
Os incontáveis fãs da Legião Urbana acabam de ganhar um presente: Será!, livro sobre os bastidores da gravação do primeiro disco da banda. O olhar é muito íntimo: o autor, José Emilio Rondeau, foi justamente o produtor do álbum que em 2025 comemora seu 40º aniversário.
Publicado pela Máquina de Livros, com 112 páginas e ao preço de R$ 65, Será! destaca em seu subtítulo três características das gravações realizadas de julho a novembro de 1984 nos estúdios da EMI-Odeon, no Rio de Janeiro: Crises, Genialidade e um Som Poderoso.
Antes de Rondeau assumir a bronca, trazendo na bagagem mais a sua experiência como crítico de música do que como produtor musical, o vocalista Renato Russo (1960-1996), o guitarrista Dado Villa-Lobos e o baterista Marcelo Bonfá se desentenderam com dois craques da indústria fonográfica: Marcelo Sussekind, que havia trabalhado no segundo disco dos Paralamas do Sucesso, O Passo do Lui (1984), e Rick Ferreira, que tinha tocado guitarra, violão e piano em todos os álbuns de Raul Seixas (1945-1989).
Depois, às vésperas das gravações, o trio virou um quarteto com a entrada do baixista Renato Rocha (1961-2015), o Negrete, o que provocou uma dessintonia com Bonfá. O baterista, a propósito, certa noite afrontou Rondeau de tal maneira que o produtor chegou a tomar o impulso de abandonar o trabalho.

Será! reconstitui o ambiente turbulento onde foram gestadas pérolas do rock nacional. São deste disco Será, Geração Coca-Cola, Ainda É Cedo, Por Enquanto e Soldados. Além de recorrer às próprias lembranças, José Emilio Rondeau, que completa 69 anos no dia 27 de junho, também conversou com os legionários Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, Fernanda Villa-Lobos, que era empresária da banda, Mayrton Bahia, então diretor de produção da EMI-Odeon, e Amaro Moço, técnico de som escalado para a gravação.
A fricção entre as memórias e opiniões dessa turma enriquece o livro, que ao final detalha música a música pelo olhar (e pelo ouvido) de quem estava lá.
"Geração Coca-Cola" foi a música mais difícil

Por e-mail, José Emilio Rondeau, autor do livro Será!, sobre os bastidores da gravação do primeiro disco da Legião Urbana, concedeu a seguinte entrevista à coluna:
Como surgiu a ideia de escrever um livro sobre a gravação do primeiro disco da Legião Urbana?
A faísca veio de uma provocação de Sérgio Ruiz, diretor da Veja, para onde colaboro ocasionalmente. No ano passado, ele me lembrou que estava chegando o aniversário de 40 anos do disco, e que valia um livro contando os bastidores da gravação. A Máquina de Livros topou a ideia e juntos criamos um livro que não só mostra a gênese e a feitura do disco, mas que também contextualiza aquele período de tempo, com algumas pílulas exemplificando o que estava acontecendo no país e no mundo, em termos de cultura pop, economia e política.
No livro, você cita a "convicção cega de que teria como contribuir" e a "arrogância abençoada da juventude" como fatores que o levaram a procurar a EMI-Odeon com o intuito de produzir o disco da Legião Urbana. Pode falar sobre o que mais te impressionou ao ouvir a lendária fita cassete que chegou a suas mãos por intermédio do Tom Leão?
É importante notar que antes que eu recebesse a fita demo a Legião tinha já uma carreira de shows e fitas cassete que vinha gerando um público considerável, inclusive em São Paulo e no Rio de Janeiro, embora, principalmente, lógico, em Brasília. Só que eu pouco ou nada sabia dela, apenas o que Hermano Vianna havia escrito sobre o rock de Brasília para a Pipoca Moderna, revista da qual eu era um dos fundadores e editores. Maurício Valladares tocava demos da Legião desde 1983, em seu programa na Rádio Fluminense, o Rock Alive, mas eu ainda não tinha me atentado à banda. Daí a surpresa ainda maior com aquela fita que Tom Leão me entregou: nunca tinha ouvido uma banda de rock brasileira com tamanha verve, verdade, sangue nos olhos, letras certeiras e cortantes mas de assimilação imediata. E tinha um puta cantor, uma voz como nenhuma outra, possante, feroz.
Por que, como diz o livro, a Legião Urbana é a maior banda brasileira de todos os tempos? Que tipo de herança ela legou ao rock nacional?
Tem aquela célebre frase do jornalista Jon Landau, quando escreveu: "Vi o futuro do rock e ele se chama Bruce Springsteen". Através daquela fita eu vi o futuro do rock brasileiro. E ele se chamava Legião Urbana. E o vaticínio se confirmou: nenhuma outra banda de rock representou melhor a mudança de ares no país, pós-ditadura, pondo em movimento uma verdadeira fábrica sem precedentes de hinos-rock que falavam do seu tempo e do que se passava na cabeça e no coração de seu público, sempre de uma forma verdadeira e poderosa.

