
Lançada na sexta-feira (29), a nova série policial da Netflix faz a gente querer ver seus nove episódios em uma sentada. Dept. Q (2025) convida a desvendar não apenas um, mas dois mistérios absolutamente intrigantes. Não à toa, logo se tornou um dos títulos mais vistos na plataforma — ocupa o top 2 nesta segunda (2).
A série também cativa porque oferece um quebra-cabeças desafiador: exige concentração dos personagens e dos espectadores para encaixar as peças. Quanto menos soubermos o que estamos montando, ou seja, quanto mais no escuro o público estiver em relação à trama, maior será nosso envolvimento na investigação e nosso fascínio com o quadro que vai aparecendo.
Portanto, nesta coluna não haverá spoilers sobre a história protagonizada por Matthew Goode, ator inglês visto em filmes como Match Point (2005) e O Jogo da Imitação (2014) e que encarnou o produtor cinematográfico Robert Evans na minissérie The Offer (2022). O elenco inclui outros rostos conhecidos, como Kelly Macdonald, a Margaret da série Boardwalk Empire (2010-2014), e Kate Dickie, a mãe de A Bruxa (2015).

Dept Q é baseada no primeiro livro da série de 10 volumes escrita pelo dinamarquês Jussi Adler-Olsen, publicado no Brasil pela Record sob o título A Mulher Enjaulada, em 2014 — a editora também lançou A Caça, em 2015, mas depois não deu continuidade. Na Dinamarca, os romances já originaram seis filmes, começando por O Guardião das Causas Perdidas (2013).
A adaptação da Netflix foi desenvolvida por Scott Frank e Chandni Lakhani. Frank, que dirige seis episódios (os outros três são assinados por Elisa Amoruso), é o mesmo criador das minisséries Godless (2017) e O Gambito da Rainha (2020), pela qual ganhou dois Emmys — como um dos produtores e como diretor. Ele também tem no currículo duas indicações ao Oscar de melhor roteiro adaptado, por Irresistível Paixão (1998) e por Logan (2017).
A ideia inicial era transpor a ação de Copenhague para Boston, nos Estados Unidos, mas Frank acabou elegendo a Escócia como cenário. A escolha do país mais frio do Reino Unido permitiu à série preservar características do noir nórdico — histórias policiais ambientadas na Dinamarca (como O Homem das Castanhas), na Finlândia (Deadwind), na Islândia (Trapped), na Noruega (Borderliner) e na Suécia (Os Assassinatos de Åre).
A instabilidade climática citada por um personagem — "Isto é a Escócia: no mesmo dia pode chover, abrir sol e cair uma nevasca" — casa perfeitamente com as reviravoltas na trama: quando pensamos ter achado pecinhas que se completam, percebemos que havia outras escondidas debaixo da caixa.
Os prédios antigos de Edimburgo e suas ruas de paralelepípedos, estreitas e sinuosas, sugerem a existência de segredos no passado e perigos nas esquinas.

As baixas temperaturas e a alta frequência de chuva na Escócia (chegam a ser 250 dias por ano em regiões como as Highlands, as Terras Altas) obrigam os personagens a usarem casacos — não raro com as mãos nos bolsos —, mantas e gorros, ou seja: eles estão sempre ocultando alguma coisa, talvez sua índole ou a própria identidade.
Quem não esconde seu temperamento e seus traços desabonadores é o detetive inglês Carl Morck, papel de Matthew Goode. Arrogante e sarcástico, ele também vai ter ataques de pânico ou de fúria em público no desenrolar da trama.

Tudo começa quando Morck e seu parceiro, Hardy (James Sives), atendem ao chamado de um jovem policial para visitar a cena de um crime, onde há um homem morto com uma faca enfiada no crânio. Algo dá muito errado.
Três meses depois, Morck escamoteia seu trauma e sua culpa com impaciência e rabugice durante uma das consultas obrigatórias com a terapeuta da polícia, a doutora Rachel Irving (Kelly Macdonald). Ao voltar para o trabalho, ele acaba designado pela chefe, Moira Jacobson (Kate Dickie), para comandar um novo departamento, dedicado a reinvestigar os chamados cold cases, aqueles casos nunca solucionados.

Parece uma promoção, mas no fundo é um rebaixamento, simbolizado pelo próprio "escritório": um escuro e empoeirado vestiário no subsolo da delegacia, com mictórios e privadas ainda imundos. Sua equipe inclui uma cadete, Rose (Leah Byrne), que sofreu um colapso nervoso tempos atrás e que tenta provar seu valor, e um refugiado sírio, Akram (Alexej Manvelov), humilde e delicado, mas competentíssimo — e não só com o cérebro.
Entrementes, conhecemos a outra personagem principal da série, a ambiciosa e implacável promotora Merritt Lingard, encarnada por Chloe Pirrie. Ela surge atuando no tribunal, onde tenta convencer os jurados de que um rico e influente homem de negócios, Graham Finch (Douglas Russell), é o responsável pela morte brutal da sua esposa.

Cabe ao espectador descobrir como as duas histórias se conectam, porque desde o primeiro capítulo Dept. Q propõe enigmas a serem elucidados não só pelos agentes da lei, mas também pelo público. Somos estimulados a investigar junto — e somos cobrados a prestar atenção. Volta e meia podemos sentir a vontade ou a necessidade de apertar o pause para relembrar um fato ou uma informação dado anteriormente e que agora é visto por um outro ângulo ou interpretado de outra maneira.
Esse desafio constante torna irresistível emendar um episódio no outro. E inevitável torcer para que estreie o quanto antes a segunda temporada desta série em que, como bem resumiu a crítica Kristen Baldwin na Entertainment Weekly, pessoas machucadas buscam uma espécie de cura ao procurar um desfecho para vítimas de crimes esquecidos, abandonados ou jamais resolvidos.
É assinante mas ainda não recebe minha carta semanal exclusiva? Clique aqui e se inscreva na newsletter.
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano



