
Fundada em 2018 e com sede em Porto Alegre, a produtora Vulcana Cinema está vivendo um ano de muito trabalho — já estreou quatro filmes e tem seis projetos em desenvolvimento, em pós-produção ou à espera de lançamento no circuito comercial — e de muita felicidade.
— Estamos celebrando nosso melhor momento — diz Jessica Luz, 41 anos, sócia de Paola Wink, 37, na Vulcana, que já produziu filmes premiados como os documentários Castanha (2014), de Davi Pretto, 5 Casas (2020), de Bruno Gularte Barreto, e Memórias de um Esclerosado (2024), de Thais Fernandes e Rafael Corrêa, e as ficções Rifle (2016), de Davi Pretto, Tinta Bruta (2018), de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, e O Acidente (2022), de Bruno Carboni.
Em 2025, a Vulcana já lançou filmes em três dos principais — e mais antigos — festivais do mundo.

O primeiro filme foi Ato Noturno, suspense erótico rodado em Porto Alegre pela dupla Filipe Matzembacher e Marcio Reolon que competiu na mostra Panorama da 75ª edição do Festival de Berlim, a Berlinale, em fevereiro (clique aqui para saber mais).
Em maio, foi a vez de A Cobra Negra estrear mundialmente na mostra Acid, dedicada a projetos independentes, do 78º Festival de Cannes. Trata-se de uma coprodução internacional filmada na Colômbia por um cineasta francês, Aurélien Vernhes-Lermusiaux. A trama acompanha Ciro, que, após anos de ausência, volta para o deserto colombiano de Tatacoa para ficar com sua mãe em seu leito de morte. "Enquanto confronta as pessoas que abandonou e um legado ancestral", diz a sinopse, "os últimos guardiões do deserto rondam por uma terra tão sublime quanto frágil".

Em julho, o diretor Davi Pretto apresentou Futuro Futuro no 59º Festival de Karlovy Vary, na República Tcheca, a quinta competição mais antiga da Europa — começou em 1946, mas ocorria ano sim, ano não entre 1959 e 1993. É o quarto longa de Pretto, que em 2024 lançou o terror Continente, também produzido pela Vulcana.
— Futuro Futuro é uma ficção científica nada convencional e de baixíssimo orçamento sobre uma distopia IA em um futuro próximo no Brasil, onde uma nova síndrome neurológica afeta parte da população — conta Paola Wink. — O filme reflete sobre os perigos cognitivos e políticos dos avanços da inteligência artificial, tecnologia que tem mudado o mundo do trabalho, das relações sociais e alterado a nossa percepção do que é real e o que não é. Ao mesmo tempo, o filme se debruça sobre os desafios e limitações do próprio fazer cinema independente em um mundo transformado por catástrofes climáticas constantes e por imagens artificiais que redefinem radicalmente nosso olhar e nosso imaginário.

Jessica acrescenta, dando contexto:
— Futuro Futuro foi criado e desenvolvido durante a pandemia, durante a crise do governo de Jair Bolsonaro, quando o nosso país estava dividido em dois. Foi essa a motivação principal do Davi Pretto para criar esse filme, um projeto com orçamento reduzidíssimo desenvolvido em um momento em que a indústria do cinema estava completamente devastada. O Davi trouxe essa ideia e aí fomos contemplados com um edital do FAC do Rio Grande do Sul, em parceria com o Fundo Setorial. A gente estava com esse projeto financiado há um bom tempo, mas impossibilitados de gravar, por causa da pandemia. Naquele momento, o mundo já era outro: ainda dividido, mas com questões de inteligência artificial muito fortes que também dividem a gente, algo que o Davi trouxe com ainda mais peso pro filme. E como se não bastasse a pandemia, a gente teve a enchente em Porto Alegre que foi devastadora para as pessoas, para a nossa indústria, para o nosso trabalho. Durante as filmagens de Futuro Futuro, fomos diretamente impactados, pois estávamos filmando no centro de Porto Alegre quando a água subiu. Tivemos que interromper as filmagens, o que nos abalou profundamente, tanto emocionalmente quanto financeiramente.
Em setembro, a Vulcana vai participar do Festival de Toronto, no Canadá, com Novembro, de Tomás Corredor Pulido, uma parceria com produtores colombianos, mexicanos e noruegueses. A trama é baseada na história da tomada do Palácio da Justiça da Colômbia, em 1985, por guerrilheiros do M-19.
O quarto filme já lançado pela produtora em 2025 foi o média-metragem Família em Construção, de Daniel Candido de Bem, uma coprodução com a TV Globo exibida em fevereiro pela RBS TV.