Se você tivesse de apresentar a Legião Urbana para um marciano, que música tocaria e por quê?
Será, sem dúvida. É uma declaração de princípios, um desafio ("tire suas mãos de mim, eu não pertenço a você"), e uma pérola de pop e rock condensado em pouco menos de dois minutos e meio. Ali tem a Legião afinada e em ponto de bala, tem influência dos Beatles, tem Renato Russo conjurando alguns dos seus melhores desempenhos vocais, e de todo o rock feito no Brasil. É enxuta, sem um pingo de gordura, redondinha, arrepiante.
Uma das coisas mais bacanas do livro são as revelações de bastidores; Será! pode mostrar para o público leigo como é complexo o processo de gravação de um disco, seja pela difícil mas necessária sintonia que precisa existir entre a banda e o produtor e os técnicos de som, seja pelas decisões que devem ser tomadas sobre instrumentação, uso de overdubs, harmonizações vocais, mixagem etc. Qual foi a parte que deu mais dor de cabeça?
O desafio é sempre buscar as melhores formas de apresentar o artista e sua música ao público de uma forma clara e forte. E a Legião tinha muitas facetas, de punk rock de raiz a pop, a baladas românticas, daí a importância de se optar por fazer não um compacto, que teria duas faixas, mas um álbum, onde se pudesse expor todos os ângulos da Legião. E tudo isso só pôde ser mostrado graças ao trabalho duro de todo mundo, durante meses, para se encontrar as melhores versões, os melhores arranjos, as melhores interpretações de cada faixa. Sempre digo que a feitura desse disco funcionou como um intensivão para a Legião. Ela entrou de um jeito no estúdio e saiu de outro, mais madura, mais segura de si, mais afiada, mais aprimorada. E o disco documentou esse processo.
Pensando nesse leitor leigo, como você define o papel e o tamanho de um produtor em relação ao artista?
O produtor é um catalizador do melhor do artista, aquele que ajuda a tirar do mármore sonoro, digamos assim, tudo aquilo que não é a escultura que se pretende fazer para apresentar o artista com quem se trabalha. Pode ser um craque em engenharia de som, pode ser um músico (ou um músico que também entende de engenharia de som), ou pode ser um palpiteiro com décadas ouvindo discos e vendo shows que consiga dar pistas de caminhos a trilhar a partir das músicas e dos artistas que estão ali no estúdio. E o produtor não deixa de ser um analista, também, porque sempre há o elemento psicológico a ser levado em conta: nervosismo, marra, medo, convicção inabalável, tudo isso entra em jogo. E um diplomata, quando necessário.
Qual foi a música que deu mais trabalho? Por quê?
Talvez Geração Coca-Cola. Porque era para ter sido a mais fácil e mais óbvia de se fazer. Era uma das músicas-assinatura da banda nos shows. Mas no estúdio ela não engrenava. Foram necessários meses e meses de tentativa e erro para ela ficar chegar a sua forma ideal. Até uma versão tipo Whisky A Go-Go, do Roupa Nova, a gente aventou. Meio que de brincadeira, de deboche, mas a ideia pipocou no ar. E, como acontece nesses casos, ela acabou se encaixando nos minutos finais do segundo tempo da prorrogação, na adrenalina de "é agora ou nunca, o tempo está terminando", o que dá a ela uma urgência toda especial.
O baixista Renato Rocha é uma figura controversa. No livro, o baterista Marcelo Bonfá diz que a chegada do novo integrante teve um efeito negativo na banda, mas a produtora Fernanda Villa-Lobos aponta que Negrete enriqueceu musicalmente a Legião Urbana, acrescentando que Dado e Bonfá "não tocavam bem" e tinham "tirado um bilhete premiado de loteria". Como você via a relação de Renato Russo, Dado e Bonfá com Renato Rocha?
Para mim, sempre pareceu uma relação harmoniosa. Todos trabalhavam muito bem juntos. A tensão entre Bonfá e Negrete não me era visível ou audível, só vim a saber dela agora, fazendo as entrevistas para o livro. De todo modo, considero Negrete um elemento valiosíssimo na química daquele primeiro disco e dos outros de que participou, para não mencionar os shows.

