
O frio convida a se enfiar debaixo de uma coberta para assistir a uma boa série policial. Que tal duas?
O Homem das Castanhas (2021), na Netflix, e Mare of Easttown (2021), na plataforma Max, são perfeitas para serem maratonadas neste fim de semana gelado: além de terem poucos episódios — respectivamente, seis e sete capítulos —, estão ambientadas em cenários invernais. E, claro, apresentam mistérios absolutamente envolventes (por isso, evitarei spoilers ao abordar as tramas).
Só não indico três porque a islandesa Trapped, que teve duas temporadas entre 2015 e 2018, está indisponível — fuja de Entrapped, um prelúdio que foi lançado pela Netflix em 2021 e que não faz jus à qualidade da série original.
O Homem das Castanhas (2021), na Netflix

Com seis capítulos e disponível na Netflix, é uma adaptação do romance homônimo escrito por Soren Sveistrup. Trata-se do mesmo autor da série The Killing (Forbrydelsen, 2007-2012), que depois ganhou uma versão nos EUA, e coautor do roteiro do filme Boneco de Neve (2017), baseado em livro do norueguês Jo Nesbo. Três dos seis episódios foram dirigidos por Mikkel Serup, e a outra metade ficou a cargo de Kasper Barfoed, de Verão de 92 (2015).
O Homem das Castanhas faturou quatro troféus no Robert, da Academia Dinamarquesa de Cinema e TV: melhor série, melhor atriz (Danica Curcic, presente no elenco da minissérie A Reserva, que estreou neste mês na Netflix), ator coadjuvante (David Dencick, o Valdo Obruchev de 007: Sem Tempo para Morrer) e atriz coadjuvante (Iben Dorner, a Sanne da aclamada Borgen). Concorriam ainda Mikkel Boe Folsgaard (do filme indicado ao Oscar internacional O Amante da Rainha e do seriado The Rain), como melhor ator, e Esben Dalgaard Andersen, como ator coadjuvante.
Não se deixe enganar pelo nome simpático: a minissérie é um típico exemplar do noir nórdico, ambientado em cenários cinzentos e paisagens gélidas, lidando com assuntos difíceis e sendo cru e violento quando necessário.
O Homem das Castanhas também reúne todos os elementos das melhores histórias policiais: crimes bárbaros, pistas intrigantes, segredos do passado, personagens ambíguos, múltiplos suspeitos, detetives com problemas, vilões com motivação e um mistério que dura o tempo certo — nem se resolve cedo demais, nem é deixado para a última cena.
De quebra, ainda aborda relações familiares, bastidores políticos e chagas sociais (afinal, estamos na Dinamarca, onde, pelo que mostram as séries e os filmes, a saúde e o bem-estar da nação são inversamente proporcionais à saúde mental e ao bem-estar de seus cidadãos).

Tudo começa em 1987 (repetindo o aviso, aqui tentarei só dar o básico para atrair o leitor), com a descoberta de um crime chocante em uma propriedade rural. Então, a trama pula para a Copenhague dos dias de hoje, onde uma jovem mãe é brutalmente assassinada. Seu corpo é encontrado em um parque, sem uma das mãos. Próximo do cadáver, há um pequeno boneco feito de castanhas.
Essa é a principal pista para a investigadora Naia Thulin (Danica Curcic), uma mãe solteira que agora conta com um novo parceiro policial, o instável Mark Hess (Mikkel Boe Folsgaard). Paralelamente, acompanhamos o difícil recomeço no trabalho da ministra Rosa Hartung (Iben Dorner) — um ano antes, sua filha desapareceu.

Qual será a conexão entre as três coisas? Intuímos que em algum momento o crime de 1987 vai voltar à tona, mas quando, como e por quê? E quem no tempo presente sabe disso? Quem está escondendo algo?
Reserve umas seis horas seguidas no dia em que resolver assistir a O Homem das Castanhas, porque depois de começar você não vai conseguir parar.
Mare of Easttown (2021), na Max

Disponível na Max, a minissérie em sete capítulos Mare of Easttown traz uma Kate Winslet que nunca vimos, mas com o talento e a entrega de sempre.
Pela primeira vez na carreira, a atriz inglesa interpretou uma detetive, depois de ser heroína de Jane Austen (em Razão e Sensibilidade, 1995), mocinha do Titanic (1997), a versão jovem de uma escritora com Alzheimer (Iris, 2001), a namorada que apaga o ex da memória (Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, 2004), uma mãe adúltera (Pecados Íntimos, 2006), uma ex-carcereira de Auschwitz (O Leitor, 2008) e a chefe de marketing da Apple (Steve Jobs, 2015), todos papéis pelos quais concorreu ao Oscar.
A minissérie foi criada e escrita por Brad Ingelsby, roteirista dos filmes Noite Sem Fim (2015), com Liam Neeson, e O Caminho de Volta (2020), com Ben Affleck. A direção é assinada por Craig Zobel, do premiado Obediência (2012). No Emmy, Mare of Easttown venceu em quatro categorias: melhor atriz (Kate Winslet), melhor ator coadjuvante (Evan Peters), melhor atriz coadjuvante (Julianne Nicholson) e melhor design de produção.