Também em setembro, deve estrear no circuito comercial Bicho Monstro (2024), uma coprodução da Vulcana com a Casa de Cinema de Porto Alegre. Dirigida por Germano de Oliveira, a história é ambientada em um vilarejo rural de colonização alemã, no interior do Rio Grande do Sul. A narrativa segue Ana, uma criança que se impressiona com uma peça de teatro sobre o Thiltapes, uma criatura misteriosa da região. Duzentos anos antes, um botanista alemão também ouviu histórias sobre esse animal. A trama mostra como ele e a pequena Ana perseguem a mesma criatura.
A produtora está tocando outros quatro projetos. Já em fase de pós-produção, Talismã, da diretora Thais Fujinaga, de A Felicidade das Coisas (2021), traz no elenco Fernanda Chicolet, Allan Souza Lima e Stepan Nercessian e foi rodado entre Guaíba e Porto Alegre no primeiro semestre deste ano. O longa conta a história de uma dançarina talentosa que nunca teve seu dom reconhecido e que entra em crise ao ver sua filha alcançar a fama em um reality show de talentos mirins.

Madre Pájaro, de Sofía Quirós Úbeda, foi filmado neste ano na Costa Rica, com gaúchos na equipe técnica. O filme se passa em um povoado árido voltado à pecuária, onde o personagem Oliver passa alguns dias com a tia, enquanto sua mãe recebe tratamento para uma doença na capital. Quando os pais voltam para casa, o estado de saúde da mãe piora. À medida que Oliver começa a sentir uma forte rejeição pela doença dela, ele se apega cada vez mais à tia, projetando nela a fantasia de uma nova mãe.
Em desenvolvimento, estão o longa Grave, com direção e roteiro de Leonardo da Rosa, e a série Amora, escrita por Thais Guisasola e Julia Anquier e dirigida por Juliana Rojas, de Sinfonia da Necrópole (2014) e Cidade; Campo (2024). Segundo a sinopse, trata-se de "uma antologia comi-dramática que aborda relações contemporâneas de amor e afeto entre mulheres. Unidas pelo tema e pela linguagem, as pequenas histórias sobre o universo lésbico da cidade fictícia de Amora apresentam situações inusitadas de descobertas sexuais, traições, envelhecimento, preconceitos, paixões, maravilhamento, medos e amores das personagens".
"Somos uma empresa pequena e ambiciosa"

Confira uma entrevista que Jessica Luz e Paola Wink, da produtora Vulcana Cinema, concederam por e-mail:
Quando, por que e como surgiu a Vulcana?
Jessica Luz: A Vulcana surgiu em 2018. Tanto eu quanto a Paola já trabalhávamos com as nossas empresas desde o começo dos anos 2010, produzindo filmes com relevância internacional e de perfis semelhantes. Até que a Paola me procurou: ela tinha feito um curso no Exterior e veio com a ideia de a gente se unir. Como a gente tinha um perfil tão semelhante, unindo forças teríamos um potencial de alcance e de produção muito maior.
Paola Wink: Percebemos que trabalhávamos com filmes da mesma linha, que tínhamos similaridades de pensamento de produção, de tipos de cinema e de experiência internacional. E então pensamos: por que não somar forças e trabalhar juntas? E assim surgiu a Vulcana, com o desejo de unir forças. Estamos fechando nosso sétimo ano de parceria e estamos celebrando nosso melhor momento. Em 2025, estreamos três longas nos principais festivais internacionais: Berlinale, Cannes e Karlovy Vary. E já temos um quarto longa confirmado em um dos principais festivais do segundo semestre (a entrevista foi concedida antes do anúncio da seleção de Novembro pelo Festival de Toronto). Sabemos que isso é muito difícil de acontecer, assim, na sequência e em um mesmo ano. Estamos felizes e muito gratas por essas oportunidades.
Por que o nome Vulcana?
Jessica: Eu sempre tive paixão por vulcões. Uma das coisas que mais me emocionam na vida é viajar e ver um vulcão, a ideia dessa erupção, dessa força debaixo da terra. Para mim, ela é muito potente. Discutindo muitas possibilidades de nome para a produtora, chegamos na ideia dessa força estrondosa, dessa potência que é o vulcão. E claro, como é uma produtora de mulheres, feminina e com foco em projetos femininos, acreditamos que o nome Vulcana, com A no final, era o ideal.

