
Dois motivos explicam a longevidade da franquia iniciada há mais de 30 anos por Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (1993), de Steven Spielberg, e que nesta quinta-feira (3) lança nos cinemas seu sétimo longa-metragem de olho na continuidade — uma proposta expressa no próprio título: Jurassic World: Recomeço (Jurassic World: Rebirth, 2025).
Em primeiro lugar, há o fascínio provocado pelos personagens principais, embora às vezes pareçam somente coadjuvantes de luxo. Dinossauros, como disse o professor e paleontólogo paulista Luiz Eduardo Anelli, "nos transportam, em uma longa viagem pelo tempo, a um mundo totalmente diferente do que conhecemos. Foram animais exuberantes, alguns enormes, de anatomia esquisita, com armaduras, chifres, longas caudas e pescoços harmoniosamente projetados. O fato de não conhecermos completamente sua aparência e seus hábitos os revestem com mistérios e enigmas. E seus esqueletos estão escondidos nas rochas, o que torna o trabalho do paleontólogo fascinante, comumente realizado em regiões desérticas, selvagens e distantes, envolvendo perigos e desafios, além de jipes Land Rover estacionados em magníficos acampamentos empoeirados".
O segundo motivo não envolve palavras, mas números. A franquia já arrecadou US$ 6 bilhões, e quatro dos seis filmes atingiram a marca do bilhão nas bilheterias — o original e os três mais recentes: Jurassic World (2013), Jurassic World: Reino Ameaçado (2018) e Jurassic World: Domínio (2022).
Se dependesse da crítica, porém, os dinossauros do cinema já estariam extintos. Reino Ameaçado tem 47% de avaliações positivas no site Rotten Tomatoes e nota 51 no Metacritic. Domínio foi indicado em três categorias do Framboesa de Ouro: pior refilmagem ou sequência, pior atriz (Bryce Dallas Howard) e pior roteiro.
Escrito por David Koepp, roteirista de Jurassic Park e dos três últimos filmes de Steven Soderbergh, dirigido por Gareth Edwards, o mesmo de Godzilla (2014), Rogue One: Uma História Star Wars (2016) e Resistência (2023), e estrelado por Scarlett Johansson, o novo segmento largou mal junto à imprensa dos Estados Unidos. "Jurassic World: Recomeço tem um cineasta acima da média no comando, um roteirista de primeira linha, uma estrela de cinema genuína no modo herói de ação... Então por que diabos isso parece tão genérico, tão convencional, tão instantaneamente esquecível?", escreveu David Fear na Rolling Stone. "Pelo amor de Deus, alguma coisa pode, por favor, matar todos os dinossauros de novo?", bradou David Ehrlich no IndieWire.
Na verdade, nos últimos filmes da franquia os dinos praticamente só servem para ser mortos. Ou para matar. O fascínio transformou-se em prazer sádico. Os "animais exuberantes" citados pelo paleontólogo Anelli são condenados a devorar bandidos, a correr sem parar na caça aos mocinhos ou a brigar um contra o outro, em uma espécie de rinha de galo.

Quando não estão gerando medo e perigo, os dinossauros estão... atrapalhando o trânsito. É o que acontece no início de Recomeço, que flagra o personagem do ator Rupert Friend, Martin Krebs, representante de uma farmacêutica, preso em um engarrafamento em Nova York causado pela fuga de um brontossauro doente do zoológico.
O noticiário no rádio e a retirada de um outdoor fazem uma contextualização que é tanto autorreferencial quanto irônica: 32 anos depois de os dinos voltarem à vida (ou seja, desde a estreia de Jurassic Park, em 1993), a Terra mostrou-se inóspita aos animais pré-históricos, por causa do clima, das doenças etc. As criaturas, por sua vez, já não despertam o mesmo poder de atração junto ao público.

A mando da ParkerGenix, Krebs recruta a mercenária Zora Bennett (Scarlett Johansson) para uma missão secreta em um refúgio localizado na costa da Guiana Francesa, uma ilha onde vivem os dinossauros e a presença humana é proibida. A equipe inclui o paleontólogo Henry Loomis (Jonathan Bailey, o lorde Anthony da série Bridgerton e o Fiyero do musical Wicked), aluno do doutor Alan Grant interpretado por Sam Neill na franquia, e o navegador Duncan Kincaid (Mahershala Ali, ganhador do Oscar de melhor ator coadjuvante por Moonlight e por Green Book).
O objetivo reflete a gamificação de Hollywood: como se estivessem em um game, os personagens precisam localizar as três maiores espécies pré-históricas remanescentes do mar (o mosassauro), do ar (o quetzalcoatlus) e da terra (o titanossauro) para coletar DNA. O material genético será usado para desenvolver um remédio de prevenção das doenças cardíacas, garantindo lucros enormes para a farmacêutica que contratou Zora.

No caminho, porém, a turma vai cruzar com sanguinários dinossauros mutantes e uma família de turistas, os Delgado, que não apenas carecem de carisma: levantam perguntas sobre verossimilhança do roteiro e suspeitas sobre motivações puramente mercadológicas, conforme apontou o crítico Guilherme Jacobs no Omelete. Como o barco passou pelas patrulhas internacionais que supostamente existem em torno da ilha? Por que o pai, Reuben (Manuel Garcia-Rulfo, protagonista da série O Poder e a Lei), achou que seria uma boa ideia navegar entre mosassauros com a filha mais velha, Teresa (Luna Blaise), o namorado insuportável dela, Xavier (David Iacono), e a caçula, Isabella (Audrina Miranda)?
Esta última personagem parece estar ali só para desenvolver amizade com um dinossaurozinho que, na vida real, deve virar brinquedo. Ainda que eivada por interesses comerciais, essa ligação de Isabella com a criaturazinha é um dos raros momentos em que os humanos de Jurassic World: Recomeço demonstram alguma empatia e algum respeito para com os dinossauros. Outro é quando o paleontólogo Henry deixa-se admirar diante da vasta fauna que enfim pode ver com os próprios olhos.

De resto, os dinos do filme são retratados como meros obstáculos ou fases de um jogo. E é um jogo bastante repetitivo na comparação com os títulos anteriores, a despeito da qualidade da computação gráfica, e previsível, o que anula o risco emocional. Nenhuma cena me marcou, a não ser por razões ruins: a tentativa de humor com a mastigação barulhenta de Henry durante um momento de tensão resultou em um silêncio constrangedor na sessão para a imprensa. Pior do que uma piada ruim é uma piada de que ninguém ri.
Desprovido de humor, Jurassic World: Recomeço tampouco fala sério. Fora o lugar-comum sobre a vilania das farmacêuticas, não faz nenhum tipo de reflexão crítica. A não ser de forma não intencional: o filme acaba convidando a lembrar de uma franquia semelhante, mas muito mais robusta do ponto de vista artístico, a de Planeta dos Macacos.
Nossa relação com a natureza e com o reino animal não é de convivência, de harmonia; está pautada pelo descaso, pela exploração, pela violência. Somos imprudentes, gananciosos, invasores, belicistas, traiçoeiros. Nós é que seríamos uma ameaça aos dinossauros se eles voltassem a existir.
É assinante mas ainda não recebe minha carta semanal exclusiva? Clique aqui e se inscreva na newsletter.
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano





