Chefe de Guerra, Morrison interpreta o rei da ilha Maui, Kahekili.
Cliff Curtis, 57 anos completados no domingo (27), também nascido na Nova Zelândia com ascendentes maoris, foi um coadjuvante em O Amor e a Fúria e depois apareceu em inúmeras produções hollywoodianas, como Três Reis (1999), Efeito Colateral (2002), Sunshine: Alerta Solar (2007), Doutor Sono (2019) e Avatar: O Caminho da Água (2022). Na série do Apple TV+, Curtis encarna Keoua, filho preterido pelo rei da ilha Hawai'i, Kalani'opu'u, na sucessão do trono.
Os outros participantes foram os atores Kaina Makua, que faz o papel do rei Kamehameha (1736-1819), e Moses Goods, que interpreta Moku, principal conselheiro político do monarca, e as atrizes Luciane Buchanan, que vive Ka'ahumanu, filha de Moku e esposa de Kamehameha, e Te Ao o Hiniphinga, a Kupuohi.
Confira os principais trechos das entrevistas:
Temuera Morrison e Cliff Curtis

Senhor Morrison, o seu personagem, o rei Kahekili, é tão inteligente na estratégia quanto brutal na ação e se acha um escolhido do Deus do Trovão, a ponto de ter tatuado metade do corpo para ficar parecido. Por que homens são tão ferozes quando se sentem próximos do divino?
Temuera Morrison: Eu não sei.
Cliff Curtis: Ótima pergunta. Acho que não sou qualificado para responder, mas creio que os grandes líderes, como Kahekili... Acho que há muitos lados nesses grandes líderes. Eles não eram apenas violentos. Eles também eram encarregados de proteger suas terras porque havia forças externas que estavam vindo para o Havaí. Então, eles invocavam os deuses como uma forma de confiança para dizer que temos direito a nós mesmos. Esses conflitos continuam até hoje. Há uma força externa que está vindo para tomar suas terras e sua herança: você vai ficar parado e deixar isso acontecer? Acho que essa é parte da razão pela qual as coisas são tão violentas.
Naquela época, também havia rituais que se referiam à retribuição aos deuses, os sacrifícios. Tradicionalmente, no Havaí, tínhamos o tempo da guerra e também tínhamos o tempo do rongo, que é um tempo de paz. Não havia apenas uma guerra desenfreada. Se fosse um tempo de paz, as armas seriam deixadas de lado. Vale citar que, na série, há um grande conflito interno para o personagem e Jason Momoa, que quer desistir da guerra, mas é chamado para proteger sua família de um perigo iminente.
Mas a ganância, o querer mais do que é seu é uma parte triste da natureza humana. E isso é bíblico.
Luciane Buchanan e Te Ao o Hiniphinga

Luciane Buchanan, sua personagem, Ka'ahumanu, lida bastante com o aspecto espiritual da série. Eu li que você já visitou o local de nascimento de Ka'ahumanu e que, desde então, sente uma conexão pessoal e espiritual com ela. Pode falar sobre essa experiência?
Luciane Buchanan: Em outros trabalhos que fiz, nunca tive essa oportunidade. Você simplesmente lê o personagem, cria o personagem, vai para o set e faz o trabalho. Em Chefe de Guerra, havia algo que era tão espiritual, especificamente por filmar aqui, porque você sente a presença das guerras que aconteceram. É muito visceral. Então, definitivamente visitar o local de nascimento dela, conhecer com meus próprios olhos a região de onde ela veio, isso foi uma experiência única, e não tenho certeza se outro trabalho proporcionará essa experiência novamente.

Te Ao o Hiniphinga: Fiquei realmente surpresa com o quão pouco tinha aprendido sobre a história havaiana, mesmo tendo o privilégio de crescer em Aotearoa (o nome indígena da Nova Zelândia) e estar cercado por tanto da minha cultura na minha cidade natal. E perceber que esse não era um privilégio que todos os polinésios tinham foi algo que me partiu um pouco o coração e me fez querer me esforçar ainda mais para garantir que o programa fosse o melhor possível. O mundo precisa saber o quão bela é a cultura e a história daqui.
Moses Goods e Kaina Makua

Senhor Goods, seu personagem, Moku, ama seu povo e sua filha, Ka'ahumanu. Na trama, ele vai precisar envolver a filha no jogo político que ele precisa jogar, certo? Pode falar sobre as alianças e intrigas políticas de Chefe de Guerra?
Moses Goods: Nossa cultura é uma cultura tão complexa. Tudo está interligado. Tudo está entrelaçado, desde nossa espiritualidade até nosso sistema econômico, passando por nossas vidas pessoais. Tudo está entrelaçado nesse padrão. Então é assim que tento abordar. Ao mesmo tempo, porém, concentro-me em certas coisas, como o relacionamento que tenho com minha filha e como é difícil envolvê-la em todo esse tipo de trama ou esquema que tenho para levar as coisas adiante. Então, procurei um equilíbrio, sabendo que nossa cultura está tão entrelaçada com tudo, mas também deixando esses momentos humanos guiarem meu caráter.

Kaina Makua, você não era ator, mas um agricultor. Como foi deixar de ser apenas um espectador e trabalhar ao lado de grandes nomes da cultura polinésia, como Temuera Morrison, Cliff Curtis e Moses Goods?
Kaina Makua: O primeiro dia foi só tentar trabalhar com as câmeras, aprender a dançar com elas. E eu diria que na minha segunda filmagem ou na minha segunda cena eu já estava mais seguro, porque esse cara (Moses Goods) estava lá. Eu só observava o que ele fazia e tentava fazer exatamente como ele. Um grande momento foi uma cena no mar. Um arco-íris surge do nada, exatamente acima da minha cabeça. Por incrível que pareça, meu nome do meio é Anuenue, que significa arco-íris. E na nossa tradição, o arco-íris representa uma linha de liderança. Então, para mim, foi algo maravilhoso: de certa forma, aquilo sinalizou que eu estava fazendo meu trabalho direito. Estava interpretando Kamehameha da melhor maneira possível.
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