
Disponíveis desde sexta-feira (27) na Netflix, os seis episódios da terceira temporada de Round 6 começam exatamente de onde a segunda parou. O protagonista Gi-hun (Lee Jung-jae), o número 456, está no fundo do poço — e é um poço muito fundo.
Sua campanha para convencer os jogadores a votarem pelo fim do jogo não surtiu efeito, e sua rebelião armada terminou em chacina perpetrada pelos guardas de uniforme rosa. O golpe final foi ver, a um palmo de distância, a execução de seu melhor amigo, Jung-bae.
Será que o sistema nunca poderá ser vencido? Será que Gi-hun terá de vergar seus princípios morais em nome da sobrevivência? Será que In-ho (Lee Byung-hun), o Front Man/Líder, vai ganhar a batalha ideológica encenada pelo diretor e roteirista sul-coreano Hwang Dong-hyuk, provando ao personagem principal que não dá para acreditar na humanidade?

Isolado entre os jogadores restantes — a maioria deles partidária da continuação dos jogos —, Gi-hun tornou-se uma figura sorumbática. Quase não reage aos acontecimentos a seu redor. Mas logo o protagonista será forçado a tomar decisões cruciais, porque o jogo não para. E só piora.
Enquanto isso, In-ho reassume seu papel como Front Man/Líder para receber os VIPs, que são os personagens menos interessantes de Round 6, e seu irmão, o policial Jun-ho (Wi Ha-joon), segue em sua busca pela ilha secreta, que é a subtrama menos interessante de Round 6.

Os VIPs são muito caricaturais, condição reforçada pelas máscaras carnavalescas e pelo inglês artificial dos diálogos. Bem, talvez essa seja a intenção de Dong-hyuk: ridicularizar a elite, mostrar sua futilidade e sua desumanidade. O único ponto positivo de suas cenas é que, a cada vez que eles abrem a boca, ampliam a distância que, suponho, existe entre esses personagens e os espectadores. Se somos voyeurs do suplício, somos pelo menos um pouquinho melhores do que aqueles escrotos.
Jun-ho, por sua vez, empreende uma investigação inútil aos nossos olhos: já sabemos tudo o que ele quer descobrir. As cenas de ação e as reviravoltas são pura encheção de linguiça.
Embora a atiradora desertora da Coreia do Norte No-eul (Park Gyuyoung) desperte uma empatia cautelosa (sim, a guarda tenta salvar um jogador, mas não dá para esquecer que ela integra o pelotão de fuzilamento), os personagens interessantes e as subtramas interessantes se desenvolvem no âmbito dos jogos. É nas arenas e no dormitório que flagramos dramas individuais ou coletivos, alianças ou conflitos, redenções ou quedas.

Um trunfo da terceira temporada em relação às duas anteriores é a permanência de muitos dos jogadores que já havíamos conhecido. Seguem no jogo, por exemplo:
- Myung-gi, o número 333 (Ym Si-wan), um ex-influenciador do mercado de criptomoedas;
- Jun-hee, a número 222 (Jo Yuri), jovem grávida do mesmo rapaz;
- Cho Hyun-ju, a número 120 (Park Sung-hoon), mulher trans atrás do prêmio para pagar suas cirurgias de afirmação de gênero;
- Im Jeong-dae, o número 100 (Song Young-chang), idoso que deve 10 bilhões de wons (ou seja, quase 20% do montante total se houver um único ganhador) e que, por isso, defende sempre a continuação da disputa, mesmo que falte a ele destreza e coragem;
- Seon-nyo, a número 44 (Chae Gook-hee); que assegura ter poderes xamânicos;
- Nam-gyu, o número 124 (Roh Jae-won), que era cupincha do rapper Thanos;
- Min-su, o número 125 (Lee Da-wit), um covarde de carteirinha;
- Yong-sik, o número 007 (Yang Dong-jeun), um jogador compulsivo, e sua mãe, Geum-ja, a número 149 (Kang Ae-sim), que entrou nos jogos para ajudar o filho a quitar suas dívidas.
Só por serem remanescentes eles já se tornam familiares a nós: ao menos com a turma do bem, criamos um laço afetivo que, quando é rompido, dói pra caramba.
Os jogos da terceira temporada estão mais engenhosos, mais letais — e mais coletivos, o que aumenta o risco e a imprevisibilidade. Prevalecerá a estratégia, o destemor, a força, o acaso ou a traição?
O clímax de Round 6 não está exatamente no último jogo, cujo resultado é um tanto presumível, assim como são razoavelmente esperadas as consequências (surpresa mesmo é a participação de um grande nome de Hollywood). Em dramaticidade, nada supera o segundo episódio, cujo título meio bucólico, meio poético — Noite Estrelada — contrasta com a ferocidade e a implacabilidade da prova imposta aos jogadores.
Cheguei a passar mal ao assistir. Acho que é o episódio mais sufocante e mais chocante de todos da série.
ALERTA DE POUQUÍSSIMOS SPOILERS: SÓ VOU REVELAR QUAL É O JOGO, SEM DIZER NADA SOBRE A AÇÃO E O DESTINO DOS PERSONAGENS.
O jogo que se desenrola no episódio Noite Estrelada é apresentado no capítulo de estreia da temporada final. Antes de conhecerem o objetivo e as regras, os competidores devem, por sorteio, se dividir ao meio em duas equipes. Uma equipe vai colocar coletes vermelhos, a outra vai usar coletes azuis.

Inevitavelmente, essa divisão por sorteio separa jogadores que têm ligações afetivas. O que deixa a disputa ainda mais sinistra. Todos sabem que terão de enfrentar uns aos outros, mas no quê?
Logo vem a bomba. A brincadeira mortífera se chama esconde-esconde. O time azul tem 30 minutos para encontrar a saída e escapar, ou então deve se esconder da equipe vermelha até o fim do jogo. O time vermelho tem de encontrar os membros da equipe azul e matá-los dentro desses 30 minutos. Quem não matar nenhum oponente será eliminado.
Cada jogador ganha uma caixa de presente. Nas da equipe azul, há uma chave que pode abrir portas. Nas da equipe vermelha, uma faca afiadíssima.

Naquele labirinto sangrento, a tática, o vigor, a sorte, o heroísmo e mesmo a arapuca podem não ser o bastante para a sobrevivência. A natureza humana é testada até seu limite. Deixai toda a esperança, vós que entrais.
No suposto conforto do nosso lar, na suposta proteção de nossa casa, vamos nos sentir unidos aos jogadores como nunca estivemos. Por um instante, podemos inclusive achar que estamos vestidos com a calça de abrigo e o agasalho verdes. Porque compartilhamos o mesmo suor, a mesma aflição. A única diferença é que, do lado de cá, dá para apertar um botão e recuperar o fôlego, enquanto os personagens não têm tempo de respirar.
Ao sufoco, soma-se o choque. Decisões de altíssimo impacto devem ser tomadas quase a cada minuto. Decisões irreversíveis são tomadas. Quando você pensar que o pior já passou, aí vem o bote fatal.
Ninguém está preparado para resolver aquela situação. Ninguém sai ileso. Nem os personagens, nem os espectadores. A lembrança daquelas cenas vai cortar feito faca.
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