
Estreia nos cinemas nesta quinta-feira (3) um desses filmes sobre os quais não se pode falar muito, para não privar o espectador do espanto e do impacto. Trata-se de Desconhecidos, o nome dado no Brasil a Strange Darling (2023).
É o segundo longa-metragem do — com o perdão do trocadilho infame — desconhecido JT Mollner, autor de Criminosos e Anjos (2016).
A trama gira em torno de um homem (papel de Kyle Gallner, de A Hora do Exorcismo, Pânico e Sorria) e uma mulher (Willa Fitzgerald, da primeira temporada de Reacher), os desconhecidos do título brasileiro. O que era para ser um simples caso de uma noite se transforma em uma caçada sangrenta.
Cronologia tipo "Pulp Fiction"
Diretor e roteirista, Mollner confunde a percepção do espectador ao embaralhar a cronologia da trama, à la Pulp Fiction (1994). Os seis capítulos são contados fora de ordem, começando pelo terceiro.
E depois a narrativa pode ir para frente ou para trás. Cada capítulo traz uma nova reviravolta.

Sucesso de crítica, fracasso de público
Nos Estados Unidos, Desconhecidos recebeu fartos elogios da crítica e da própria indústria. No jornal The New York Times, Jeannette Catsoulis escreveu que o thriller "transforma uma premissa simples de gato e rato — e talvez até mesmo uma história de amor tóxico — em uma repreensão impertinente aos clichês do gênero e às nossas próprias suposições pré-programadas".
Cocriador de um dos maiores fenômenos da TV, a série Lost (2004-2010), e diretor da quinta maior bilheteria de todos os tempos, Star Wars: O Despertar da Força (2015), J.J. Abrams afirmou: "Diga um filme melhor neste ano. É aterrorizante, hilário, de cortar o coração, sexy e selvagem. Uma verdadeira obra-prima de suspense cinematográfico. Perdi a cabeça por Desconhecidos".

A recepção não foi equivalente no circuito de premiações — não à toa, a associação dos críticos de Phoenix elegeu Desconhecidos o melhor filme subestimado do ano.
O maior reconhecimento veio no Saturn Awards de 2025, concedido pela Academia de Filmes de Ficção Científica, Fantasia e Horror dos Estados Unidos. Venceu a categoria de melhor thriller e recebeu mais seis indicações: melhor direção, melhor atriz, melhor ator, atriz coadjuvante (Barbara Hershey), roteiro e edição (Christopher Robin Bell).
Já o desempenho junto ao público pode ser considerado um fiasco: orçado entre US$ 4 milhões e US$ 10 milhões, arrecadou somente US$ 4,8 milhões.
E, verdade seja dita, não faltam críticas negativas. Se há quem ache Desconhecidos absolutamente inovador e surpreendente, valorizando também a direção de fotografia assinada pelo ator Giovanni Ribisi, com cores estouradas e tomadas relativamente longas, também há quem o considere um mero e monótono exercício estético.

Se há quem aponte um viés feminista na trama, há também que veja o filme como misógino (revelar motivos seria dar spoilers).
Para mim, o fato de despertar de leituras tão antagônicas é por si só um dos trunfos de Desconhecidos. Gosto de filmes assim, que não são mornos, que repelem a indiferença, que têm a ambição de se tornarem inesquecíveis.
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