Às vésperas da sessão em que o Supremo Tribunal Federal vai decidir se o ministro Alexandre de Moraes deve ser investigado por suas ligações com Daniel Vorcaro, o Brasil assiste a uma guerra sem precedentes dentro da Corte. São tantos os pedidos feitos e as decisões tomadas durante o fim de semana que qualquer previsão sobre desfecho pode envelhecer precocemente.
O desafio do presidente do Supremo, Edson Fachin, é evitar que as manobras em curso criem o ambiente para a impunidade.
O embaralhamento das cartas mostra que são reais as chances de o julgamento de Moraes e André Mendonça ficar para depois da eleição. É esse o jogo de Moraes e seus aliados.
O mais recente pomo da discórdia é o pedido de acesso à íntegra do conteúdo extraído do celular principal de Daniel Vorcaro. Em resposta ao pedido dos colegas que querem acesso a todas as trocas de mensagens, Mendonça primeiro disse que não as tinha. Depois, alertou que não seria conveniente entregar esse calhamaço de documentos aos ministros, sob pena de tumultuar o julgamento de Moraes, marcado para terça-feira (15), e prejudicar a investigação com a divulgação de trechos que não estão nos autos.
A Polícia Federal afirma o contrário: que encaminhou a íntegra ao gabinete do relator. Desconfiado de que Mendonça não entregaria os documentos, o ministro Cristiano Zanin buscou um atalho e determinou à Polícia Federal a entrega do material em seu gabinete até as 23h deste domingo (13). Nos “considerandos” de sua decisão, Zanin assinalou que Mendonça não só recebeu a íntegra da Polícia Federal, como disponibilizou cópia para a CPI do Master.
Apesar do compromisso com o sigilo, foi pela CPI que vazaram as primeiras informações sobre os achados da PF no celular de Vorcaro, incluindo a troca de mensagens íntimas com a então namorada Martha Graeff.
Se todos os ministros que pediram acesso ao conteúdo do telefone de Vorcaro quiserem fazer um estudo detalhado do que é público e do que não foi revelado até agora, dificilmente estarão aptos a julgar Moraes na terça-feira, a menos que montem uma força-tarefa para buscar as respostas em menos de 48 horas, usando a inteligência artificial. Não será surpresa se houver um pedido de adiamento, comprometendo o cronograma do ministro Edson Fachin, que marcou para o dia 23 o julgamento de Mendonça.
Além de Zanin, Gilmar Mendes e o próprio Moraes pediram acesso à íntegra do que está no telefone de Vorcaro. Em outra frente, Dino levantou o sigilo da parte que lhe toca na investigação do filme Dark Horse, como relator do suposto uso de emenda parlamentar no financiamento da produção.
Cármen Lúcia, Luiz Fux e Kássio Nunes Marques não pediram acesso ao telefone de Vorcaro. Dias Toffoli, que foi o primeiro relator e tentou abafar a investigação, deveria se declarar impedido de julgar os dois colegas.
Com a reportagem da revista Piauí sobre suas ligações com Daniel Vorcaro, seria necessário o Supremo revisar a decisão que, em uma reunião fechada, livrou Toffoli de uma investigação. O que pesa contra Toffoli não é menos grave do que as conversas de Moraes com Vorcaro, que estão no foco da reunião de terça-feira.
O que os aliados de Moraes insinuam é que André Mendonça tentou direcionar as investigações para defender os interesses da família Bolsonaro. A situação do ministro ficou mais delicada com a revelação de que a defesa de Flávio Bolsonaro acionou o STF para tentar tirar de Flávio Dino a investigação sobre suposto uso de emenda parlamentar do deputado Mario Frias para financiar o filme Dark Horse, sobre a vida de Jair Bolsonaro. Fachin não cedeu porque até os estagiários do Supremo sabem que não cabe ao investigado escolher o juiz que vai julgá-lo.



