
O Esquema Fenício (The Phoenician Scheme, 2025), que estreia nos cinemas nesta quinta-feira (29), é o terceiro filme seguido do diretor Wes Anderson selecionado para competir pela Palma de Ouro no Festival de Cannes. Como aconteceu com A Crônica Francesa (2021) e com Asteroid City (2023), saiu da França sem levar nenhum prêmio.
Como A Crônica Francesa e Asteroid City, O Esquema Fenício tem 105 minutos de duração, mas parece durar bem mais do que duas horas. Eis outro filme bonito e até engraçado, mas com uma frieza que chega a ser paradoxal e com momentos absolutamente chatos. Vai ser amado e odiado pelos mesmos motivos: de um lado, estarão os fãs fervorosos do diretor de O Grande Hotel Budapeste (2014); do outro, os detratores de sempre, mas agora com a companhia daqueles que já se cansaram dos maneirismos e das repetições.
As marcas dos filmes de Wes Anderson

O 12º longa-metragem de Wes Anderson tem praticamente todas as marcas do cineasta texano de 56 anos, apesar de uma mudança significativa em sua equipe. A história foi coescrita por Roman Coppola, como de costume, e permanecem os editores Andrew Weisblum e Barney Pilling, o designer de produção Adam Stockhausen, a figurinista Milena Canonero e o compositor Alexandre Desplat, mas o diretor de fotografia Robert Yeoman deu lugar a Bruno Delbonnel, seis vezes indicado ao Oscar, a última delas por A Tragédia de Macbeth (2021).
Essa troca não descaracterizou a identidade visual: a câmera fixa "pinta" inúmeros dos famosos quadros simétricos, nos quais tudo é milimetricamente alinhado — da cenografia e da paleta de cores ao posicionamento dos atores. O Esquema Fenício é mais uma casa de bonecas de Wes Anderson, que gosta de criar um mundo à parte em seus filmes para poder brincar com suas obsessões estilísticas, que incluem a divisão da trama em capítulos e o emprego de recursos metalinguísticos.
O conceito de casa de bonecas está intimamente ligado aos temas recorrentes do diretor. Seus filmes são como tragicômicos contos de fadas para maiores, nos quais Anderson lida com o trauma pela separação de seus pais quando ele tinha oito anos. Há a nostalgia por uma infância perdida (não à toa, as histórias são sempre ambientadas no passado) e o retrato de relações familiares conturbadas, geralmente por causa de um pai ausente ou negligente — vide Os Excêntricos Tenenbaums (2001), A Vida Marinha com Steve Zissou (2004), Viagem a Darjeeling (2007)...
Nesse contexto, adultos agem como crianças, e vice-versa, como visto em Moonrise Kingdom (2012). Como se realmente fossem brinquedos, esses personagens costumam ostentar uma fisionomia impassível enquanto proferem diálogos rápidos e secos. A impressão é reforçada pela tímida movimentação física dos atores e pelo trabalho de câmera, que volta e meia se afasta para flagrá-los de longe, o que os aproximam de miniaturas.
O elenco é sempre estelar

Wes Anderson gosta de povoar suas casinhas com bonecas vistosas. Convoca sempre um time de estrelas, repetindo e agregando nomes — é como se o diretor estivesse tentando restabelecer a conexão familiar. Em O Esquema Fenício, Benicio Del Toro, que atuou em A Crônica Francesa, encarna o protagonista. Bill Murray faz sua décima colaboração com o diretor; Willem Dafoe, a sexta; Scarlett Johansson, Jeffrey Wright, Bryan Cranston, F. Murray Abraham e Mathieu Amalric, a terceira. Tom Hanks, de Asteroid City, está de volta, e os estreantes incluem dois atores indicados ao Oscar — Riz Ahmed e Benedict Cumberbatch — e um que nasceu para trabalhar com Anderson, Michael Cera, além da atriz Mia Threapleton, filha da oscarizada Kate Winslet.
Embora O Esquema Fenício seja um típico filme de Wes Anderson, a primeira cena pode surpreender bastante. Ambientada dentro de um avião que sobrevoa os Bálcãs, na década de 1950, é o que a gente pode chamar de sequência de ação e suspense — há até uma explosão e um banho de sangue —, claro que com o senso de humor e o rigor estético do diretor.
Ali conhecemos a sina do personagem principal, Anatole "Zsa Zsa" Korda, o homem mais rico da Europa, um magnata implacável que remete a figuras históricas, como William Randolph Hearst, Jean Paul Getty, Aristóteles Onassis e Howard Hughes. Ele tem um talento especial para sobreviver a tentativas de assassinato — a sugestão, definiu com precisão poética a crítica Stephanie Zacharek na revista Time, é de que "sua imoralidade seja a chave para sua imortalidade".
Uma inédita visita ao Céu

O involuntário e constante flerte de Zsa Zsa com a morte vai abrir as portas para outra inovação na obra de Anderson: a visita ao mundo espiritual. Talvez como um sinal de que tenha uma consciência, o protagonista vive sonhos perturbadores nos quais é recebido em uma espécie de Céu, sóbria e belamente fotografado em preto e branco e habitado por deuses e anjos interpretados por Bill Murray, F. Murray Abraham e Willem Dafoe.
No plano terreno, Zsa Zsa passa a refletir sobre seu legado. Com quem ficará sua herança? Quem vai sucedê-lo? Certamente não é nenhum dos nove filhos homens, meninos e adolescentes que são tratados e vistos como órfãos no filme, apesar de morarem no palácio do pai. Ele escolhe justamente a única filha, de quem está afastado há muitos anos: Liesl (Mia Threapleton, tão gélida quanto cativante), que está prestes a se tornar freira. A jovem aproveita a tentativa de reaproximação não por afeto ou interesse financeiro, mas para investigar os rumores de que Korda assassinou a sua mãe.

Então, na companhia de um tutor escandinavo, Bjorn (papel de Michael Cera, com um divertido sotaque estereotipado), Zsa Zsa e Liesl embarcam em uma excursão internacional em que o protagonista vai procurar persuadir ou ludibriar seus associados para que forneçam o dinheiro necessário a um grande projeto de infraestrutura — os detalhes são ora incompreensíveis, ora simplesmente aborrecedores.
Wes Anderson bem que tenta tornar a trama interessante, lançando mão de outros empresários excêntricos, terroristas estrangeiros, parentes traiçoeiros e políticos maquiavélicos, mas, na melhor das hipóteses, o filme soa como um comentário atrasado e pouco brilhante do diretor sobre um assunto que vem pautando títulos como O Menu (2022), Triângulo da Tristeza (2022), Piscina Infinita (2023) e Pisque Duas Vezes (2024), além das séries Succession (2018-2023) e The White Lotus (2021-): o mundo dos super-ricos, o universo de uma elite movida pela ganância.
E Anderson faz isso de uma maneira óbvia e, evidentemente, antiquada: conta uma história de redenção entre pai e filha. Aí, o artificialismo e a frieza dos filmes do diretor prejudicam o engajamento emocional do espectador. Resta rir de algumas piadas ou admirar a beleza geométrica das cenas. E cuidar para não pegar no sono, mesmo diante do corre-corre da trama e de personagens que não calam a boca.
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