Se vocês fossem resumir a produtora a uma frase, qual seria?
Jessica: Aquela máxima da união faz a força, para mim, é o que resume a minha parceria com a Paola. Somos duas mulheres extremamente produtivas, apaixonadas pelo que fazemos e com muita ambição. Então, a Vulcana é uma empresa pequena e ambiciosa, conduzida por duas mulheres que são apaixonadas pelo que fazem.
Paola: Uma empresa que se interessa em criar pontes entre os nossos filmes do Rio Grande do Sul e o mundo, bem como trazer filmes internacionais para serem feitos com talentos daqui.
Três dos longas que estrearam neste ano ou que foram filmados em 2025 três são coproduções internacionais. Podem falar sobre como a Vulcana estabeleceu essas conexões?
Paola: Desde o início da minha carreira como produtora, sempre olhei para o mercado internacional, e isso veio muito da minha participação em laboratórios de desenvolvimento de projetos e mercados internacionais como Brlab, Brasil Cinemundi e EAVE Puentes. Foram essenciais para a minha formação como produtora, tive oportunidade de conhecer outros profissionais que eventualmente se tornaram parceiros e colaboradores. Para nós, é muito fascinante trabalhar em colaboração com outros países, aprendemos muito, trocamos experiências e culturas. Cada país tem suas formas de trabalhar e enfrenta desafios diferentes. Recentemente, filmamos um longa na Costa Rica e outro na Colômbia, profissionais gaúchos participaram das filmagens e depois, na pós-produção, profissionais estrangeiros vieram ao Brasil para finalizar o filme aqui. O processo é muito rico e estamos sempre aprendendo com cada filme.
Jessica: Além dessa vontade de fazer projetos com uma curadoria muito atenciosa, cuidadosa, uma relação especial com os diretores, que a gente estabelece em todas as etapas de uma produção audiovisual, a coprodução internacional é algo que está na essência da Vulcana. Há muito tempo, quando a gente se uniu para criar a empresa, eu já tinha feito algumas coproduções com Alemanha, Argentina e Uruguai. Então, eu estava com muitos desejos e curiosidades sobre trabalhar com pessoas de fora nesse intercâmbio. E aí, a Paola chega também com experiências muito interessantes, também tendo coproduzido com França, Argentina e Alemanha. Resolvemos, então, tocar juntas esse barco, que é super desafiador, mas também muito recompensador, que é a coprodução internacional. Eu considero que hoje em dia o DNA da empresa são as coproduções internacionais. Nem todos os projetos são realizados com outros países porque nem sempre um projeto precisa ser feito em colaboração internacional, mas a maioria dos nossos filmes conta com parceiros de fora, como Colômbia, México, Argentina, França, Alemanha, Uruguai, Chile. São projetos que se fortalecem muito com essa parceria internacional, não só financeiramente, mas também criativamente.

No currículo da produtora, se destaca o ecletismo: tem suspense erótico, tem comédia, tem ficção científica de baixíssimo orçamento, tem documentário, tem terror, tem drama... Existe algum gênero ou formato em que a Vulcana NÃO se aventuraria?
Jessica: Eu não diria que a produtora é eclética por causa dos gêneros, porque o perfil do que buscamos é muito claro: projetos para uma audiência mais cinéfila, mas também que tratem de questões universais e que tenham potencial para ocupar um espaço nos festivais internacionais. Por isso, estamos abertas a diferentes gêneros. A gente busca sempre se conectar com os projetos, gostar do roteiro/argumento e também valorizamos muito as experiências pregressas dos diretores. Eu e a Paola discutimos juntas tudo que chega para a gente, pois as duas precisam gostar do projeto para entrar, como se trata de um envolvimento muito intenso e de anos. Eu acho que, em termos de formato, basicamente a gente trabalha com longa-metragem e algumas séries com assinatura, como o Amora, com direção da Juliana Rojas, que vamos gravar no segundo semestre e será veiculado no Canal Brasil. Talvez apenas animação seja um gênero em que não nos aventuramos….
Paola: Amamos cinema e amamos o que fazemos. Para entrarmos em um projeto, o principal é que a gente se conecte com a história, com a forma e com a estética que os criadores propõem, independentemente do gênero do filme. Além disso, é fundamental a conexão que estabelecemos com os diretores e roteiristas. Gostamos muito de trocar criativamente, participamos de todas as etapas de desenvolvimento, e ter diretores e roteiristas abertos a esse tipo de colaboração é uma parte essencial do trabalho.
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