
A plataforma de streaming Reserva Imovision adicionou recentemente ao seu menu Babenco — Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou (2020), filme de Bárbara Paz que recebeu o troféu de melhor documentário no Festival de Veneza e foi o escolhido do Brasil para tentar uma vaga no Oscar internacional de 2021. É um filmaço sobre o amor de uma mulher por um homem, o amor de um diretor pela vida e o amor da gente pelo cinema.
Atriz e diretora gaúcha, Bárbara, hoje com 50 anos, é viúva de Héctor Babenco (1946-2016), argentino naturalizado brasileiro que concorreu ao Oscar de melhor direção por O Beijo da Mulher-Aranha (1985) — título também disponível na Reserva Imovision. O documentário reproduz o momento em que, na cerimônia de premiação da Academia de Hollywood, a atriz Barbra Streisand anuncia os cinco indicados: Babenco, então com 39 anos, ombreia com os gigantes Akira Kurosawa e John Huston.
O Beijo da Mulher-Aranha valeu o Oscar de melhor ator para William Hurt. A obra seguinte de Babenco, Ironweed (1987), também disputou o troféu — Jack Nicholson e Meryl Streep receberam indicações a melhor ator e a melhor atriz.
Em sua estreia como diretora de longas-metragens, Bárbara fez uma inventiva e poética homenagem ao cineasta que morreu aos 70 anos, de parada cardiorrespiratória, e que havia enfrentado durante oito anos um câncer linfático. Um grande acerto foi equalizar, em preto e branco, a fotografia tanto das sequências documentais quanto dos trechos de filmes do diretor, todos originalmente coloridos, de modo que temos a impressão de estar vendo uma obra orgânica.
Nesse sentido, é exemplar a colagem de cenas em que personagens de Babenco, como o protagonista de Pixote: A Lei do Mais Fraco (1981), o Molina de O Beijo da Mulher-Aranha e um dos presidiários de Carandiru (2003), aparecem correndo. É uma corrida pela sobrevivência, como a empreendida pelo cineasta.

O documentário começou a ser produzido quando Babenco percebeu que não teria mais muito tempo de vida, então, está repleto de memórias e reflexões, medos e anseios. Flagrado na intimidade do lar ou numa intimidante cama de hospital, onde sua voz por vezes não acompanha a velocidade do pensamento, ele literalmente se desnuda, como prenuncia uma das primeiras cenas, em que, sem camisa, explica à esposa o jeito adequado de usar uma câmera para conseguir focar tanto o personagem quanto o background, o fundo, o todo.
O todo. Isso é impossível de capturar, o cineasta também ensina a Bárbara, brincando que ela não pode fazer de "A Morte de Héctor" uma saga interminável e retomando, inconscientemente, o que aprendera na adolescência em Mar del Plata, sua cidade natal, ao ganhar de presente sua primeira lente:
— Serve para enquadrar. E ver só o que te interessa ver.
Mas Bárbara Paz, em apenas 73 minutos, conseguiu dar conta de retratar a carreira de 40 anos e 10 longas de ficção de Babenco, desde O Rei da Noite (1975) até Meu Amigo Hindu (2016). Aliás, são dois filmes mais próximos do que aparentam ser, e que formam uma espécie de trilogia da memória e da morte com este Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou.

Em O Rei da Noite, Tertuliano (interpretado por Paulo José) narra sua própria história, da infância à velhice. Em Meu Amigo Hindu, o ator estadunidense Willem Dafoe encarna um personagem que representa o próprio Babenco — um cineasta que descobre um câncer em estado terminal e faz à Morte (Selton Mello) um último pedido: realizar mais um filme.
— A vontade de fazer cinema é também a vontade de estar vivo — declara Babenco em uma passagem do documentário. — Estar filmando é estar vivendo. Não sei o que vinha primeiro, o filmar ou o estar vivo.
Babenco sabia transformar suas jornadas pessoais em experiências coletivas. Vide os sucessos de público de Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), 12ª maior bilheteria nacional, com 5,4 milhões de espectadores, Carandiru (4,7 milhões), Pixote (2,5 milhões) e O Beijo da Mulher-Aranha (1,7 milhão).
Para ele, o cinema era um refúgio, uma tela onde podia refletir sobre seus problemas identitários. Babenco dizia que "ser judeu é não ser nada, é não pertencer, não ter nascido num lugar, é ouvir seus pais falarem uma língua, o iídiche, que não se escuta na rua" (mais tarde, em uma entrevista para a TV, o diretor, entre a ironia e o lamento, afirmou que os argentinos o consideravam brasileiro, e os brasileiros o consideravam argentino). O cinema era um espaço escuro onde podia encontrar, nas suas palavras, proteção e distração.
O cinema era também um território mágico onde, como os filmes de Babenco mostraram, nossos piores pesadelos podem ser reencenados, mas, também, a dor pode ser transmutada em fantasia.
Um lugar onde, como visto nas últimas cenas do filme de Bárbara Paz, podem se fundir imagem e som, memória e imaginação, o choro pela saudade e o riso pelas lembranças boas, o Libertango de Astor Piazzolla e um quarto de hotel em Hong Kong, a morte e a permanência.
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