Em entrevista à Vogue, Kate Winslet enumerou motivos para ter aceitado o papel. Estava entusiasmada em voltar a trabalhar com a HBO, onde estrelou a excelente Mildred Pierce (2011), ganhadora de cinco troféus no Emmy, incluindo melhor atriz e ator coadjuvante (Guy Pearce, seu colega de elenco em Mare of Easttown). Definiu o roteiro como "uma espécie de sonho para uma atriz de meia-idade".
— E o texto era totalmente real e maravilhoso — continuou Kate. — Eu consegui me sentir dizendo aquelas palavras. Isso é sempre um parâmetro para mim: falo trechos em voz alta quando estou lendo um script, interpreto. Digo para um de meus filhos: "Vem cá e lê rapidinho esta cena comigo". E assim vou tendo a sensação de se pode ser bom. Com a Mare, eu tive essa sensação imediatamente.
Na mesma conversa, a atriz disse ter ficado fascinada com o "quem foi" desta minissérie policial, mas ressaltou que "não é só a história de um crime":
— Na verdade, é mais sobre a comunidade, sobre misericórdia, compaixão e tristeza, e sobre como as pessoas reais vivem, lidam com coisas reais e como essas coisas reais nem sempre são felizes, sabe? Podem ser muito desafiadoras. As dinâmicas familiares podem ir mudando em razão de algo que aconteceu no passado ou que está acontecendo no presente.

De fato, em Mare of Easttown o crime descoberto ao final do primeiro episódio é chocante e misterioso, mas serve fundamentalmente como um catalisador dos dramas pessoais e familiares em Easttown, cidade do Estado da Pensilvânia, nos Estados Unidos, com 10 mil habitantes. A morte traz à tona relações e segredos guardados em vida — uma imagem reforçada pela ambientação numa estação fria, que obriga os personagens a se esconderem atrás de casacos, mantas e gorros.
E todos os personagens têm o que ocultar ou algo do que não gostam de falar. A detetive Mare Sheehan, por exemplo, viveu um episódio traumático na família. Sua amiga Beth (Chinasa Ogbuagu) já não sabe como lidar com o irmão viciado em drogas. O diácono Mark Burton (James McArdle) foi transferido de paróquia em circunstâncias mal esclarecidas.

Os tipos criados pelo roteirista Ingelsby são muito críveis, e o diretor Zobel dá espaço para o desenvolvimento de um elenco que inclui David Denman (o eterno noivo de Pam no seriado The Office), Julianne Nicholson e Evan Peters. A fotografia é naturalista, a edição, cadenciada, e a direção de arte também é crucial, desde as casas de gente como a gente até o figurino desgastado.
Toda a técnica está a serviço das angústias e dos dilemas enfrentados por uma série de personagens femininas que têm um traço em comum: são mães. Entre elas, além da própria Mare, estão Dawn (interpretada por Enid Graham), que há um ano amarga o desaparecimento da filha adolescente, Katie Bailey, e Erin (Cailee Spaeny, premiada no Festival de Veneza por Priscilla), que, aos 16 anos, luta para que o ex-namorado ajude a pagar a cirurgia do bebê deles. Há também uma mulher que lida com a infidelidade do marido e uma dependente química em recuperação que promete busca na Justiça a guarda do filho.
No meio desse sufoco emocional, no meio de uma investigação efetivamente intrigante, Mare of Easttown oferece momentos de insuspeitado alívio cômico. Começa com um policial que não pode ver sangue, inclui muitas das cenas com Evan Peters e tem como ápice a mãe de Mare, Helen, encarnada pela veterana Jean Smart, ganhadora de seis Emmys por seriados de humor (Frasier, Samantha Who? e Hacks).

Kate Winslet circula por duas ou três dezenas de personagens demonstrando sua versatilidade de registro — podemos sofrer com ela, podemos rir com ela — e sua capacidade de desaparecer dentro de um papel.
Sim, sabemos que ali está uma atriz indicada sete vezes ao Oscar, uma atriz que desde o final dos anos 1990 virou alvo dos tabloides britânicos e estadunidenses (ora por conta de seu peso, ora por conta de sua vida amorosa), uma atriz prestes a completar 35 anos de carreira, em 2026. Mas logo de cara acreditamos em Mare Sheehan como uma pessoa de carne e osso, com suas convicções, suas manias, seus desejos, suas falhas, seus esqueletos no armário. Estamos juntos nas pequenas alegrias, estamos juntos nas mancadas vergonhosas, estamos juntos naquela sequência tensa, aflitiva e ofegante que fecha o quinto episódio e que reforça as palavras da protagonista: não é só a história de um crime.
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