No mesmo capítulo sobre Renato Rocha, você cita quase en passant o episódio em que Renato Russo cortou os pulsos, às vésperas da gravação do disco. Considerando que o livro reconstitui os tumultuados bastidores dessas gravações, por que este momento dramático não chega a ser detalhado como tantos outros? Teve menos impacto do que pode supor?
Tampouco soube disso antes ou durante a gravação. É algo que não me foi trazido na hora de gravar o disco. Apenas soube que a partir daquele momento havia um quarto elemento na banda (Renato Rocha), até então um trio.
O livro também fala bastante de como era difícil lidar com Bonfá, personagem do momento mais crítico das gravações, quando você chegou a pensar em largar tudo. Com o passar do tempo, como ficou a relação entre vocês dois?
No geral, a relação com todos da banda foi amigável, embora com Dado tenha havido um convívio maior, ao longo dos anos. Mesmo assim, não muito depois do lançamento do disco eu saí do Brasil e fui morar em Los Angeles, onde fiquei por duas décadas. E aquilo me distanciou bastante deles.
Gostaria de saber se é uma revelação do livro a história sobre Daniel na Cova dos Leões. E você consegue especular o que teria sido a Legião se Renato Russo tivesse levado adiante a ideia dessa canção já no primeiro disco?
Não chamaria de revelação, mesmo porque já disse isso em entrevistas e depoimentos sobre a Legião que dei nos últimos anos. O que eu sei é que teria sido um erro gigante ter insistido em lançar aquela música com arranjo tecnopop, ainda mais como primeiro single, porque não era o melhor abre-alas para a Legião, menos ainda o cartão de visitas ideal. Teria dado uma ideia completamente distorcida do que era a banda. O melhor foi mesmo tê-la engavetado para ela marinar e ressurgir sob sua melhor forma.

Você tem uma música preferida nesse primeiro disco? Qual e por quê?
Será. É perfeita do começo ao fim, a mais matadora de todo o disco, tem um som bem lapidado, é um petardo pop-rock super bem amarrado, forte, com ares de hino e cheia de romantismo.
E na carreira toda a Legião, qual é sua música preferida?
Será, de novo, pelos mesmos motivos. É a mais bem resolvida, encapsula tudo aquilo que eu havia imaginado para o som da Legião. E tem os vocais que me fizeram chorar de emoção no estúdio quando Renato soltou a voz para concluir a gravação da faixa. Nada daquilo que ele fez tinha sido conversado, combinado, esquadrinhado. Estava tudo prontinho na concepção dele e saiu de primeira, ali, na minha cara, a dois metros de distância, com força total.
Depois do lançamento do disco, como foi sua relação com a banda? Nunca pensou em voltar a produzi-los?
Não, nossas vidas bifurcaram e cada um se ocupou de suas coisas. Voltei a trabalhar com eles em 1986, mas dirigindo o videoclipe para Tempo Perdido.
Quarenta anos depois, o que você faria de diferente naquele disco? Se é que faria.
Faria tudo de novo, com prazer. Mas me rebelaria contra a bronca de Renato contra o uso de eco na voz, turbinaria o baixo, distorceria um tantinho mais as guitarras.
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